De entre todas as posições existentes no futebol, a posição de lateral tende a ser a de maior exigência no que diz respeito ao nível físico. Muitos defendem que, em bons laterais, é primordial saber defender, enquanto outros sustentam a tese de que antes de tudo é vital saber atacar.

De João Pinto, Paulo Ferreira e Bosingwa a Nuno Valente, Alex Sandro e Alex Telles, a posição de lateral sempre foi um caso sério no Porto. Além da chamada “mística” e raça, atributos que devem estar presentes num “jogador à Porto”, o lateral deve saber alienar de forma eficiente a capacidade defensiva à capacidade ofensiva: tem de ser capaz de evitar os avanços dos adversários no seu setor e deve ser hábil a avançar pelas extremidades do campo, criando mais alternativas de ataque com recurso a, por exemplo, cruzamentos, artifício este que remete-nos ao exímio pé esquerdo de Alex Telles que por diversas vezes assistiu os atacantes do Porto.

Observando o panorama atual, o plantel azul e branco é composto por 27 jogadores, sendo que quatro destes atuam como laterais: Zaidu, Manafá, Nanú e Carraça. Eis que surge a questão: face aos extraordinários laterais com qual o clube contou ao longo da sua história, terão os atuais jogadores do Porto, que atuam nessa posição, a qualidade necessária para compor o 11 inicial, quiçá o plantel de 27 jogadores?

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Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

Sabendo de antemão que o Porto se encontra sob alçada do fair-play financeiro da UEFA, jogadores de baixo valor de mercado tornam-se cada vez mais “apetecíveis”. Por conta da forte influência que o Porto exerce a nível interno, jogadores que atuam em “clubes pequenos” são atraídos por propostas oriundas dos “três grandes” já que, para além de auferirem um salário mais elevado, têm a possibilidade de jogar num grande clube que luta por títulos quer a nível nacional, quer a nível internacional, como é o caso de jogar uma Liga dos Campeões, a maior competição de clubes do mundo.

Posto isto, estando nos últimos quatro anos sob alçada das restrições europeias, o FC Porto aposta em jogadores que tragam garantias atuais e que tenham certa margem de progressão, deixando por vezes a qualidade em segundo plano. Claro, não quero dizer com isto que o “Porto não aposta na qualidade”, mas sim que dá primazia à competência, ou seja, ao facto de o jogador conseguir cumprir o papel sem comprometer, como era o caso de Sapunaru, lateral que atuou no Porto de 2008 a 2012: era bom a nível defensivo e a nível ofensivo não deixava a desejar.

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No atual esquema tático do Dragões, Sérgio Conceição valoriza o facto dos laterais serem rápidos, resistentes e intensos. Em 2019, no mercado de janeiro, chegou Manafá, oriundo do Portimonense, um extremo-esquerdo com potencial para lateral esquerdo ou direito, de certa forma para ocupar o lugar de Maxi Pereira, em fim de contrato, e com a idade avançada.

Em 2020, Nanú, extremo-direito proveniente do CS Marítimo, para ser alternativa a Manafá, e Carraça, um lateral-direito que estava livre no mercado. Ainda em 2020, contratou Zaidu ao CD Santa Clara para ser substituto direto de Alex Telles, algo que não aconteceu pois, o jogador brasileiro, veio a sair no fim do mercado de verão, obrigando assim Zaidu a uma rápida e brusca ascensão à titularidade.

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Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

No entanto, apesar de serem extremamente rápidos e fulgurosos a nível ofensivo, comprometem bastante a nível defensivo. Manafá e Zaidú, os laterais que somam mais minutos esta época como titulares, são o maior exemplo disso. Relativamente ao primeiro mencionado, está mais competente a nível defensivo, porém ainda tem muitas arestas a limar. Ainda assim, a sua preponderância ofensiva é fortíssima: ganha bem a linha de fundo para cruzar e associa-se muito bem com os colegas.

Já Zaidu, com uma tarefa dificílima de substituir Alex Telles, teve um início surpreendente: boas exibições no campeonato, e, por incrível que pareça, na Liga dos Campeões. Contudo, as exibições do lateral nigeriano veem a regredir progressivamente, talvez pelo cansaço proveniente de uma alta competitividade a que os jogadores do Porto estão sujeitos, competitividade esta que o jogador não está habituado. A fraca capacidade defensiva, que outrora já existia, ficou ainda mais evidente, e, a forte capacidade ofensiva que tinha, esmoreceu.

Sendo assim, mesmo com erros defensivos e baixas de forma, os laterais do Porto têm de certa forma progredido, tornando-se cada vez mais consistentes. Podemos então ver esta aposta na competência, por parte da direção do Porto e do treinador, como acertada. No entanto, por vezes, reflito: “e se o Corona tivesse no seu flanco um lateral forte defensivamente e ofensivamente?”, de certo não precisaria de compensar o Manafá tantas vezes a nível defensivo, e doaria todo o seu talento ao ataque. Porém, este é o preço a pagar pelo detrimento da qualidade em função da competência.

O Porto joga bem e ganha jogos com os laterais que tem? Sim, de facto. Porém, talvez com outros laterais, como os que já passaram na casa, a qualidade de jogo seria superior, quer a nível coletivo, quer a nível individual.

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