eternamocidade

11 de Maio de 2013: Liedson passa a bola a Kelvin, que, aos 92 minutos, faz mexer as redes de Artur Moraes, colocando o FC Porto na liderança do campeonato a pouco mais de 90 minutos do seu final. Caro leitor, espero que me permita esta pequeno retrocesso no pensamento, porque desde que cheguei há pouco mais de uma hora do Dragão, ainda estou a tentar perceber o que é que mudou em tão pouco tempo. Uma hora depois, sentado em frente ao computador e à espera de imaginação para lhe escrever este texto, confesso que ainda não tenho explicação. Aos 94 minutos desta noite de 23 de fevereiro de 2014, ouvia o apito de Vasco Santos para o final da partida e não contive o olhar para as bancadas do Dragão. Sim, o estádio onde naquela noite de Maio tudo se transformou numa eclosão de emoções estava agora repleto de lenços brancos, num adeus cada vez mais provável.

Um mar de assobios assolou mais uma vez o Dragão, palco de uma derrota para o campeonato, o que já não acontecia há mais de 5 anos. Naquela altura, o Leixões de José Mota e o bis de Braga conquistavam o Dragão. Hoje, foi o penalty de Evandro e a inteligência táctica de Marco Silva a dar mais um argumento para o fim anunciado. Antes de mais explicações sobre aquilo que é actualmente a realidade portista, permita-me que, em poucos parágrafos, faça um resumo daquilo que se passou hoje no Dragão.

Este pode ter sido o último jogo de Paulo Fonseca como treinador do FC Porto  Fonte: Zero Zero
Este pode ter sido o último jogo de Paulo Fonseca como treinador do FC Porto
Fonte: Zero Zero

Depois do inacreditável empate em casa frente ao Frankfurt para a Liga Europa, o FC Porto entrava em campo para defrontar a revelação da prova, Estoril-Praia. Paulo Fonseca operou uma alteração em relação ao onze que havia defrontado os alemães na última partida, com a entrada de Abdoulaye para o lugar de Maicon. No Estoril, Gonçalo Santos juntou-se a Sebá nos ausentes, com Marco Silva a lançar Filipe Gonçalves e Tiago Gomes como titulares, fazendo Babanco avançar no terreno.

Os dragões até entraram bem na partida, com o desejo de querer fazer rápido e bem, mas como tem sido hábito ao longo da época, não fizeram nem uma coisa nem outra. Passes errados atrás de passes errados, numa primeira parte onde apenas Varela fez perigar a baliza de Vagner. O jogo decorria lentamente, como o Estoril queria, numa toada que o FC Porto nada fazia para contrariar. 45 minutos foram passados assim e, à saída para os balneários, o primeiro coro de assobios dos 25.000 do Dragão fez-se ouvir.

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Na segunda parte, o FC Porto entrou com outra dinâmica e, durante 15 minutos, fez o Estoril recuar as linhas, pressionando alto e criando finalmente perigo junto à baliza canarinha. Aos 53 minutos, Quaresma ziguezagueou pela área, mas viu Vagner fechar novamente as redes do Estoril. A equipa visitante ia segurando o resultado como podia, resguardando-se bem na defesa, e procurando aproveitar uma oportunidade que parecia vir a acontecer, mais tarde ou mais cedo. Depois das entradas de Carlos Eduardo e Ghilas, Fonseca procurava dar mais presença na área e acutilância ofensiva à equipa, mas a falta de eficácia no último terço do terreno fazia com que, a cada minuto que passasse, o assobio retomasse o seu lugar no Dragão e o lenço branco já pairasse entre as cadeiras do anfiteatro portista. A equipa parecia querer mudar as coisas, mas, apesar das pernas quererem, a cabeça parecia não permitir.

Aos 78 minutos, a oportunidade do Estoril surgiu. Mangala derrubou Evandro dentro da grande área e foi expulso. O mesmo Evandro, dos 11 metros, não desperdiçou a oportunidade e, sem que tivesse feito muito por isso, o Estoril, que já não tinha treinador no banco devido à expulsão de Marco Silva por protestos, apanhava-se a ganhar no Dragão, que, impávido e sereno, via o FC Porto cair mais uma vez.

Evandro, de penalty, fez o único golo da partida  Fonte: Zero Zero
Evandro, de penalty, fez o único golo da partida
Fonte: Zero Zero

Até ao fim do jogo, pouco ou nada mudou. A equipa pressionou, quis o empate, mas não conseguiu. Mais uma vez, não conseguiu. Mais de cinco anos depois, uma derrota em casa para o campeonato nacional. Entre tudo o que vi e ouvi esta noite no Dragão, isso parece-me o facto menos importante. Confesso-lhe que em tantos anos enquanto associado portista nunca vi tantos lenços brancos no Dragão como nesta noite. Em tantos anos de conquistas e vitórias, nunca tinha visto tanta polícia a proteger um banco de suplentes ameaçado pela fúria dos adeptos.

Dizia André Villas-Boas na gala dos Dragões de Ouro que o portista sente, vive e exige, e por isso ganha mais vezes. Ao olhar para tantos meses e tantos erros esta temporada, permita-me que diga que nem a exigência vale a este FC Porto. O assobio e o lenço branco são apenas gestos para simbolizar aquilo por que hoje vive o clube. E, sim, é exactamente o mesmo clube que naquela noite de 11 de maio de 2013 conquistava uma das maiores vitórias da sua história. Só mudaram os protagonistas porque o clube é o mesmo. E cá para nós, que ninguém nos ouve, sempre me contaram que o clube é maior do que qualquer um que por ele passe. Também por isso, e ao ouvir as notícias desta noite, só me resta dizer: já chega, basta um adeus. Até um dia.

Figura: Evandro
Mostrou no Dragão o porquê de ser um dos jogadores mais cobiçados na Amoreira. Revela uma capacidade tática impressionante e mais uma vez foi decisivo na vitória dos canarinhos no Dragão.

Fora-de-Jogo: Jackson Martínez
O “Sr. 40 milhões” esteve mais uma vez arredado dos golos. O avançado colombiano parece um jogador sem alma nesta altura da temporada e, numa fase em que a equipa precisa tanto dos seus golos, a sua desinspiração é apenas mais um exemplo do desnorte portista.