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80 minutos de jogo, Marítimo com menos um homem em campo. FC Porto parte para mais um ataque. Com mais um homem no terreno, não há ninguém que pegue no jogo portista. No meio-campo, é Jackson Martinez quem tem que vir atrás para “pedir jogo”.

85 minutos de jogo, Danilo faz um passe errado. Bola fora, lançamento para o Marítimo. Câmara focada no jogador brasileiro. Reação? Um sorriso de Danilo.

90 minutos de jogo, Alex Sandro faz uma falta ridícula junto à bandeirola de canto. Livre para o Marítimo. Câmara focada no jogador brasileiro. Reação? Um sorriso de Alex Sandro.

Escolhi estes três momentos para ilustrar, a todos os que não viram o jogo desta noite, no Estádio dos Barreiros, aquilo que foi a exibição portista. Não vou pelos inúmeros golos falhados pelos avançados portistas; não vou pela eficácia de 100% do Marítimo (1 remate no alvo, 1 golo), nem sequer vou pela excelente exibição de Salin.

Poderia, claro, pegar por cada uma destas premissas e vir para aqui falar de falta de sorte, de falta de eficácia ou do contrário em relação ao Marítimo. Optei pelos três momentos acima enunciados por, na minha opinião, demonstrarem aquilo que foi o FC Porto esta noite: uma equipa sem garra, sem atitude, sem intensidade, sem velocidade e, sobretudo, sem inteligência. Já em diversas ocasiões esta temporada referi duas ideias-chave relativamente ao campeonato português: em primeiro lugar, que o título se ganha contra os pequenos, e depois que nos jogos contra estas equipas de menor dimensão, por vezes não basta ter os melhores jogadores ou ter uma camisola com mais peso histórico.

É preciso correr mais do que os outros, ser mais agressivo e intenso do que os outros, ser eficaz e aproveitar as oportunidades, ser inteligente a gerir o jogo e sobretudo não deixar que o jogo caia naquilo que o adversário quer. Mais uma vez, e tal como tinha acontecido contra o Boavista, V. Guimarães e Estoril, os jogadores do FC Porto não perceberam nenhuma destas ideias. Entraram no jogo com o pensamento de que ele se resolveria mais tarde ou mais cedo. Deixaram o jogo entrar naquela sonolência que só interessa aos mais fracos. E sobretudo voltaram a falhar oportunidades inacreditáveis quando nos referimos a jogadores de classe inquestionável.

Mais uma vez, o FC Porto não entrou como devia. O esquema tático era o mesmo mas a atitude e o “orgulho” que mereceram tanto destaque, na última quarta feira, ficaram à porta do Estádio dos Barreiros. Nada disso se viu no jogo de hoje frente ao Marítimo. Relativamente a essa batalha de Braga, Lopetegui mudou dez peças e deixou ficar apenas Quintero de início, colocando Tello –  que tanto tinha corrido na segunda parte em Braga – no banco de suplentes. Do lado dos madeirenses, Leonel Pontes estreou o central Raúl Silva e optou por colocar três homens na frente (Xavier, Diego Costa e Maazou), deixando no banco o médio habitualmente titular Alex Soares. Com apenas um extremo de início, cedo se percebeu que o FC Porto iria ter, mais uma vez, imensas dificuldades no reduto maritimista.

Alex Sandro (esq.) foi um dos piores em campo Fonte: Facebook Oficial do CS Marítimo
Alex Sandro (dir.) foi um dos piores em campo
Fonte: Facebook Oficial do CS Marítimo

Com Quintero no onze, o jogo portista tornou-se lento, pouco intenso, previsível e sobretudo muito canalizado no centro do terreno. E foi no meio campo que o Marítimo começou a ganhar o jogo: com Fernando Ferreira e Danilo Pereira colocados de perfil em frente ao quarteto defensivo, o Marítimo conseguiu “secar” Oliver, Herrera e Quintero, que raramente conseguiram libertar-se da teia defensiva madeirense. Por isso, o futebol do FC Porto tornou-se profundamente insuficiente e o jogo demasiado canalizado para Ricardo Quaresma levou a que, na primeira parte, os portistas tenham tido apenas uma oportunidade de golo, aos 41 minutos, num remate do extremo português que Salin defendeu com qualidade. O principal problema é que, até esse momento, o ataque portista era uma miragem e o Marítimo, no único lance de perigo em todo o encontro, acabou por chegar à vantagem. Cruzamento da direita de Diego Costa e depois de um corte da defensiva portista, a bola chegou aos pés de Bruno Gallo que, com um excelente remate de pé esquerdo, desfeiteou o guarda redes Fabiano.

Em 45 minutos de jogo no Estádio dos Barreiros, tudo se resumia àqueles dois lances de perigo: um para cada lado, com o Marítimo a ser eficaz e o FC Porto não. Tudo o resto havia sido um jogo inconsequente, sem ideias, com a bola a circular de forma lenta pelos jogadores portistas sem que houvesse uma jogada com princípio, meio e fim.

Na segunda parte, e já com Tello no lugar de Quintero, a toada de domínio portista manteve-se. O Marítimo continuava a jogar recuado e fechado nas suas linhas e o FC Porto, com posse de bola, procurava finalmente encontrar o caminho para a baliza de Salin. O que é facto, e como seria previsível, é que a equipa de Lopetegui acabou por começar a criar oportunidades de verdadeiro perigo, com Casemiro e Martins Indi a desperdiçarem, logo no início do segundo tempo, as primeiras duas enormes oportunidades para a equipa azul e branca.

Com meia hora para jogar, Lopetegui decidiu arriscar, colocando Gonçalo Paciência junto a Jackson Martinez. O treinador espanhol abdicou de Herrera (exibição paupérrima) e Bruno Martins Indi e colocou em campo o avançado português e Rúben Neves. Num 4x4x2 bem definido, o que é facto é que Oliver Torres acabou por recuar no terreno, sendo Jackson Martinez em mais do que uma ocasião o responsável pelo início dos ataques portistas.

Depois das alterações táticas, chegou mais uma dupla oportunidade, neste caso por Tello, que rematou ao poste, e por Quaresma que, na recarga, defendeu para defesa de Salin. O guarda redes francês acabou mesmo por se revelar intransponível, tornando-se o principal responsável pelo facto de os visitantes não terem conseguido chegar ao empate. No último quarto de hora, Raúl Silva, na estreia como titular, ainda viu o segundo cartão amarelo mas isso não foi suficiente para que o FC Porto chegasse ao golo que impedisse o segundo desaire no campeonato. Até ao final da partida, por entre passes errados, um jogo sem qualidade e intensidade e uma eficácia miserável, destacaram-se os “sorrisos” de Danilo  e Alex Sandro, a exibição deplorável de Casemiro e Herrera, o jogo apagadíssimo de Oliver, o individualismo de Quaresma, a intermitência de Tello e o desaparecimento de Jackson do jogo na Madeira.

Por tudo isto e pelos três momentos que acima mencionei, julgo que é razoável dizer que esta noite o título ficou entregue. E mais uma vez, como aconteceu contra Boavista, V. Guimarães e Estoril, porque o FC Porto não soube ser inteligente, agressivo e eficaz. Não falo de sorte porque acredito que ela também se constrói. Nesta noite, na Madeira, mais uma vez se provou que Lopetegui e os seus jogadores ainda estão muito longe de saber como se joga em Portugal. E assim se perdem jogos. E assim se perdem títulos. Acabou… em agosto há mais.

 

A Figura

Salin – O guarda redes francês voltou a fazer uma exibição memorável contra o FC Porto. Parou tudo quanto podia (tirando o remate ao poste de Tello) e foi o principal responsável pela vitória maritimista.

O Fora-de-Jogo

Danilo, Alex Sandro e Herrera – Esta noite decidi dar uma nomeação tripla para o prémio de pior em campo. Poderia também colocar Quintero ou Casemiro, mas acabei por me decidir por estes três. Relativamente aos laterais, pela displicência com que jogaram durante os 90 minutos. Gozaram com o símbolo que tinham ao peito fazendo uma exibição deplorável e que envergonhou todos os adeptos. Relativamente ao médio mexicano, o jogo de hoje foi uma recordação de algumas exibições da época passada de Herrera. Se calhar a melhor opção seria enviá-lo mais um mês para o Brasil a ver se voltava um jogador diferente.

Foto de Capa: Facebook Oficial do Club Sport Marítimo

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