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Por mais que a minha preferência vá para a discussão sobre o jogo – o verdadeiro! – que se desenrola dentro das quatro linhas relvadas, certas vezes temos de abrir excepções. Esta semana, exactamente, assistimos a uma situação que, mais do que qualificar, merece preencher esse conceito de excepção.

Por entre factos e conjecturas, suposições e esquecimentos, o Presidente do Sporting, Bruno de Carvalho, disparou em todas as direcções no final do Penafiel-Sporting, encontro que o seu clube até venceu por 1-3. Motivação? O facto nº 1: o Sporting foi incapaz, no total das três jornadas da 3ª fase da Taça da Liga, de marcar mais golos do que o FC Porto. Mesmo depois da goleada infligida aos Dragões, naquele 0-0 em Alvalade, o Sporting terminou com 7 pontos (os mesmos que o FC Porto) mas com 6 golos (menos um do que o Tri-Campeão nacional).

Haveria então Bruno de Carvalho, o novo ícone de um emblema renascido das cinzas, de, em mais uma mítica conferência de imprensa, justificar a eliminação do clube a que preside com dois factos (segundo Bruno): um penalty inventado no último minuto do jogo do Dragão e a circunstância de o FC Porto-Marítimo ter começado desfasado em quatro minutos em relação ao Penafiel-Sporting, argumentando que no momento do apito final do encontro em Penafiel o Sporting estava apurado. Desprezando as ironias, os sarcasmos e os clichés habituais, é uma linha argumentativa interessante vindo de alguém que costuma invocar a idade e estado físico-intelectual de seu pai para atacar os que com ele partilham a similitude geracional.

Voltemos, então, e de novo, aos factos (segundo Bruno). Para o Presidente do Sporting, o lance que envolveu Ghilas e Igor Rossi só poderia redundar em castigo máximo utilizando o “’intensómetro’ criado pelos “senhores inteligentes”. É normal que Bruno tenha alguma dificuldade em compreender que um lance destes pode dar azo a grande penalidade, uma vez que o argelino do FC Porto não se encontrava entre a linha de fundo e os placards publicitários; de todo em todo, não vi ninguém ter opinião divergente da de Manuel Mota – diria mesmo que é um daqueles casos que, de tão inequívoco que é, deixa – quem o invoque – mal na fotografia.

Prosseguindo no show de Penafiel (com continuação ao longo dos últimos dias através de capas e comunicados), o Presidente do Sporting invoca o atraso no começo do jogo FC Porto-Marítimo em relação ao disputado em Penafiel. Mesmo não sendo o referido atraso de quatro minutos (na realidade, foi de 2m47s), é óbvio que os jogos deveriam ter começado à hora marcada. Como deve ser sempre, aliás.

Os atrasos de Ontem I  Fonte: Mais Futebol
Os atrasos de Ontem I
Fonte: Mais Futebol

Mas depois chegamos ao momento em que surgem as conjecturas, as suposições e os esquecimentos. O “intensómetro”, segundo Bruno, que teria de ser utilizado para descortinar o penalty sobre Ghilas caiu no goto (tal como a referência ao quarto golo portista diante do Penafiel obtido, inquestionavelmente, em fora-de-jogo); mas, com tanta assertividade, esperava de Bruno – um defensor veemente da verdade desportiva – uma referência à grande penalidade que ficou por marcar por falta de Igor Rossi sobre Carlos Eduardo ao minuto 56. Ou ainda uma pequena alusão aos dois penalties não assinalados a favor do Marítimo no jogo diante do Sporting (por Dier, ao minuto 30, e por Slimani, ao minuto 70) em pleno Alvalade. Ou mesmo uma menção à forma peculiar como Carlos Eduardo foi expulso no clássico de Alvalade. Neste ponto, confesso a minha desilusão.

No entanto – e dado que a referência ao lance de Ghilas não ‘colou’, de tão patética que foi –, a questão centrou-se em torno da celeuma do atraso. Segundo Bruno, estamos perante “coincidências que sempre acontecem” ou “mais uma jogada de mestre sempre na mesma lógica, de não olhar a meios para atingir os fins pretendidos”. Dado que o Marítimo pouco incomoda o Sporting (ao contrário da época passada…), as palavras parecem ter um alvo bem definido: o FC Porto. Ora, com tantas sentenças atiradas para o ar, ainda ninguém conseguiu responder a uma simples e tão óbvia questão: é o FC Porto o culpado pelo atraso no início do jogo (atrasos que, bem ou mal, sempre vão acontecendo em todo o tipo de competições, em todo e qualquer estádio)? Todavia, concedo: se se provar que sim, puna-se! Se houver dolo associado, ainda mais, tal como dita o artº. 116º do Regulamento Disciplinar da LPFP. Contudo, esta teoria da conspiração não fica abalada quando percebemos que, aquando do reatamento do jogo, a primeira equipa a surgir no relvado do Dragão para iniciar a segunda parte foi, precisamente, a do FC Porto? Então no começo da partida tinha interesse em atrasar e, ao intervalo, com um resultado que lhe era desfavorável (1-2), já tinha por vontade comparecer em tempo adequado para o reatar da segunda parte?

Neste pequeno vídeo fica claro, a partir do minuto 1:12, qual foi a primeira equipa a subir ao relvado do Dragão para iniciar a 2ª parte do encontro (25 segundos após o fim do tempo regulamentar do intervalo). Creio, ainda assim, que Bruno há-de ter uma qualquer teoria sobre isto, por certo.

Os atrasos de Ontem II  Fonte: TSF
Os atrasos de Ontem II
Fonte: TSF

Mais, toda esta sequência de argumentos desemboca numa conclusão interessante. Segundo Bruno, no momento do apito final em Penafiel, o Sporting estava nas meias-finais da Taça da Liga. No fundo, a reclamação do Presidente do Sporting prende-se com o desenlace das partidas. Mas, afinal, pelo facto de duas partidas começarem em simultâneo, isso significa, per si, que elas tenham de terminar também ao mesmo tempo? Calculo que Bruno prefira assistir aos jogos do Sporting do que aos do FC Porto (esta época, até eu, confesso), contudo a realidade é que o jogo do Dragão não deveria ter acabado depois do encontro de Penafiel. Na verdade, deveria ter terminado muito tempo depois! A segunda parte do FC Porto-Marítimo foi repleta de paragens e interrupções, quase sempre provocadas por jogadores do emblema insular (desde lesões do guarda-redes, ao lateral direito que se lesiona fora de campo mas, percebendo-o, dá uma cambalhota e volta ao recinto de jogo até à demora na saída de campo aquando das substituições), pelo que o tempo suplementar indicado pelo árbitro deveria ter sido bem mais largo do que os quatro minutos concedidos.

Centremo-nos, ainda e sempre, no essencial. Já aqui o disse e reitero: se se provar que o FC Porto actuou de maneira premeditada e consciente por forma a atrasar o arranque da partida com o intuito de prejudicar o Sporting (em suma, dolosamente) deve ser punido – e tão-só porque as regras devem ser cumpridas. Agora, e independentemente desta questão, de forma objectiva: haverá uma relação causa-efeito entre estes dois factos? Haverá um nexo de causalidade? Ou seja, alguém acredita que o FC Porto só venceu o Marítimo por 3-2 porque o jogo entre estes dois clubes se iniciou às 20:47? O FC Porto decidiu jogar poucochinho (talvez o sufixo ‘-inho’ seja demasiado exuberante para este FC Porto) e, no meio da anarquia táctica, em tempo de descontos, aos trambolhões, apenas logrou obter um penalty que, por acaso, lhe deu a vitória e a qualificação porque a bola começou a rolar mais de dois minutos e meio depois da hora suposta? É isso?

A cada ponto perdido, a cada eliminação, enfim, a cada desaire, lá surge Bruno com acusações tão gratuitas quanto fortuitas, sempre contestando e culpando essa entidade metafísica chamada de ‘Sistema’. Percebemos, pois, a cada intervenção sua que também ele tenta instituir um sistema muito próprio: o do choro. Ou a percepção de que – pelo menos por agora – vais continuar a ser segundo, Bruno

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