a minha eternidade

O Futebol Clube do Porto deslocou-se ao terreno do Moreirense, numa noite fria de sábado, para fazer uma boa exibição (mas não entusiasmante), que acabou por desembocar numa vitória justa por números esclarecedores (do ascendente dos visitantes no jogo). Os azuis e brancos actuaram no seu 4x3x3 de sempre: Fabiano segurou as redes, e a linha defensiva compôs-se com Danilo, Maicon, Marcano e Alex Sandro, no meio-campo surgiram Casemiro (pivot defensivo) Herrera e Óliver (como médios interiores), jogando abertos na frente Quaresma e Tello no apoio ao ponta-de-lança Jackson Martínez.

É importante referir que o adversário dos portuenses jogou muito condicionado, tendo de reinventar a constituição do seu trio de médios para esta partida. Esta equipa, que tem estado a fazer um campeonato muito consistente e convincente, ocupando o 11º lugar na tabela classificativa, não pôde usar as suas armas habituais nesta partida de grau de dificuldade elevadíssimo. As contrariedades da turma verde e branca axadrezada afectaram desde logo o seu sector defensivo, com a lesão do lateral Paulinho e do central Marcelo Oliveira. O tridente do miolo anteriormente supracitado era composto por Vítor Gomes (transferido para o Balikesirsport, da Turquia), Filipe Melo (milita agora nos ingleses do Sheffield Wednesday) e ainda André Simões (o médio mais utilizado) de fora a cumprir castigo. Para agudizar as já acentuadíssimas dificuldades, as lesões de Cardozo e André Marques obrigaram o Moreirense a fazer duas substituições forçadas e não planeadas.

Com esta zona nevrálgica tão afectada, os três centrocampistas azuis e brancos não tiveram problemas em se impor e controlar o ritmo e rumo do jogo. O que julgo ser motivo de realce na exibição portista foi a desenvoltura predatória com que desenvolveu todo o seu processo de organização ofensiva. Envolveu muitos jogadores nesses momentos, colocando em zona de finalização atletas de todos os sectores. Foram inúmeras as vezes que predispôs cinco, seis e até sete homens em zona perigosa para alvejar a baliza. Vou minudentemente escalpelizar os lances dos dois golos que sintetizam os aspectos mais louváveis deste jogo.

No primeiro golo portista, Alex Sandro passou em velocidade no meio de dois oponentes e procurou a zona interior, deixando o esférico para Herrera – este, com seis soluções de passe, descobriu um espaço exíguo para colocar a bola (entre os dois centrais e as costas do lateral esquerdo), onde se encontrava Jackson para, com frieza, chutar para golo. O segundo tento nasceu na sequência de um canto e de uma segunda bola ganha rapidamente. Aqui, os posicionamentos dos jogadores não são, por norma, os habituais, fruto da especificidade das bolas paradas e da sua orquestração. Depois do corte da defesa do Moreirense, Alex Sandro ganhou a bola em zona interior adiantada, colocando-a novamente sobre Herrera que estava aberto na esquerda. O mexicano contou com o apoio de Óliver que rapidamente abriu no mesmo flanco, arrastando dois jogadores adversários; esse prender de atenções permitiu ao mexicano um cruzamento mais desafogado para uma zona onde se encontravam dois homens: o primeiro era Marcano que não chegou, o segundo tratava-se de Casemiro, que encostou para golo ao segundo poste (tendo ainda ficado Jackson no coração da área e Quaresma um pouco mais recuado em posição de finalização também).

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O FC Porto colocou inúmeros jogadores em zona de finalização, tentando cedo o golo
Fonte: Página de Facebook do FC Porto

O treinador Lopetegui fez três substituições. Primeiro ordenou a saída de Tello para entrar Evandro (obrigando Óliver a avançar e descair para a esquerda), depois tirou Óliver para lançar Brahimi, regressado da Taça das Nações Africanas (para que relembre o enquadramento colectivo) e, por último, fez sair Jackson para a consagração, entrando para o seu lugar Aboubakar (já em cima dos 90 minutos) para “esticar as pernas”.

 

A Figura
Héctor Herrera – O mexicano foi o destaque da partida. Esteve muito bem na batalha com o meio campo fragilizado do Moreirense. A predisposição para a organização defensiva e roubo de bolas é seu apanágio corriqueiro, mas, a essas prerrogativas, juntou um exímio último passe, que nem sempre tem possibilidade ou qualidade para fazer. Conseguiu duas assistências excelentes para golo. Devo destacar também Jackson – no meu entender o “melhor em campo” –, com o habitual recuar para abrir espaços para os companheiros (subida dos laterais ou dos médios interiores), tendo ainda assinado um golo, depois de uma bela desmarcação. Fez ainda um passe com a direcção e força correcta para Tello desperdiçar. Está a ser o melhor jogador do Porto na presente época, e, por isso, é justo que seja dele o ilustríssimo golo número 5000 para o campeonato do Futebol Clube do Porto.

O Fora-de-Jogo
Cristian Tello – Escolho-o hoje como personalidade negativa mas aproveito para fazer uma análise global. Este jogador tem demonstrado falhas de interpretação de jogo. Esta época já tomou inúmeras decisões erradas, não havendo um jogo seu sem mácula até agora. Quando deve passar, remata; se é altura de endossar, atira à baliza. Quando teria de acelerar, temporiza; quando era útil que jogasse ao lado, corre sozinho. Neste jogo tem um lance incrível – primeiro ganha em velocidade e pode ir para o golo com confiança; decide parar (o que seria muito bem pensado se jogasse ao lado em Óliver, o que não fez) e, tentando estupidamente prosseguir, acabou desarmado. Precisa de muito treino específico para decidir melhor as jogadas. Um lugar na faixa é de Brahimi… outro é de Quaresma.

Foto de Capa: Página de Facebook do FC Porto