dosaliadosaodragao

Quando Janeiro chegou e, com ele, o mercado de transferências reabriu, era já evidente que o plantel do FC Porto era desequilibrado. Nesse momento, vislumbrou-se em Quaresma uma solução e em Otamendi um problema a resolver. Com mais alguns retoques cirúrgicos pelo meio, hoje, fazendo um balanço quase aritmético, é fácil de concluir que o plantel do Dragão acabou por não ficar melhor do que o que estava – mesmo sabendo que os truques e magias de Quaresma vieram servir de curto paliativo aos adeptos portistas, a equipa, no geral, não ficou mais forte.

Mais do que a equipa, foi o FC Porto que não ficou melhor. E falando não apenas dentro das quatro linhas… Dois anos e dois campeonatos conquistados depois de ter regressado, Lucho González partiu para o Al-Rayyan, do Qatar. Discutir a opção de carreira do médio argentino é inócuo, mas perceber o que o FC Porto perdeu com a sua saída já não o será, parece-me.

Nesses dias de Janeiro, uma franja de adeptos azuis-e-brancos considerava que Lucho já pouco acrescentava à equipa, que não tinha capacidade para ser sempre titular e que os seus melhores anos estavam já para trás. E que, por tudo isso, a equipa acabaria por responder de forma positiva, pois havia sangue novo à espreita – grosso modo, era este o entendimento geral.

Mesmo deslocado, Lucho teve boas prestações esta temporada, como na Rússia, diante do Zenit  Fonte: Daily Mail
Mesmo deslocado, Lucho teve boas prestações esta temporada, como na Rússia, diante do Zenit
Fonte: Daily Mail

Fui daqueles que, mais do que surpreendido, não percebeu a partida de El Comandante. Mesmo ignorando as notícias (ou boatos e meras conjecturas?) que sempre surgiram de que havia algum mal-estar no balneário ou a confissão do próprio Lucho de que não se sentia tão cómodo e feliz como anteriormente, parece-me inegável que a saída do capitão de equipa (relembre-se) foi contraproducente. E foi-o por dois motivos.

Primeiro porque, sendo evidente que, aos 33 anos, Lucho não apresentava já a intensidade e frescura física de outros tempos, a verdade é que o esquema pensado por Paulo Fonseca para o FC Porto o prejudicou de forma gritante. Lucho passou seis meses a jogar colado a Jackson Martinez, numa função que nunca desempenhara e para a qual, claramente, não estava talhado. Mais, esteve sempre muito mais perto da baliza adversária do que da restante equipa, equipa essa que durante toda a época demonstrou uma incapacidade gritante no processo de construção de jogo. Quiçá porque Lucho esteve longe do papel central que sempre desempenhara; e talvez, por isso, o seu rendimento tanto tenha decrescido, com as naturais críticas de alguns adeptos – principalmente daqueles que nunca perceberam que o argentino era muito mais vítima do que réu.

Por outro lado, numa equipa claramente órfã de líderes e de jogadores que encarnem o ‘ser Porto’, Lucho era uma imensa mais-valia. Um dos jogadores estrangeiros que mais facilmente se identificaram e apreenderam a mística do Dragão, um dos grandes ídolos da massa associativa e alguém a quem se reconhecia singulares qualidades humanas que o projectavam como o líder da equipa e do balneário. Quando alguém deu o aval à partida de Lucho, saberia que o FC Porto, mais do que ficar menos forte dentro das quatro linhas, perdia uma referência fora delas.

A fibra de El Comandante. Poucos foram os estrangeiros que sentiram o clube como Lucho  Fonte: direttanews.it
A fibra de El Comandante. Poucos foram os estrangeiros que sentiram o clube como Lucho
Fonte: direttanews.it

Neste fim de época tão negro para o anterior tri-campeão nacional, é inevitável pensar como não poderia ter sido a época do FC Porto com El Comandante até ao fim. Não que Lucho fosse catapultar, per si, a equipa e o jogo desta para outros patamares; mas a entrada de Luís Castro e o redimensionar táctico deste FC Porto para um esquema (4-3-3) muito mais favorável ao argentino (e no qual este sempre se habituara a jogar de Dragão ao peito) poderia ter dado a Lucho uns últimos meses de época a outro nível, e, com a sua classe, visão de jogo, capacidade de passe e racionalidade, ter impulsionado as performances do conjunto azul-e-branco. E tal é ainda mais gritante se pensarmos que as discussões sobre o rendimento da equipa sempre foram muito em torno dos elementos que incluíam o meio-campo e que, à excepção de Fernando, nunca se conseguiram impor de forma consistente e apresentar um rendimento nivelado por cima.

Por outro lado, o que penso é ainda corroborado por aquilo que sucedeu nestas últimas semanas, de desaire em desaire, alguns deles com contornos, inclusivamente, de humilhação. Sendo impossível o contra factual, jogos como o de Sevilha ou os das Taças diante do Benfica, à cabeça, poderiam ter tido outro desfecho com alguém dentro de campo que soubesse segurar e agarrar em equipa em momentos de aperto, dando um berro de alerta e motivação e com capacidade para a organizar e orientar. Em suma, sem a deixar perdida em si mesmo, descontrolada, e caindo com estrondo. Ou, como dizia Jesualdo Ferreira, sendo o seu treinador em campo.

De todo em todo, tenho por certo que Lucho perdurará como um dos jogadores mais acarinhados pelos adeptos do FC Porto e respeitado (quase de forma unânime) por todos aqueles que gostam do desporto-rei. Pelo perfume do seu futebol, pelo trato da bola, pela classe do seu jogo e pelas suas inúmeras assistências e golos, alguns deles de grandiosa importância. Para o adepto portista – ou, pelo menos, para este – fica o amargo de boca de uma despedida sem as honras que El Comandante merecia. Mas, mais do que isso, de uma despedida demasiado antecipada – o FC Porto, às vezes, dá-se a estes luxos.

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