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A semana transacta trouxe ao futebol português – mais do que uma típica jornada de campeonato e de Taça da Liga onde os grandes se impuseram com naturalidade – a gala do centenário da Federação Portuguesa de Futebol, em que, na última quarta-feira, diversas personalidades ligadas ao futebol nacional e internacional foram distinguidas no Casino Estoril, em Lisboa.

Aquela noite trazia, por isso, diversos motivos de interesse, entre os quais as presenças ilustres de ex-jogadores como Figo, Rui Costa, Fernando Couto, Chalana, Vítor Baía ou João Vieira Pinto; de altos dirigentes como Joseph Blatter e Michel Platini; e de treinadores como José Mourinho ou o actual selecionador nacional, Fernando Santos. É, por isso, fácil de constatar que, no passado dia 14, se assistiu a uma verdadeira parada de estrelas em Cascais, onde, à margem da conferência Football Talks, se consagraram as maiores personalidades ligadas ao futebol em Portugal. Por isso, era muito aguardada a atribuição de certos prémios, tais como a eleição do “onze histórico”, do “onze contemporâneo” ou do “onze do século”, sem nunca esquecer as nomeações para treinador e jogador do século da FPF. Entre os principais “vencedores” da noite, destacaram-se Cristiano Ronaldo, com a distinção como melhor jogador do século, e José Mourinho, eleito treinador do século para a Federação Portuguesa de Futebol. Entre o onze do século, as presenças de Vítor Baía, Fernando Couto, Germano, Humberto Coelho, Ricardo Carvalho, Coluna, Figo, Rui Costa, Cristiano Ronaldo, Eusébio e Futre são sinónimo de qualidade e sobretudo de orgulho para um país que, apesar de nunca ter vencido nada em termos de selecção A, tem dado a Portugal e ao mundo jogadores repletos de talento.

Ainda assim, e como acontece em quase todos os eventos deste género (basta relembrar o espectáculo que é feito aquando da gala para a eleição do Bola de Ouro), a polémica acabou por também marcar presença. E isso porque, tal como acontece frequentemente nestes eventos, há sempre quem critique a vitória de um determinado jogador ou treinador, enquanto há outros que criticam quem se esquece de uma ou outra homenagem a uma personalidade que, segundo eles, merecia ter sido destacada nessa gala. Depois das quatro vitórias consecutivas de Lionel Messi, que geraram críticas por parte dos fãs de Ronaldo, e das três vitórias de Cristiano, que geraram críticas por parte dos fãs de Messi, desta vez foi a Federação Portuguesa de Futebol que “levou por tabela”. E tudo porque, segundo o FC Porto, dois nomes não foram destacados no Estoril: José Maria Pedroto e Jorge Nuno Pinto da Costa.

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A conferência Football Talks foi um dos eventos organizados pela FPF no âmbito do seu 100º aniversário
Fonte: fpf.pt

Bom, de forma breve, os portistas queixaram-se do “lamentável esquecimento” da FPF, não só por ter passado ao lado de homenagear o dirigente mais titulado da história do futebol mundial mas também pela “incompreensível e inaceitável ausência de qualquer referência a José Maria Pedroto”, o primeiro treinador a “conquistar um título internacional para a Federação, bem como pelas barreiras que ajudou a derrubar no futebol português”. Assim, de forma incisiva e crítica, o FC Porto decidiu insurgir-se contra a Federação Portuguesa de Futebol, abrindo uma frente de ataque que não é de agora relativamente a Fernando Gomes.

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Para quem, como eu, viu enquanto espectador e analista a gala da FPF e o comunicado do FC Porto, apetece dizer que toda esta situação dá vontade de rir. Digo-o porque, como em tantas outras ocasiões, a razão está dos dois lados e simultaneamente não está em nenhum. E a explicação para tal acontecimento é simples: tal como sucede nas galas de atribuição de prémios a jogadores ou treinadores, também eu não concordei com algumas presenças e esquecimentos de jogadores e dirigentes na cerimónia da Federação Portuguesa de Futebol. Para mim, que só comecei a gostar de futebol de forma apaixonada a partir da entrada do novo século, não ver o nome de João Vieira Pinto no onze do século é absolutamente ridículo. Tal como, na minha opinião, não faz sentido que um árbitro como Pedro Proença – que não apita há mais de dois meses no campeonato português sem razão justificativa (aparentemente “amuou” por não ter apitado a final do Mundial de Clubes) – seja nomeado melhor árbitro do século para a Federação Portuguesa de Futebol. Mas, como tudo na vida, isto são apenas opiniões que podem ser ou não aceites consoante os gostos pessoais.

Mas, voltando ao princípio, e tal como já referi, o FC Porto tem, de facto, na minha opinião, razões de queixa. Não em relação a Pedroto – com todo o respeito que me merece o saudoso “Zé do Boné” – até porque o ex-técnico acabou por ficar em segundo lugar na nomeação para treinador do século. Agora, relativamente a Pinto da Costa, a minha opinião é bem distinta. De facto, com tantos campeonatos nacionais, Taças de Portugal, Supertaças, Ligas dos Campeões, Taça UEFA, Liga Europa e Intercontinentais, não existem adjectivos suficientes para ilustrar o que tem sido o percurso de Pinto da Costa no FC Porto, a importância deste para o futebol português e, por conseguinte, o esquecimento que teve na Federação Portuguesa de Futebol. Bem sei que o argumento utilizado por alguns puristas foi o de nenhum dirigente ter sido premiado. Bom, o facto é que, ao longo dos últimos trinta anos, por entre os erros que cometeu e os títulos que ganhou, penso que Pinto da Costa, salvo melhor opinião, merecia lugar de destaque numa gala como a que tivemos na passada quarta-feira.

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O golo de Kelvin diante do Benfica ficou para a história
Fonte: Página de Facebook de Kelvin

Contudo, e como disse anteriormente, o FC Porto também não tem toda a razão do mundo quando se fala de distinções. E, para sustentar a minha opinião, basta olhar para o museu do clube e para o tão divulgado “Espaço K”. Por mais estranheza que possa causar, naquele que é um dos lugares mais especiais do clube – pois lá se encontram presentes as grandes memórias e vitórias do passado – é homenageado um jogador, de seu nome Kelvin, cuja “única” coisa feita no clube foi ter marcado um golo decisivo ao Benfica, ao minuto 92. Caro leitor, não estou com isto a ser, como se diz na minha terra, “pobre e mal agradecido” pelo que fez o avançado brasileiro. Aliás, se calhar o golo de Kelvin foi aquele que mais festejei no Dragão desde o célebre dia 16 de Novembro de 2003, a data em que o palco das emoções foi inaugurado. Mas, para alguém que já viu tantos jogadores de classe com a camisola portista, desde Baía e Helton, passando por Danilo, Pepe, Ricardo Carvalho, Bruno Alves, Jorge Costa, Fernando, Lucho, Deco, Moutinho, James, Lisandro, Hulk ou Falcao, ver Kelvin a ser distinguido no museu do clube com um lugar só seu não faz sentido.

Bem sei que muito provavelmente irei, depois deste texto, ser atacado por muitos companheiros de sofrimento pelo clube. Bem sei que esta é uma cruzada onde possivelmente “luto” sozinho. Mas, caro leitor, apesar de reconhecer que o futebol é feito de momentos, não vejo o porquê de o clube não ter no seu museu um espaço “D”, que pudesse distinguir a memorável exibição de Derlei na vitória em Sevilha, contra o Celtic; um espaço “D”, que distinguisse a exibição de Deco, em Gelsenkirchen, na final contra o Mónaco; ou um espaço “F”, que homenageasse os 17 golos da autoria de Falcao na gloriosa campanha na Liga Europa culminada com a vitória, em 2011. O problema é que, infelizmente, o Celtic, o Mónaco ou o Sp. Braga não têm o peso simbólico que o Benfica tem para a esmagadora maioria dos dirigentes e adeptos do FC Porto. Para mim, que opto por ignorar rivalidades baseadas no ódio (ressalve-se, com culpas de ambas as partes), é preferível ter na memória outros “espaços”, como o que se pode ver no museu. Só que nos meus perduram jogadores que foram mais do que simples protagonistas de um momento. Nos meus estão jogadores que marcaram uma era e marcaram o clube.

São prioridades, pois claro. O futebol português é mesmo isto. E se calhar é por isso que precisa tanto de vassouras.

Foto de capa: fpf.pt

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