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Rei morto, rei posto. Sem alarido, e de forma rápida e surpreendente, o FC Porto foi a Espanha recrutar o seu novo treinador – Julen Lopetegui é o homem escolhido para fazer retornar o Dragão às vitórias. O técnico espanhol era o responsável pelas camadas jovens de La Roja e com os pequenos nuestros hermanos conquistou dois títulos, os únicos do seu palmarés: o Europeu Sub-19 (2012) e o Europeu Sub-21 (2013). A escolha não é unânime, levanta dúvidas e inquietações mas tem o condão de, pelo menos, demonstrar que Pinto da Costa e companhia estão proactivos na preparação da importante época que se avizinha.

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Julen Lopetegui é, reconhecidamente, um dos ‘pais’ da forma de jogar das actuais selecções espanholas, que muito foram beber ao titi-taka do Barcelona. Falamos de um modelo de jogo assente na posse e circulação de bola, com muita largura, sempre controlando os ritmos de jogo e, se possível, dominando-o. Porque se tiveres a bola, jamais sofrerás; porque, com ela, podes marcar. Mais do que com bola, quem tiver visto o grande Barcelona e as selecções espanholas recorda também a pressão alta e constante na busca pela recuperação do esférico o mais rápido possível, com uma linha defensiva sempre muito subida (às vezes, expondo-se até demais). Eram (e são) estas as matrizes do ‘melhor’ futebol espanhol actualmente, quase sempre montado num 4-3-3, que poderá (e deverá, creio eu) ser reeditado no Dragão – aliás, um esquema tradicionalmente adoptado pelas equipas do FC Porto e que foi atraiçoado de forma errónea por Paulo Fonseca na temporada que agora termina.

Esta filosofia – que, pessoalmente, me agrada – dá estabilidade à equipa e confiança aos jogadores – qual é o craque que não quer ter, a maioria do tempo, a bola no pé em vez de andar atrás dela? O treinador espanhol parece ter um discurso forte e interessante, para além de boas ideias sobre futebol. Algumas delas estão expressas no seu blog pessoal – http://blogs.lainformacion.com/lopeteguia/ – de onde se podem retirar alguns dos seus pensamentos sobre o jogo. Como os que expressou, aquando de um Lyon-Real Madrid, em Fevereiro de 2010: “El Real Madrid sigue careciendo de situaciones colectivas. Aún no tiene las mecanizaciones ofensivas necesarias para mover a la defensa contraria y llegar arriba cuando no le dejan espacios y el rival decide, como es el caso, jugar en pocos metros. Porque si a un equipo tan físico como el OL no lo mueves de un lado a otro, es difícil incluso tirar a puerta, como ocurrió en Gerland.” e “Y otra cuestión importante: Una cosa es jugar sin extremos y otra bien distinta es que los delanteros no caigan a banda. Porque si no hay permutas continuas de posiciones y no se ensancha el campo, es casi imposible que se abran huecos en la defensa rival. Y en esta ocasión los delanteros se movieron muchísimo, pero con poco sentido.” e ainda “Si el campo no tiene amplitud los huecos no aparecen. Y si jugamos en el centro, en pocos metros a lo largo y en pocos metros a lo ancho, la ventaja para el equipo más físico acaba siendo decisiva.”. São pequenos excertos sobre uma visão do jogo que vai ao encontro do padrão anteriormente descrito. O ideal sobre o que quer para a sua equipa parece estar presente; resta saber se, entre a teoria e a prática, nada se perde e tudo se transforma no reino do Dragão … Lope merece, pelo menos, o benefício da dúvida.

Algo obviamente intrínseco à opção por Lopetegui é a sua nacionalidade, a sua condição de profundo conhecedor do mercado futebolístico espanhol e o facto de ter trabalho com muitos valorosos jovens espanhóis. Alguns deles são já verdadeiras certezas (Thiago, Isco ou Koke) mas outros, apesar do seu enorme talento, buscam ainda uma casa que lhes permita explodir. Por estes dias, vários são os nomes apontados ao Dragão e isso é apenas um efeito colateral da contratação de Lopetegui. Desde Tello a Deulofeu passando por Moreno e Camacho, o conhecimento e a relação que o treinador espanhol tem com estes projectos de grandes jogadores podem tornar viáveis alguns interessantes negócios ao Dragão, que, de outra forma, ficariam inquinados à partida.

Lopetegui comandou os sub-21 espanhóis até ao título europeu, em 2013  Fonte: Público
Lopetegui comandou os sub-21 espanhóis até ao título europeu, em 2013
Fonte: Público

Lo que no me gusta

Por mais futebolisticamente atractiva que possa parecer esta opção por Lopetegui, o certo é que há duvidas que se mantêm no ar. Desde logo o facto de o agora treinador do FC Porto jamais ter treinado uma equipa com a responsabilidade e ambição do clube azul e branco. O contexto de Rayo Vallecano ou o Real Madrid B não tem comparação com o ambiente que Lopetegui vai vivenciar no Dragão e esse choque de realidade terá de ser ultrapassado. Por outro lado, por mais que o ex-seleccionador das camadas jovens espanholas diga que conhece o futebol português e as equipas que nele competem, o certo é que a sua visão é de alguém vindo do exterior, que não conhece as pequenas idiossincrasias do futebol português e, designadamente, a forma como as equipas pequenas se comportam e posicionam quando defrontam o FC Porto. Por semelhante dificuldade passaram outros técnicos, como Co Adriaanse no Dragão ou Koeman na Luz.

Por outro lado, paira no ar a questão que se prende com a capacidade de Lopetegui fazer o transfer seleccionador–treinador, funções com exigências e ritmos de trabalho completamente distintos, algo ainda mais agudizado se pensarmos que desde 2009 Lope não treina de forma diária consecutivamente.

Lo desconocido

Por fim, a escolha de Pinto da Costa por Lopetegui poderá querer significar uma mudança de estratégia do FC Porto. Lope foi campeão da Europa de sub-19 e sub-21 e tem anos e anos de experiência nas camadas jovens, na forma(ta)ção e lapidação de pequenos-grandes jogadores. Num contexto económico-financeiro tão complicado – e ao qual os clubes portugueses não conseguem, melhor ou pior, escapar –, até que ponto a opção pelo basco não indiciará uma mudança na condução da máquina portista e na aposta de forma mais frequente e constante nos bons valores que vão surgindo na equipa B e provindos da cantera azul-e-branca?

Por agora, é apenas uma incógnita. Mas Tozé, Gonçalo Paciência, Mikel, Kayembe, Ivo ou Rafa, por certo, farão de tudo para relembrar ao técnico espanhol que os Bartras, Illarramendis, Moratas, Muniains, Carvajals, Olivers ou Jeses também nascem deste lado da fronteira.

Outra das questões que se coloca num momento como este tem a ver com a capacidade de liderança de Lopetegui. É indesmentível que o espanhol já viveu em balneários recheados de estrelas – enquanto jogador, foi guarda-redes de Barcelona e Real Madrid –, mas o certo é que, já como treinador, a sua experiência resumiu-se a gerir – de longe a longe – um balneário de miúdos que têm tanto potencial quanto sonhos e cujos egos, por certo, não seriam tão difíceis de controlar como numa equipa como o FC Porto. Resta saber se o técnico espanhol vai conseguir assumir um verdadeiro perfil de liderança, dando liberdade q.b. e responsabilizando nos momentos certos.

O CV de Lopetegui  Fonte: Porto Canal
O CV de Lopetegui
Fonte: Porto Canal

Estamos apenas em Maio e o FC Porto já tem treinador para 2014/2015. Tempo e condições não faltarão para preparar, da melhor forma possível, a temporada que se avizinha. Com esse horizonte, Lope surgiu com um discurso forte, entusiasmante e relativamente sedutor. Dele, os adeptos esperam que confirme as boas indicações, ultrapasse e vire a seu favor os pontos negativos e dissipe as incógnitas. E que se identifique rapidamente com a sua nova casa – o Dragão está aberto a este basco e, com ele, deseja que chegue o perfume e o encanto do actual futebol espanhol com uns laivos da antiga fúria roja.