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Tal como na época passada, novo nulo na apresentação dos dragões aos seus sócios. Em 2014/2015 diante do St. Etienne, hoje frente ao Napoli. Antes do futebol propriamente dito, uma nota prévia: Adrián Lopez não foi apresentado e está, por isso, fora do plantel do FC Porto para 2015/2016, contrariamente a José Angel ou Hernâni. A festa pré-jogo contou com dragões, espadas e Lopetegui a formular um único desejo para a nova temporada: vencer!

Pois bem. Vencer foi algo que não aconteceu na noite do Dragão. Está longe de ser o mais importante nesta fase, é certo, mas um tónico desses nunca é desprezível. Para enfrentar os italianos, Cissokho foi titular, Herrera também jogou de início, ao lado de Imbula e Rúben, e Varela ganhou a corrida a Tello por um lugar inicial. O futebol apresentado pelo FC Porto não variou muito do habitual: muita posse de bola (e pressão quando sem ela), domínio do jogo (mas nem sempre controlo), exploração dos corredores laterais mas pouca objectividade e ainda menor propensão para o remate. E quando ele surgiu, nunca veio acompanhado da devida eficácia.

Viram-se algumas (não muitas) coisas diferentes, sem dúvida. De facto, pela primeira vez no reinado de Lopetegui, assistiu-se a um lance de bola parada estudado: Varela protagonizou-o e Marcano cabeceou pouco ao lado. (A)notou-se também a pressão (alta) constante do FC Porto  exercida logo na primeira fase de construção do Napoli, algumas das vezes numa forma geométrica interessante, com o recuo de Aboubakar (tampão à construção pela zona central) e com a subida dos dois extremos para junto dos centrais adversários, formando um (momentâneo) 4-4-2 losango.

Quanto aos reforços, Cissokho foi rei e senhor do lado esquerdo nos primeiros 20’, afirmando-se como uma locomotiva no transporte de bola (acabou por sair lesionado aos 39’ numa fase em que já estava a perder rendimento); Imbula é um monstro do meio-campo, a perfeita personificação de um box-to-box com poderio físico, passada larga mas semelhantes índices de qualidade técnica; Maxi já se apresentou próximo dos seus níveis habituais, com muito envolvimento no ataque (combina bem com Varela); Casillas apenas foi chamado a ir ao chão uma vez, sendo que foi muito mais interventivo com os pés, capitulo onde esteve melhor do que o habitual; por fim, Varela apresentou-se muito bem, sem se esconder ao jogo, sempre disponível, forte no 1×1, a chegar à linha e com critério na tomada de decisão – parece, assim, o velho Silvestre.

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Cissokho foi titular no titular no regresso ao Dragão
Fonte: fcporto.pt

A primeira parte ficou sobretudo marcada pelas lesões de Brahimi aos 15’ (entrou Tello) e de Cissokho (foi rendido por Angel) e por quatro oportunidades de golo. A primeira pertenceu a Mertens com um remate para defesa intranquila de Casillas. Todas as restantes três caíram para o lado do dragão: Herrera, completamente sozinho na área, foi docilmente servido por Maxi mas o mexicano, mesmo com espaço, limitou-se a cabecear a bola ao lado; aos 37’, foi Varela que protagonizou um grande lance individual, defeituosamente concluído por Tello; e finalmente ao cair do pano da primeira parte, na primeira vez em que teve espaço, Aboubakar sentou o central contrário mas o remate saiu muito frouxe, tudo isto depois de um belo passe de Maxi.

O intervalo trouxe consigo inúmeras substituições: saíram Casillas, Marcano, Rúben, Herrera e Varela, entrando, para os seus lugares, Helton, Indi, Danilo, André André e Bueno. O espanhol foi vítima de (mais) uma invenção do seu treinador, tendo sido colocado a jogar a partir de uma ala procurando movimentos interiores sem bola, na tentativa de dar outro tipo de soluções no último terço. A questão é que Bueno procurou sempre esses movimentos, deixando a equipa um pouco coxa com bola (mesmo descontando que Angel até foi expedito no capitulo ofensivo, ainda que nem sempre eficaz) e desequilibrada quando sem ela, uma vez que o ex-Rayo Vallecano não tem rotinas de acompanhamento do adversário. Em suma, em teoria a ideia até pode ser boa – finalmente surgir alguém a ocupar o espaço entre a linha média e defensiva contrárias mas Bueno é um jogador pouco explosivo e ágil, que deve ‘limitar-se’ a habitar sempre os espaços interiores (tem um timing de último passe fora do comum) e não esperar-se que ele vá lá chegar, tal como faz Brahimi com bola, por exemplo – mas o resultado prático bem pode ser uma versão actualizada de Ádrian Lopez, também ele mais vítima do que réu enquanto foi dragão.

A 2ª parte revelou ainda um André André com grande pulmão, enorme resiliência e espirito de luta. Aliado a isso, apresentou um enorme discernimento e capacidade técnica, com transporte de bola e saída de qualidade. Coincidência ou não, o Porto surgiu mais ligado, com um jogo mais impositivo mas sempre sem conseguir uma penetração assídua, ainda que os melhores momentos tenham sido protagonizados por Bueno e André André (sempre bem acompanhados por Aboubakar). Por outro lado, Danilo revelou-se algo lento – terá de ser mais rápido na rotação quando recebe de costas, sob pena de colocar sempre em risco a posse de bola numa zona delicada.

Aos 60’ nova tripla substituição: saíram Maxi, Imbula e Aboubakar, por troca com Ricardo, Sérgio Oliveira e Osvaldo. Nenhum dos três veio trazer nada em especial ao jogo. O primeiro tem apetências ofensivas mas continua a comprometer em termos defensivos, designadamente com um posicionamento deficiente. Osvaldo, por seu turno, está ainda muito alheado do que é o jogar deste Porto – o que é natural – e isso foi visível sobretudo no momento em que a equipa estava à espera que fosse o #10 portista a empreender a primeira fase de pressão.

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A força de Imbula
Fonte: fcporto.pt

Certo é que o italo-argentino até poderia ter mesmo facturado caso Tello não tivesse definido mal (há coisas que não mudam …) um lance muito favorável ao ataque portista (de assinalar o grande passe de André André a lançar o espanhol). Por fim, aos 83′ acabou por sair Maicon e entrar Lichnovsky. O chileno foi o último dos dragões a ser lançado, o que significa que Evandro e André Silva não foram opções.

Em suma, tratou-se de um teste de nível considerável para o FC Porto, até porque este Napoli vai dar que falar. A equipa de Sarri (que fez um grande trabalho no Empoli) tem já uma organização defensiva de grande categoria, com excelentes coberturas e qualidade na ocupação dos espaços. Está ainda um pouco debilitada em termos ofensivos mas é de crer que o potencial que os napolitanos aparentam em breve se comece a traduzir materialmente. No Dragão o 0-0 subsistiu até final. Que, ao contrário da época passada, não seja o prenúncio para o que aí vem.

A Figura
Público do Dragão – Se dúvidas houvesse, ficaram dissipadas. Estiveram 48 mil almas no Dragão, ávidas de vitórias e com amnésia do vazio que foi a época passada. As gargantas estão renovadas mas esperançosas: Lopetegui sabe que, desta vez, nenhuma desculpa lhe vai valer.

O Fora-de-Jogo
Incapacidade portista – Já esteve pior mas o futebol portista continua a ser carente de determinados aspectos. São eles: invasão do espaço central com colocação de homens entre as linhas; criação de jogo interior fluído e objectivo (Imbula veio atenuar); tentativa de meia-distância; aproveitamento de bolas paradas ofensivas (designadamente cantos). Há espaço para melhorar – resta saber se Lopetegui já percebeu e se tem capacidade (vulgo se é a sua ideia de jogo) para tornar a sua equipa realmente mais completa.

 Foto de capa: fcporto.pt

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