dosaliadosaodragao

Desafiarem-me a escrever sobre o meu clube seria, em qualquer altura, um prazer. Porém, neste momento, revela-se, em igual medida, angustiante.
Olho para este Porto versão 2013/2014 e vejo uma manta de retalhos. As questões amontoam-se; tantos são os equívocos, tamanhos são os erros que, seguramente, uma bela colectânea de artigos não chegaria para analisar e deslindar tudo o que (de mau) vai acontecendo no reino do Dragão.

Ainda assim, proponho-me a tal, começando por tratar de algo que me parece evidente: Lucho González. Ou, se quiserem, o luxo que vamos desperdiçando.
Paulo Fonseca, líder incontestável em Pinhal Novo ou na Vila das Alves, do alto do apuramento conseguido para o Play-Off da Liga milionária com os ‘castores’ de Paços, decidiu replicar no Dragão – com a promessa de revitalizar o tri-campeão amorfo e sonolento de Vítor Pereira – o 4-2-3-1 que tanto sucesso lhe tinha garantido. Mais do que discutir um sistema táctico – que, per si, de pouco vale, diga-se –, a questão passa por perceber o que deseja, afinal, o Mister do núcleo central da equipa, exactamente aquele que de uma forma mais directa se propôs alterar.

Lucho e Fernando, dois simbolos do actual FC Porto. Fonte: http://www.dn.pt/
Lucho e Fernando, dois símbolos do actual FC Porto.
Fonte: dn.pt

Com um trinco como Fernando, ‘o Polvo’, e dispondo de um jogador com a classe, experiência, inteligência e visão de jogo de Lucho González, o problema passaria por saber quem assumiria o papel de intermediário entre estes dois. Castro? Defour? Herrera? Josué? O primeiro foi, mais uma vez, emprestado, por forma a ganhar a experiência e a maturidade de que, ano após a ano, continua a carecer, dizem; por já não haver Moutinho, o belga e o mexicano, pela lógica, discutiriam o lugar, havendo ainda o nome de Josué para baralhar as contas.

Ora, estamos em finais de Novembro, a Champions esvai-se por entre os dedos e a liderança do Campeonato é trémula. Ainda que os problemas da equipa azul e branca não se possam – infelizmente! – reduzir a este ponto, parece-me que a questão-chave pode passar por aqui.
No meio-campo que Fonseca vem idealizando, Fernando é indiscutível, Herrera e Defour alternam entre si e Lucho vive como uma uma ilha, a 20/30 metros destes dois. Perto da baliza (e de Jackson), longe do jogo.
Confesso, no início a ideia pareceu-me plausível: em processo ofensivo, El Comandante tem uma capacidade de último passe acima da média, sabe jogar ao primeiro toque, conserva uma capacidade finalizadora respeitável, é inteligente e, recebendo jogo, poderia funcionar como placa giratória, permitindo as combinações e tabelinhas com os extremos e laterais (e mesmo médios) surgidos desde trás.

Paulo Fonseca - mudar será um sinal de inteligência. Fonte:http://www.reflexaoportista.pt/
Paulo Fonseca – mudar será um sinal de inteligência.
Fonte: uefa.com

Contudo, tal esquema versão ‘Porto Fonseca’ defronta-se com um duplo problema: atrás, com Defour ou Herrera, não há ninguém que tenha capacidade para pegar no jogo, para construir organizada e pausadamente, para entender os momentos em que se deve temporizar, acelerar ou arriscar um passe que queime linhas e desorganize o adversário (em vez de somente lateralizar ou procurar a linha de passe 100% segura) ou, pelo menos, que se disponha a transportar bola, galgando metros, levando-a até ao argentino e permitindo o desequilíbrio, assumindo-se como um verdadeiro box-to-box (um comparativo: Dortmund e Real vivem em duplo pivot e sentem-se confortáveis com isso – com outra dimensão, é certo, Xabi Alonso e Bender assumem o jogo organizado desde trás; Khedira e Gundogan têm capacidade para, em transporte, queimar linhas e fazer a bola chegar mais à frente). Por outra, o ex-Marselha vive demasiado longe do núcleo central do campo, desligado, muitas vezes a par de Jackson (no último jogo frente ao Nacional, foi notório, em alguns momentos, a convivência na mesma linha), recebendo frequentemente a bola de costas e sem apoios. Descontando, claro está, o tempo em que anda desaparecido do jogo por, precisamente, não a receber.

A par desta situação, o esquema de Fonseca obriga a que Lucho seja o primeiro homem a pressionar perante a perda de bola (pressão essa frequentemente deficiente, dada a distância entre as linhas do meio-campo, justamente), não protegendo fisicamente aquele que, em condições normais, seria o cérebro da equipa e que, convenhamos, conta já com quase 33 anos.

«Sempre admirei Lucho Gonzalez», Paulo Fonseca. Fonte: http://www.reflexaoportista.pt/
«Sempre admirei Lucho Gonzalez», Paulo Fonseca.
Fonte: reflexaoportista.pt

Perante este cenário, acredito que a solução para tornar o jogo do Porto mais fluído e escorreito, organizado e passível de criar mais problemas ao adversário, passa por recuar El Comandante para, junto de Fernando, dar forma ao duplo pivot de que (aparentemente) Fonseca não abdica. Com isto, Lucho passaria a estar ‘dentro’ do jogo, a encará-lo de frente, podendo, com a qualidade que Defour nunca terá e que Herrera ainda não tem, assumir as rédeas da equipa e fazê-la jogar.

Questão igualmente relevante seria a de, colateralmente, Quintero assumir o seu espaço nas costas de Jackson, vagabundeando por toda a frente atacante.
Acredito – e isto é realmente mera convicção pessoal – que, com posse de bola, os melhores momentos do Porto passar-se-iam em função de um meio-campo desenhado por Fernando (o guarda-costas); Lucho (a soltar-se do duplo pivot); Quintero (tendencialmente ao centro), com capacidade de explosão, drible curto e rápido, remate violento; e Josué (falso extremo à semelhança de James, vindo da direita em movimentos interiores), com inteligência de jogo e capacidade de passe, permitindo abrir espaços para Danilo fazer o que melhor sabe (surgir embalado desde trás) e com um extremo, do lado oposto, que ofereça largura e profundidade ao jogo da equipa

Talvez quando Fonseca perceber isto (e que não seja tarde de mais!), todos os males de que este Porto padece (mau planeamento do plantel, erros individuais em doses anormais, falta de punição para os reincidentes em erros, fraca organização defensiva, baixos índices de eficácia, substituições tardias, …) possam ser mais facilmente camufláveis e a crítica de que não se adaptou à realidade onde caiu seja, então, injusta. Até lá, porém, continuarei sem ser desmentido.

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