Existem coisas que, nesta vida, estão fadadas a serem repetitivas: chegar à altura do Natal e ver o Sozinho em Casa pela milésima vez, chegar a janeiro e inscrever-se num ginásio, entre muitas outras.

O facto de serem repetitivas, automaticamente, torna-as enjoativas ou desagradáveis? Não, de maneira alguma; até porque já nem me consigo imaginar a passar uma época natalícia sem o rosto de um jovem Macaulay Culkin na minha televisão.

Posto isto, viremo-nos para o mundo do futebol. É costume dizer-se que cada jogo tem a sua história; se tal dito popular for tomado como verídico, estaríamos numa esfera da realidade em que “repetitividade” e “monotonia” seriam palavras inexistentes. De facto, é indiscutível que cada jogo é palco de uma história única e irrepetível. Porém, será que no mundo da bola nada, rigorosamente nada se repete? Bom, isso já será outra história…

E por falar em histórias, têm sido muitas aquelas que têm sido contadas aos adeptos do FC Porto ultimamente. Para explicar os recentes desaires, uns optam por vestir a pele de lobo mau a Sérgio Conceição, uns escolhem o jogador A ou B como bode expiatório, alguns até olham para fora do clube e culpam rivais pelo nosso insucesso.

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O FC Porto de Sérgio Conceição, após a eliminação da Liga dos Campeões, vê mais um objetivo para a presente temporada não ser alcançado
Fonte: Diogo Cardoso/Bola na Rede

E não me interpretem mal, nenhum dos elementos acima mencionados podem/devem ser isentados das suas respetivas porções de culpa. Apenas considero que devemos olhar para a origem de tudo isso, para os sucessivos (e repetitivos) erros que levaram o clube a este cenário.

Em 2017/18, foram Iván Marcano e Diego Reyes. Na época passada, foram Adrián López, Hector Herrera, Hernâni, Yacine Brahimi e Maxi Pereira. No final da próxima temporada, isto é, no verão de 2021, poderão ser Pepe, Soares, Sérgio Oliveira, Aboubakar, Otávio, Alex Telles e Moussa Marega. São dezenas e dezenas de milhões que voam dos cofres do Dragão ano após ano, consequência de uma gestão irresponsável por parte de quem tem responsabilidades para tal.

Um clube que, não há muitos anos, era elogiado um pouco por todo o mundo devido à sua excelente capacidade de valorizar jogadores, tem, atualmente, um atestado de incompetência financeira passado pela UEFA. Um clube que, não há muitos anos, ostentava um poderio negocial fora da curva para os padrões portugueses; hoje em dia, terá de mendigar milhões no final da temporada por jogadores cujos contratos não foram prontamente renovados. Um clube que, não há muitos anos, era sinónimo de excelência no que a scouting diz respeito; atualmente, gasta dezenas de milhões de euros em laterais direitos e acaba por ser o melhor extremo do plantel a assumir aquele papel. Um clube que, não há muitos anos, detinha a hegemonia do futebol português, vive a maior seca das últimas décadas.

Um dia, depois de tantos erros sucessivos, a conta chega a casa. E a bola, antes de qualquer um, é a primeira a punir.

Foto de capa: Diogo Cardoso/Bola na Rede