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Mal o pisaram, o novo relvado do Dragão sentiu-se o mais feliz de todos os relvados de todos os estádios de todos os mundos. As doses desmesuradas de magia, personificadas num nome com quatro letras, atravessou homens de todas as nacionalidades e fê-los juntar-se num final de uma sexta-feira quente de Julho para, revisitando duas equipas que fizeram história no futebol europeu da era moderna, materializarem o mais nobre dos sentimentos. Mesmo em futebol. A gratidão.

Deco quis, o homem sonhou, a (merecidíssima) homenagem nasceu. A instituição FC Porto, que em tantos outros momentos negligenciou aqueles que lhe ofereceram a glória, demonstrou ter memória e proporcionou o aplauso que há uma década estava injustamente por ser dado à equipa dos sonhos impossíveis, ao FC Porto de 2004, na pessoa do mais genial e influente jogador daquele conjunto que venceu, venceu e venceu, como mais nenhuma outra equipa portuguesa – Deco.

Para o comum adepto, é incomensurável o prazer de ter o Mágico de novo com o seu ‘10’ vestido, o manto sagrado patenteado pelas quatro letras que fizeram sempre do FC Porto algo maior e mais grandioso. Por isso toda a gratidão. Por isso toda a memória. Por isso o sentimento de nostalgia, reacendido a cada nome chamado por Deco, também ele percebendo que a época que marcou tem aliado a si Vítor Baía, Paulo Ferreira, Jorge Costa, Ricardo Carvalho, Pedro Emanuel, Nuno Valente, Costinha, Maniche, Pedro Mendes, Alenitchev, Derlei, Benni McCarthy, Jankauskas, Sérgio Conceição, Carlos Alberto e outros mais. Aqueles que, com ele, ganharam tudo e que, passados dez anos, de novo juntos, perfilados, ao som do hino do clube que elevaram, como que se preparando para derrotar o Celtic ou o Man Utd, a Lazio ou o Mónaco, lhe prestaram a devida vénia.

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FC Porto e FC Barcelona unidos na homenagem a Deco
Fonte: mundodeportivo.com

A festa foi bonita, conjugando surpresa com emoção, brilhantismo com sorriso. Fez-se de um confronto entre o FC Porto 2004 e o FC Barcelona de 2006 – duas equipas campeãs da Europa, duas equipas marcadas pelo toque de Deco –, onde os diversos protagonistas não se coibiram de demonstrar belos pormenores. Porque se, hoje, há barriga, a qualidade técnica também por lá anda, mesmo que os anos para alguns já pesem.

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Com Deco à cabeça, houve um FC Porto mais forte na 1ª parte, com jogadas bem desenhadas, como se José Mourinho ainda treinasse todos os dias, no Olival, Derlei e McCarthy para estes descobrirem o golo (os dois primeiros são prova disso mesmo); como se o losango do meio-campo nunca tivesse sido desfeito e Maniche continuasse a ser o mesmo potente motor de uma equipa equilibrada por Costinha e com a categoria de Alenitchev; como se Baía ainda alimentasse o sonho de ir à Selecção e Jorge Costa comandasse uma defesa que agora se mexe pouco mas que se mexe sempre bem. Como se o tempo tivesse andado para trás. Ao intervalo, com várias substituições e uma declaração via vídeo do ‘Special One’ pelo meio, Derlei e McCarthy (‘magrinho’ mas com jeito para ainda fazer o golo, como diz ainda a sua música) assinavam o 2-0 favorável ao Dragão.

Sempre aplaudido, sempre acarinhado, Deco despiu a camisola que se lhe colou à pele para a eternidade, e colocou o ‘20’ culé, dando corpo a um trio completado por Messi e Eto’o, desleal para com Jorge Andrade – um central que ocupa, hoje, o espaço como poucos. O jogo facilmente virou para a equipa catalã com golos destes três e com a impotência sorridente da equipa do Dragão. Longe de estar a brincar e por certo imaginando-se ainda no Brasil, e no prolongamento diante da Costa Rica, Fernando Santos gesticulava, insatisfeito com a incapacidade, por exemplo, de Sérgio Conceição de acertar senão na trave da baliza do Barça (guardada por Baía, na 2ª parte). Como em tantas outras ocasiões, a solução estava, afinal, ali à mão. Deco queria passar os últimos minutos da sua brilhante história com a camisola azul e branca e, por isso, foi ao balneário trocar-se e voltou para, tal como Mourinho um dia disse dele, ser aquele que ordena “dá cá a bola que eu resolvo”. No último lance, no último toque, no último pormenor, com um chapéu apenas ao alcance dos ungidos pela força criadora, assinou o derradeiro golo que não mais foi do que o paradigma da sua carreira: suprema classe.

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Ontem como hoje, Deco serviu de bandeja McCarthy e Derlei
Fonte: jn.pt

O 4-4 final foi o mais democrático dos resultados e, simultaneamente, o menos importante numa noite que roçou a perfeição. A perturbar apenas, por um lado, a invasão pacifica de uma minoria de aficionados sedentos por um contacto mais próximo com alguns dos seus ídolos e que impediu outro final de festa, e, por outro, a incompreensível reacção de uns quaisquer adeptos que decidiram assobiar aquele que era ontem um convidado de honra, alguém que interrompeu as suas férias para homenagear quem todos nós queríamos que fosse reconhecido da forma mais calorosa possível. Ah, e que, por acaso, é só o jogador mais fantástico do Mundo. Felizmente, os assobios foram rapidamente suplantados por aplausos e Messi voltou a sorrir no palco que o viu estrear-se há quase onze anos.

Enfim, se o tempo é cruel e a despedida inevitável, Deco pôde, ontem, revisitar os mais belos momentos da sua carreira, rever colegas que o reverenciam – as palavras de Jorge Costa, Belletti, Eto’o, Derlei mas especialmente de Messi terão de o deixar orgulhoso – e até ter uma declaração tão surpreendente quanto repleta de admiração, como a de Luís Figo. Mas pôde, sobretudo, constatar que o orgulho que diz sentir quando veste a camisola do FC Porto é incomparavelmente inferior à vaidade que o comum adepto portista tem em dizer que viu tamanho génio jogar com as suas cores. Como disse Costinha, aquela equipa de 2004 só ganhou tanto e tudo porque era uma “equipa de amigos” – e ontem os amigos estiveram lá todos. Eram 50 mil!

Porque será sempre o nº 10, porque fintará sempre com os dois pés, porque será sempre melhor do que o Pele. Porque é o Deco.

E esta casa nunca deixará de ser tua.

Obrigado, Mágico.