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Muito se tem discutido sobre o clássico da semana passada, sendo que na maioria das vezes a discussão gira em torno da seguinte frase: “o Porto jogou muito melhor do que o Benfica e perdeu injustamente”. Contudo, é nosso dever interrogarmo-nos sobre se terá sido mesmo assim! De facto, estatisticamente o Porto foi claramente melhor do que o adversário. Teve mais posse de bola, mais remates, mais bolas nos ferros, menos faltas, menos foras-de-jogo… Mas perdeu. Perdeu e perdeu bem. Este artigo procura abordar uma temática que está muito presente no FC Porto – a posse de bola.

Muitas vezes, o futebol é mal trabalhado. Ou melhor, é mal interpretado e, nesse seguimento, mal trabalhado. Ser treinador de futebol não é simplesmente dizer “vamos fazer isto e aquilo”, mas antes pôr a equipa a treinar e a correr! Tudo o que se pensa tem de ter uma lógica e um seguimento contínuo e coerente, para que os processos possam ser assimilados pelos atletas ao longo dos treinos e dos jogos. Essa parte do treino, aquela em que o pensamento é transmitido aos jogadores, muitas vezes não é bem conseguida. Inclusive, por vezes, leva os adeptos e os próprios jogadores a terem uma ideia errada do que realmente se pretende. Um exemplo claro é a posse de bola.

A posse de bola pode ser vista de várias maneiras e existem diferentes modos de a praticar. Haverá algum treinador que diga “eu não quero que a minha equipa tenha bola”? Certamente que se os houver serão muito poucos. Assim, apesar de os treinadores procurarem, dentro das dinâmicas que tentam incutir nos seus jogadores, que exista posse de bola (no processo de organização/transição ofensiva), este conceito não é visto da mesma forma por cada um deles.

Brahimi e Oliver - dois jogadores fundamentais na posse de bola dos dragões  Fonte: Facebook oficial do FC Porto
Brahimi e Oliver – dois jogadores fundamentais na posse de bola dos dragões
Fonte: Facebook oficial do FC Porto

Jogar em posse de bola não significa chegar ao fim do jogo com 75% de posse de bola! Note-se que ter quase sempre a bola não é condição necessária para chegar ao fim do jogo e vencer. Se durante um jogo de 90 minutos tivermos a bola em 70 minutos do jogo, criando duas situações de golo e o nosso adversário só tiver a bola durante 20 minutos e criar cinco situações de golo, poderemos dizer que dominámos o jogo? Obviamente, não faz qualquer sentido. O domínio do jogo não pode ser medido pelo número de vezes que uma equipa toca na bola, mas sim medido pela forma como a equipa opera nos diferentes momentos do jogo (organização ofensiva, transição ofensiva, organização defensiva e transição defensiva). Usando um exemplo muito claro, nas meias-finais da Liga dos Campeões da última temporada, o Bayern teve muito mais posse de bola (cerca de 70%), fez muitos mais remates, teve muitos mais cantos do que o adversário (Real Madrid) e o resultado foi 4-0 para o Real.

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Há também equipas que trocam a bola durante muito tempo no seu meio-campo defensivo e que depois a pontapeiam para a frente na esperança de que os seus avançados/extremos tirem “um coelho da cartola”. Nestes casos, a percentagem de posse de bola no final do jogo até pode ser mais elevada do que a do adversário, mas toda ela consistiu em trocas de bola inofensivas.

A posse de bola só faz sentido quando é uma posse com objectividade. A melhor posse de bola de sempre foi feita pelo Barcelona de Guardiola. Essa posse, posta em prática por alguns dos melhores executantes do planeta, era a melhor do mundo porque toda ela estava inserida nas dinâmicas e nos diferentes momentos de jogo da equipa. Além disso, tinha objetivos claros: criar roturas na defesa adversária, pensando que a bola chega primeiro do que qualquer jogador ao sítio que pretendemos e partindo da premissa que com bola é impossível sofrer um golo – mais fácil do que isto é impossível. O Barcelona procurava ter a bola sempre com 2/3 linhas de passe para facilitar todo o processo de transição, circulava sempre a bola com rapidez e dinamismo, de forma a baralhar os adversários, dando sempre largura ao campo (percorrendo a bola por todo o campo). Dessa forma, procuravam explorar os espaços que se iam formando na organização dos adversários, nunca esquecendo outra premissa importante: o jogo tem 90 minutos e, por isso, há muito tempo para chegar à baliza adversária (ou seja, todos os processos são feitos com calma e segurança para nunca se perder a bola ou para ser mais fácil recuperá-la no caso de se a perder).

Praticar a posse de bola com objectividade é mentalizar os jogadores de que no jogo só há uma bola e se a temos nunca podemos sofrer golos! Se percorremos o campo com ela, chegaremos mais devagar à baliza do adversário, mas o esforço que despendemos durante esse percurso é muito menor comparativamente ao esforço que o adversário fará a “correr atrás da bola”. Tudo isso tem como objetivo final criar roturas no oponente para chegar ao golo.

É evidente que Lopetegui privilegia a posse de bola... mas será esta eficaz?  Fonte: Facebook oficial do FC Porto
É evidente que Lopetegui privilegia a posse de bola… mas será esta eficaz?
Fonte: Facebook oficial do FC Porto

Além disso, a equipa tem de saber lidar com a pressão vinda de fora – expressões como “nunca chutam à baliza!”, “rápido!”, “corre!” são muito frequentes. Porém, o mais importante de tudo será a equipa ser solidária e unida para que em todos os momentos do jogo os jogadores se apoiem, tanto com movimentações para dar linhas de passe, como para rapidamente recuperarem a bola quando esta não está em sua posse. A posse de bola pressupõe entreajuda constante. A título de exemplo, se temos um jogador tecnicamente evoluído que procura criar desequilíbrios através da sua qualidade individual e a nossa equipa sabe-se movimentar com bola e abrir espaços para ele, a probabilidade de sucesso será muito maior do que tendo ele de enfrentar sozinho o adversário.

Desde o tempo de Villas-Boas, em que o Porto era apelidado de “novo Barcelona”, o Porto veio anualmente apostando em diferentes posses de bola, tanto com Vitor Pereira, como com Paulo Fonseca/Luis Castro e mais recentemente Lopetegui. Todos eles têm uma visão diferente da posse de bola; todavia têm algo em comum: a dificuldade em criar espaços para finalizar. Deste modo, estamos perante uma posse estatística e não objectiva.

O Porto não dominou o Benfica. O Porto esteve melhor em alguns momentos do jogo, fez mais passes, mas não foi eficaz e quem não marca arrisca-se a sofrer. O Benfica deu largura e profundidade ao jogo, defendeu como um bloco, foi uma equipa experiente, madura e unida e venceu. A estatística não é o filme de um jogo.

Foto de capa: Facebook oficial do FC Porto