dosaliadosaodragao

Descontando as questões relacionadas com a equipa, o seu comportamento táctico, os erros individuais ou as falhas do treinador, este Porto 2013/2014 foi também consequência daquilo que muitas vezes é apontado como o principal factor de sucesso: a estrutura directiva.

Pinto da Costa, Antero Henrique e companhia projectaram a época e fizeram contas como um verdadeiro merceeiro (com todo o respeito que essa nobre e respeitável profissão me exige). Na preparação desta temporada, ainda em Maio, aquando das milionárias vendas de João Moutinho e James Rodriguez, cri que talvez pela primeira vez o FC Porto pudesse planear a época atempadamente e sem estar dependente de (mais) um encaixe financeiro considerável que, não raras vezes, apenas sucede quando o fecho do mercado está próximo, desequilibrando a equipa e frustrando as expectativas dos adeptos (vide os casos de Falcao ou Hulk). Ora, ainda antes do início do Verão, com as finanças do clube estáveis em face da saída dos dois tricampeões para o Principado, acreditei que havia tempo e condições para que a substituição de ambos se fizesse de forma mais ou menos tranquila – ainda que fazê-los esquecer fosse (e é) tremendamente difícil.

 

Pinto da Costa e Antero Henrique – os rostos da Estrutura, para o bem e para o mal http://www.record.xl.pt
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O que não esperava era que a SAD do meu clube enveredasse por um pensamento tão simplista quanto o de julgar ser possível encontrar alternativas a Moutinho e James (e Atsu, não nos esqueçamos) no Estoril, em Paços ou, mais a norte, em Guimarães. Concretizando: não sendo despiciendo que Bernard era a opção nº 1, alguém julgou ser praticável que Josué, Licá e Ricardo, com pouca experiência e maturidade competitiva, ‘engatassem’ e fizessem esquecer um portento de classe e de capacidade de visão de jogo e de drible como o colombiano que agora pontua no Monaco. Sim, é certo que chegou também Juan Quintero, com tanto futebol nos pés que dói só de o ver no banco. Só que este, tal como o seu compatriota quando aterrou no Porto (James passou mais de meia época, com Villas-Boas, entre o banco e a bancada), ainda só tem olhos para a frente e em termos defensivos nada acrescenta, precisando de tempo para crescer num ambiente que lhe seja confortável e o potencie. Por outro lado, em relação ao ex-número 8 e dínamo da equipa do FC Porto, acreditou-se que Defour poderia ser o seu substituto natural. Acho o belga um jogador útil, ‘certinho’, mas que nunca poderia dar aos Dragões a intensidade e a inteligência táctica que o pequeno Moutinho sempre colocou em campo. Talvez por isso se tenha confiado que a solução se encontrava no México, em Herrera. Demasiado optimismo, diria; o mexicano tem muita qualidade técnica mas – não desprezando a competitividade que o campeonato azteca hoje apresenta – que provas dadas tem no futebol de alta competição que permitisse pensar que pudesse “fazer de” João Moutinho?

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Do Dragão para o Principado, James Rodriguez e João Moutinho http://globoesporte.globo.com
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Tal visão simplista desmultiplica-se em variados exemplos e redunda num plantel desequilibrado e com evidentes lacunas. Senão, vejamos: Fucile, apesar do seu histórico de incidentes disciplinares, foi o escolhido para ser alternativa a Danilo (e Alex Sandro); fez um par de exibições interessantes no início da época, foi inscrito na Champions e, pelo que consta, reincidiu. É hoje uma carta fora do baralho e está de saída do clube. Ainda na defesa, já havia Mangala, Maicon, Otamendi e Abdoulaye mas Reyes é um prodígio e gastar mais de 9 milhões de euros em 95% do passe do mexicano pareceu concebível, esquecendo, no entanto, que Alex Sandro não tem um concorrente na verdadeira acepção da palavra. Com as inúmeras fragilidades diagnosticadas ao meio-campo, entendeu-se, ainda assim, que a melhor solução para Castro seria mais um período de provação, desta vez na Turquia, e que, perante as debilidades evidentes dos actuais extremos, a irreverência de Iturbe não merecia uma real oportunidade.

Reduzir, neste ponto, as responsabilidades à estrutura directiva será, provavelmente, injusto. Paulo Fonseca teve, certamente, uma palavra a dizer na gestão destes dossiers e talvez seja a ele que incumbe responder por que o factor K(elvin) não mais foi considerado, por que Carlos Eduardo não foi inscrito na Champions e o que se passa, afinal, com Izmailov.

De todo em todo, e voltando aos mais altos dirigentes, importa invocar, de novo, a figura do merceeiro. O FC Porto, nas duas últimas temporadas, conquistou o Campeonato, é certo. Mas parece-me indesmentível que o mérito dos Dragões é equivalente em igual proporção ao demérito que o Benfica de Jorge Jesus evidenciou. E talvez tenha sido este o facto que o merceeiro, como alguém simples e pragmático, ignorou – “se conseguimos ser campeões com Vitor Pereira a treinar e com Kleber, Janko, Izmailov ou Liedson como soluções que se julgavam sérias (mas igualmente de emergência), talvez, mesmo com a fuga de Moutinho e James para o glamour monegasco, uns retoques com Josué, Licá ou Ricardo e mostrar a Europa a Herrera sejam suficientes” terá sido o pensamento que invadiu os escritórios do Dragão. Se anteriormente chegava para reinar internamente, agora nem isso. E o sonho da Champions… pura utopia.

Janko, Lucho, Hulk, Moutinho e James – soluções em diferentes momentos zerozero.pt
Janko, Lucho, Hulk, Moutinho e James – soluções em diferentes momentos
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Chega Janeiro e os jornais tratam, então, de lançar nomes para a Praça, saciando o adepto esfomeado por novos nomes que tragam alguma cor ao jogo da equipa. Mais do que o show sempre protagonizado por alguma Comunicação Social, esta janela de transferências assume-se, pois, e mais uma vez, como momento – indispensável, diria – de fazer um upgrade à máquina. Há dois anos, Lucho e Janko foram fundamentais para a remontada e para a renovação do título; Izmailov e Liedson foram – sem o mesmo impacto – a tentativa de reedição de aplicação da fórmula: jogadores experientes, que possam entrar de imediato na equipa de forma a satisfazer as suas carências, sem necessidade de período de adaptação. Parecia ser esta a nova estratégia azul e branca para abordar o mercado de Inverno … até um Mustang estacionar junto à Torre das Antas. Não vejo Quaresma jogar futebol há um par de anos e a última imagem que tenho dele é de alguém loiro e pesado a treinar com as reservas do colosso Al Ahli, no Dubai. Todavia, tenho memória. E é essa (a) minha esperança que me leva a não qualificar como ‘acto de desespero’ esta actuação da SAD.

Talvez seja momento de deixar as contas à merceeiro segundo aquele princípio de que “se, no final de um dado período, o dinheiro que entra for mais do que o que sai, o negócio corre bem; se assim não for, temos problema”. Porque um dia a entrada de dinheiro (vulgo títulos) deixa de ocorrer de tão negligente que se assume o planeamento e gestão.

P.S.: Não sou supersticioso nem posso dizer que acredito no que está escrito nas estrelas. De qualquer forma, o último treinador do FC Porto a ser despedido a meio da época foi Víctor Fernandez. E foi depois de um jogo no Dragão, com o Braga… treinado por Jesualdo Ferreira (1-3, em 2004/2055).

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Ao ritmo do Penta e enquanto via Jardel subir entre os centrais, o Filipe desenvolvia o gosto pela escrita. Apaixonou-se pelo Porto e ainda mais pelo jogo. Quando os três se juntam é artigo pela certa.                                                                                                                                                 O Filipe não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.