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Quando André Villas-Boas decidiu emigrar e deixar para trás a ‘cadeira de sonho’, os então pupilos do jovem técnico encontraram-se nos olhares e nas angústias e questionaram-se: “se depois de nos ter guiado e ajudado a ganhar tudo, ele nos deixa, que vamos ficar nós aqui a fazer?”. Da inquietação à acção, Falcao partiu para Madrid para ajudar à construção deste, hoje, super-Atleti, e outros, por entre desconforto e declarações menos próprias, desceram de rendimento ou acabaram por sair, com, aqui ou acolá, pequenas excepções.

Se para Vítor Pereira, a herança, per si, já era estrondosamente pesada, mais ficou com a saída do colombiano e perante a ausência de uma verdadeira alternativa. Nessa época, o FC Porto viveu com Kléber ou Hulk, primeiro, e com Janko, depois, como ‘9’. Por diferentes motivos, nenhuma das soluções era uma verdadeira garantia, ainda para mais quando o portista se habituara ao voo e à classe de El Tigre.

Percebendo-o, o Dragão atravessou o Atlântico e fez um périplo até à cidade de Chiapas, no México, buscando a sua nova galinha dos ovos de ouro. Vindo do Jaguares e com nome de estrela pop, Jackson Martinez aterrou no Porto com a promessa de ter a camisola ‘9’ à sua espera – aquela que fora de Gomes, Domingos, Lisandro ou … Falcão. E com um enorme selo de garantia, daqueles simbólicos mas impagáveis: a companhia de Pinto da Costa, num enorme depositar de confiança e expectativas.

E Jackson não desiludiu. Numa altura em que tanto se critica o colombiano, é bom ter memória: Cha Cha Cha, como lhe chamam, no primeiro jogo que fez com a camisola azul-e-branca já estava a marcar e a dar títulos ao FC Porto (1-0 contra a Académica, Supertaça 2012); depois disso – e na época de estreia no futebol europeu, não esquecer! – foi o rei dos marcadores no campeonato (26 golos), com a melhor média (0.87 golos/jogo), e ainda facturou 3 vezes em 8 jogos na Champions. Mais do que isso, ajudou, de forma incontestável (30 presenças em 30 jornadas, 2685 minutos em 2700 possíveis) a equipa a revalidar o ceptro de campeão nacional e, ao todo, em 43 jogos, facturou 31 vezes. Nada mau para um rookie

Faça sol ou chuva, Jackson é a referência do ataque portista  Fonte: A Bola
Faça sol ou chuva, Jackson é a referência do ataque portista
Fonte: A Bola

E, ainda que vivamos numa ditadura dos números, o futebol continua a ser bem mais do que isso. Jackson é o protótipo do ponta-de-lança moderno: forte e imponente fisicamente, com poder de choque, é perito em recuar e dar apoio central ao jogo da equipa, endossando depois para as laterais, permitindo a exploração da largura de jogo do colectivo. Mais do que isso, tem grande qualidade técnica (é incrível, principalmente, a forma como recepciona a bola, tornando-a desde logo jogável em óptimas condições), é relativamente rápido e tem boa impulsão, à qual alia um jogo aéreo bem interessante. Apesar da sua densidade corporal, sabe cair nos flancos e, mais importante para um ‘9’, posicionar-se na área. Junta à sua enorme eficácia um dom natural para assinar golos e jogadas recheadas de ‘nota artística’, como o tento diante do Sporting, no Dragão, na época passada.

Numa altura em que tanto (ou quase tudo) se coloca em causa no FC Porto, o colombiano não está imune às críticas. É até natural que assim seja, tamanha é a incredulidade portista com a falta de qualidade e personalidade que o Dragão passeou por tantos e tantos campos esta época. De facto, o penalty falhado (e a forma como o falhou) diante do Benfica, no último Domingo, levou a um explodir de frustração sobre Jackson, que, em abono de verdade, é exagerado e injusto – é certo que o actual ‘9’ do FC Porto, por vezes, diz o que pensa e não pensa no que diz, tal como claro é que o rendimento do colombiano desceu uns furos este ano, em comparação com a temporada transacta. Ainda assim, tendo isso como um dado óbvio, parece-me indesmentível que, como outros, Jackson foi muito vítima da forma como o FC Porto (não) jogou, da maneira como a equipa e o modo de jogar foram pensados principalmente por Paulo Fonseca, deixando não raras vezes Cha Cha Cha como uma verdadeira ilha (ou com um Lucho inadaptado como companheiro).

O golo diante do Sporting foi um dos momentos mais altos de Jackson com a camisola do FC Porto  Fonte: www.jornalacores9.net
O golo diante do Sporting: um dos momentos mais altos de Jackson ao serviço do FC Porto
Fonte: www.jornalacores9.net

O desgaste emocional – para além do físico – que muitos jogadores do plantel deste FC Porto foram acumulando ao longo destes meses – agravado de forma evidente após a derrota e consequente eliminação da Liga Europa às mãos do Sevilha –, com evidentes repercussões ao nível da performance dentro das quatro linhas, não deve nem pode servir como uma enorme pala para avaliar e julgar determinados jogadores que, num passado recente, já tanta qualidade demonstraram e tantos títulos assinaram. Como é o caso de Jackson.

Porque se assim for, lá terei de recorrer aos números novamente. É que, apesar de tudo, Jackson só depende de si para ser novamente o melhor marcador do campeonato (para já, 19 golos em 28 jogos), detém, de novo, a melhor média golos/jogos e, ao todo, já festejou 28 vezes em 49 jogos em toda esta sofrível temporada. E não foi com este FC Porto que o conseguiu; foi apesar deste FC Porto.

Tivesse eu a possibilidade e o atrevimento de mandar um pouco que fosse e Jackson seria o meu ponta-de-lança. E, com 27 anos, sê-lo-ia por muitos e bons anos. Até já não poder ou não saber mais dançar o Cha Cha Cha perante os centrais adversários. Se tal não for realisticamente possível, que vá ser feliz num destes tubarõ€s que por aí agora pululam. Porque qualidade para isso não lhe falta. Jackson é top. E eu sou fã.

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