Quando Nuno Almeida apitou para o final do jogo contra o GD Chaves do passado fim-de-semana, Sérgio Conceição encetou o que parecia uma prova olímpica de marcha, dirigindo-se em passo acelerado até ao outro lado do campo com o intuito de cumprimentar e motivar Adrián López. Nada nem ninguém o fez abrandar o passo. Não houve elemento da comitiva flaviense ou um qualquer membro do staff ou jogador do FC Porto que tenham conseguido demover o treinador azul e branco da ideia de que seria o espanhol a receber a primeira saudação pelo resultado e pela exibição da equipa.

O avançado contratado ao Atlético de Madrid, aquando da chegada de Julen Lopetegui (atual treinador do Real Madrid) até entrou nervoso no jogo (substituiu Otávio a cerca de 15 minutos do final do tempo regulamentar) com um par de passes falhados, mas acabou o jogo em bom plano com vários pormenores interessantes e muito perto do golo através de um difícil, mas competente remate em volley, que o guarda-redes contrário defendeu com mestria.

A história de Adrián López no FC Porto é sobejamente conhecida. Depois de marcar presença na final da Liga dos Campeões de 2014, chegou à cidade invicta num negócio avaliado em quase 20M€ (o Porto pagou 11M€ por 70% do passe). Um sem número de exibições desastradas, um rosto quase sempre fechado (apenas interrompido por um golo de belo efeito marcado ao BATE Borisov na Liga dos campeões) e uma gritante falta de ligação e identificação com a bancada, o clube e a cidade foram tudo o que se viu da parte de um jogador em quem, pese embora o reconhecimento generalizado do exagero do seu preço, eram depositadas algumas esperanças e de quem se acreditava poder replicar as exibições conseguidas ao serviço do Atlético de Madrid e a confirmação dos créditos trazidos do país vizinho.

Ao fracasso da temporada 2014/2015 e a duras palavras de Pinto da Costa que acabou por culpar Jorge Mendes por um negócio ruinoso para o clube em mais uma demonstração do desnorte que reinava (e que acredito que ainda reina) na estrutura diretiva do clube, seguiram-se um punhado de empréstimos mais ou menos bem-sucedidos a clubes espanhóis (Villarreal e Deportivo) sem nunca ter sido suficiente para que estes formalizassem uma proposta que chegasse aos valores pretendidos pela SAD portista.

Adrián faz parte do contingente espanhol do plantel do FC Porto juntamente com Óliver e Casillas
Fonte: FC Porto

Assim, época após época, Adrián ia retornando à cidade do Porto para o começo dos trabalhos de pré-temporada e acabava invariavelmente por fazer a viagem de regresso perto do fecho do mercado.

Este ano parece que a história será diferente. Sérgio Conceição, depois de ter abdicado do espanhol na temporada transata, parece ter agora um plano de reabilitação técnica, tática e emocional, destinado a devolver Adrián ao futebol. O avançado espanhol nunca impressionou pela velocidade ou fantasia, mas sempre demonstrou ser (até chegar a Portugal) um jogador requintado, inteligente na ocupação do espaço entre linhas, competente a jogar a um ou dois toques e em jogo associativo, e certeiro na finalização e na procura da profundidade. Nunca foi e nunca será um jogador que resolverá um jogo sozinho e, porventura, não voltará mais a ter um papel estelar dentro de um campo de futebol, mas é, sem dúvida, um jogador de palco (plantel) principal, mesmo que num papel secundário.

Todos nos lembramos do trabalho que o treinador do FC Porto fez com Marega. Um jogador que, apesar das suas invejáveis e sobredotadas capacidades físicas, apresentava e apresenta enormes deficiências na vertente mais técnica do jogo. Com Adrian será precisamente o contrário. Não sendo um portento físico, é, ou já foi e pretende-se que possa voltar a ser, um jogador de grande utilidade e de uma inteligência técnico-tática acima da média que pode, assim que recupere os índices anímicos, desempenhar um papel importante no sistema (1x4x4x2) de Sérgio Conceição. Sistema esse que, acredito eu, poderá assentar (assim que se percam os vícios de um futebol físico e obcecado pela profundidade e se reformule para dar maior primazia ao recorte técnico) que nem uma luva nas características do espanhol.

Em suma, mesmo que num papel secundário, seja vindo do banco ou numa estratégia de rotação sempre necessária numa época que se avizinha longa, acredito (como parece acreditar o treinador do FC Porto) que Adrian López merece (pelo empenho que o treinador atesta e pela qualidade que o seu passado apregoa) uma oportunidade de tocar (jogar) no palco (plantel) principal e regenerar a sua imagem junto de uma massa associativa que sabe perdoar falsas partidas (veja-se o caso de Marega) e reconhecer uma eventual pressa desmedida na avaliação dos jogadores. A juntar a tudo isto, o recente caso de indisciplina do maliano referido já por várias vezes no presente artigo, bom como a lesão prolongada de Tiquinho Soares, têm o condão de reforçar a necessidade de ter mais um avançado no plantel.

Foto de Capa: FC Porto

artigo revisto por: Ana Ferreira

Comentários

Artigo anteriorOlheiro BnR – Francisco Trincão
Próximo artigoFenerbahçe SK 1-1 SL Benfica: O inferno dos turcos apareceu de trancinhas amarelas e luvas vermelho vivo
Fervoroso adepto do futebol que é, desde o berço, a sua grande paixão. Seja no ecrã de um computador a jogar Football Manager, num sintético a jogar com amigos ou, outrora, como praticante federado ou nos fins-de-semana passados no sofá a ver a Sporttv, anda sempre de braço dado com o desporto rei. Adepto e sócio do FC Porto e presença assídua no Estádio do Dragão. Lá fora sofre, desde tenra idade, pelo FC Barcelona. Guarda, ainda, um carinho muito especial pela Académica de Coimbra, clube do seu pai e da sua terra natal. De entre outros gostos destacam-se o fantástico campeonato norte-americano de basquetebol (NBA) e o circuito mundial de ténis, desporto do qual chegou, também, a ser praticante.                                                                                                                                                 O Bernardo escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.