dosaliadosaodragao

“Dentro de 10 ou 15 anos vão continuar a falar de nós como falaram da geração de Viena”. É certo que sim… Faz hoje, precisamente, dez anos que estas palavras foram proferidas. O menino que andara no Leça e no Vitória de Setúbal, portista de gema, levantava, ao lado de todos os restantes heróis de Gelsenkirchen, a Taça da Liga dos Campeões. Prospectivas as palavras de Ricardo Carvalho, numa mescla de orgulho e felicidade, logo após o soltar de um “não acreditava que fosse possível”.

Volvidos dez anos, acredito que foi possível mas completamente improvável… Só uma conjuntura verdadeiramente excepcional permitiu juntar (e manter) numa só equipa a alma e o portismo de Vítor Baía e Jorge Costa; a sobriedade de Pedro Emanuel; a fiabilidade de Nuno Valente e Pedro Mendes; a imensa competência de Paulo Ferreira e Ricardo Carvalho; a classe de Costinha e Alenitchev; a inesgotável capacidade de luta de Derlei e Maniche; a irreverência de Carlos Alberto; o cheiro a golo de McCarthy; a infindável magia de Deco; e o génio de José Mourinho. Foram todos estes ingredientes que fizeram daquele FC Porto (2003/2004) uma máquina de futebol. Uma máquina que crescia a cada dificuldade, encontrando nos constantes desafios a sua força motriz e, sempre seguro de si, sabendo avançar, vencendo e convencendo.

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Mourinho e Deco: quiçá, os dois maiores obreiros da glória europeia  Fonte: http://chelseabrasil.com/
Mourinho e Deco: quiçá, os dois maiores obreiros da glória europeia
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Aquela noite de 26 de Maio de 2004, na impronunciável Gelsenkirchen, na Alemanha, foi apenas o selar de um percurso absolutamente brilhante, arrebatador e que fez prova viva de que não eram precisos ‘Galácticos’ para se ser o Rei da Europa. As palavras de Ricardo Carvalho, naquele momento, ganham, hoje, outra dimensão: em toda a história da Liga dos Campeões (desde 1992/1993), fora do contexto dos Adamastores financeiros (Inglaterra, Espanha, Alemanha, Itália e França), apenas duas equipas conseguiram vencer a Champions – Ajax e FC Porto. Por isso, o feito que hoje celebra uma década não tem real comparação com mais nenhum atingido por qualquer outra equipa portuguesa – nem mesmo o do Prater, em Viena, em 1987.

Recordar hoje aquele jogo diante do Mónaco, confortavelmente vencido por 3-0, é um exercício de memória mas, sobretudo, de gratidão. Por tudo o que já foi dito, dificilmente outra equipa fora do pesado circuito financeiro terá capacidade para se impor como fez aquele FC Porto. E ainda que possa parecer paradoxal, aquela equipa montada e criada por José Mourinho tinha algo que nem o cheque mais chorudo pode comprar: alma, compromisso, certeza e confiança em si mesma em doses (talvez) desmesuradas.

Os craques que vinham de vencer de forma épica a Taça UEFA tinham uma imensa sede de vitória, uma inabalável segurança, e, por isso, queriam jogar contra o Real Madrid dos ‘Galácticos’; e, por isso, venceram com categoria no dificílimo Velodróme, depois de estar a perder; e, por isso, nunca desesperaram nem se descaracterizaram em Old Trafford, até ao inesquecível golo de Costinha nos descontos; e, por isso, depois do amargo nulo com o ‘Depor’, no Dragão, fizeram uma exibição irrepreensível no Riazor e derrotaram um conjunto que, até então, não tinha sofrido qualquer golo em casa. Por tudo e por todos, se diz que o estádio do Schalke 04, há dez anos, apenas assistiu à natural glorificação de uma equipa que soube sempre ser ela própria, em qualquer estádio, perante qualquer adversário, vulgarizando todas as estatísticas e probabilidades, fazendo do topo da Europa o seu sonho. Gelsenkirchen é o símbolo disso mesmo: do futebol que encantou o Velho Continente enquanto o devorava.

Para além de vencer a Champions, Vítor Baía foi eleito o melhor guarda-redes da Europa  Fonte: imortaisdofutebol.wordpress.com
Para além de vencer a Champions, Vítor Baía foi eleito o melhor guarda-redes da Europa
Fonte: imortaisdofutebol.wordpress.com

Enaltecer o orgulhoso passado é dever dos amantes de um clube; saber tirar ilações para o futuro é uma obrigação dos responsáveis. Por mais difícil que seja replicar o contexto daquela época, é bom ter noção de como foram atingidas as épocas de maior sucesso da história do FC Porto. Esse exercício talvez tenha sido, por vezes, descurado de tão racional que seja – de todo em todo, é necessário fazê-lo. Hoje, porém, é dia de recordar e revisitar o expoente máximo do sentimento que um adepto pode atingir. Com toda a emoção, com arrepios, com pele de galinha, com lágrimas quiçá. Mas com certeza… Com a certeza de que foi possível e de que a História jamais apagará a inesquecível noite de 26 de Maio de 2004 – a do epílogo, com chave de ouro, de duas épocas de outra dimensão, de outro planeta, de outro futebol. A noite da conquista da Champions. Ou, como disse Paulo Ferreira, “uma coisa do outro mundo”.

 

“Que bonito é, que bonito, que bonito…! As bandeiras estão desfraldadas ao vento… Nós queremos agradecer aos Deuses do Futebol esta felicidade que nos enche a alma, que põe um país parado, um país emocionado! É golo do PORTO! Foi ele, balançou a rede, finalmente aparece o toque de génio e aparece o segundo do Porto!”