Como não tenho SportTV em casa, os fins-de-semana são passados em casa do meu avô. Isto implica conversas de taberna condicionadas pelo respeito à minha avó, até porque ela fica incomodada quando os jogadores escarram para a relva.

Quando vejo o FC Porto sentado ao lado dele, para além do comando ficar guardado religiosamente no seu bolso, existem dois jogadores que não são poupados: Mangala e Hélton. «Lá vai ele partir uma perna» ou «Lá está ele a inventar com os pés» são as frases que vocês vão decorar quando Mangala e Hélton estão em grande plano.
Mas, óptica minha: o eterno Guarda-Redes e o Central – que poderá valer muitos milhões de euros – têm sido vítimas da performance colectiva.

Hélton é indubitavelmente um guarda-redes de topo e já muitos pontos assegurou ao FC Porto. Sim, também já fez perder alguns, como qualquer outro jogador que defende as redes da sua equipa e o histórico é um dado que nunca defendeu o profissional que calça as luvas, nem nunca o defenderá. Mas o brasileiro é mais do que um mero goleiro e continua a encaixar no sistema do FC Porto: Hélton funciona frequentemente como líbero da equipa e – como se verificou nos primeiros 45 minutos do jogo com os colchoneros – foi provavelmente um dos jogadores que mais passes efectuou, a par de Mangala e Otamendi. Hélton é extremamente útil pela habilidade que transporta nos seus pés, tendo em conta que é um elemento com o qual a defesa pode contar para fazer circular o esférico, com segurança, na pressão da equipa adversária. Uma saída em falso, um golo concedido. Um erro que se agiganta por influência directa no resultado, mas esta é a intemporal conversa sobre a relação papel-influência que os guarda-redes desempenham. Porém – e dando o braço a torcer ao meu avô -, Hélton inventa em algumas situações e, sendo naturalmente o último homem, torna-se preocupante.

Isto acontece – tal como no jogo contra o Estoril – porque Hélton goza de uma auto-confiança invejável: um guarda-redes tem que ser necessariamente excêntrico e concentrar toda a importância do jogo no seu ego, nas suas luvas e – no futebol moderno – também nos seus pés. O excesso de confiança de Hélton já fez perder alguns pontos (quem não se lembra da magnífica exibição do brasileiro em Stanford Bridge até sofrer um frango por entre as pernas?), mas um guarda-redes vive o momento com uma intensidade completamente diferente: precisa de ser egoísta quanto baste e, em simultâneo, não confiar totalmente no lance, isto é, em cada jogada – seja para socar, agarrar ou pontapear a bola -, o goleiro define um limiar importante, deambula entre o excesso e a escassez de confiança. O seu erro paga-se caro e custa imediatamente golos.

Hélton / Fonte: http://imgs.sapo.pt/
Hélton / Fonte: http://imgs.sapo.pt/

Hélton é o guarda-redes que conheço que alimenta todos os seus momentos com o ego e não o contrário, quer isto dizer, Hélton recusa a importância da primeira defesa do encontro para nutrir auto-confiança; ao invés, o guarda-redes do FC Porto explora o primeiro lance para provar que está vivo e, portanto, para que o jogo lhe corra bem terá que se mostrar. O brasileiro tem técnica com os pés e deve ter ensinado, inclusive, Fernando a dar uns toques, mas a sua alma deveria ficar nas luvas. A fotografia é fundamental para Hélton e qualquer adepto apaixonado por Futebol não o pode recriminar, porque espectáctulo paga-se e deve ser visto.

Não acredito que Hélton tenha o seu lugar ameaçado, sobretudo pela tamanha importância que tem na equipa; de facto, agiliza a comunicação entre sectores e é veículo de interacção no próprio terreno, não poupando energia para enquadrar os colegas nas suas posições, corrigir marcações ou – até mesmo – para celebrar com a claque, assumindo-se como pivot entre a equipa e os adeptos. Hélton significa emoção e é, curiosamente, nos piores momentos do colectivo que decide acordar o Maradona que tem em si, na tentiva de provocar – ou talvez alertar – os colegas em campo; e, claro, porque tem necessidade de tornar batalhas campais em espectáculo.

Mangala, por sua vez, é um central com um potencial tremendo e voos altos lhe esperam. Sentar o fracês no banco significa perder dinheiro. Colocar Maicon em campo significa maior necessidade para recuperar a forma invejável das épocas anteriores. A meu ver, Mangala tem todas as condições para continuar a gladiar adversários com a braverua que transpira. Cada lance de Mangala é vivido – por qualquer adepto do FC Porto – com menos oxigénio no corpo do que com qualquer outro defesa, pela necessidade de travar a respiração enquanto aquela obra da natureza corre em direcção ao atacante: cartão vermelho ou um dos melhores cortes do fim-de-semana.

Mangala / Fonte: http://www.doyensports.com/
Mangala / Fonte: http://www.doyensports.com/

Imperial no jogo aéreo, Mangala dá golos e proíbe muitos outros. Um jogador que, no papel, habita no eixo mais descaído à esquerda da defesa portista, mas que se voluntaria para dobrar Otamendi e, muitas vezes, o próprio Danilo, tem que forçosamente ser titular. Durante um jogo do FC Porto, perco a conta aos cortes de Mangala mas, até mais importante, às movimentações que cobrem as lacunas dos colegas. É um verdadeiro tanque de guerra, pronto a recuperar qualquer bola que passe pela primeira parede: Fernando.

Os seus índices de agressividades são consquências naturais do seu fisíco: Mangala alia força à velocidade. É um jogador explosivo e utiliza músculo para chegar à frente, sendo que a sua elasticidade tem decidido muitos lances. Exige-se a um central bravura e uma agressividade controlada, mas – para tal – é importante que Mangala confie nos companheiros. A recente performance do FC Porto não permite que o jovem francês cresça nesse sentido, isto é, o sistema 4x2x3x1 convida Alex Sandro e Danilo a rasgar o meio-campo, desprotegendo a defesa; tendo a baliza mais exposta, creio que Mangala imprime a cada lance a necessidade máxima de distanciar bola e adversário. Em pouco tempo, estaremos a falar de um dos melhores defesas do mundo, mas terá que transformar a agressividade em inteligência.

Tem um poder de antecipação tão forte que, abraçado à sua aceleração, não necessita de ter um posicionamento exímio, isto porque está capacitado para chegar rápido ao lance e ocupar com facilidade o espaço. Ainda assim, é também uma especificidade a ser trabalhada. Varane terá em Mangala o seu melhor amigo, no eixo da defesa gaulesa.

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Filho de bom tripeiro, com apenas 20 anos, João já festejou mais de 40 títulos. Se o Porto tem o melhor vinho, tem o melhor adepto e, por isso, esteve presente no estádio do Dragão no minuto 92. Confiança no seu clube até mesmo quando Pedro Emanuel se prepara para marcar o penalti decisivo da Taça Intercontinental.                                                                                                                                                 O João não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.