Em maio último, o mundo do futebol e, em particular, o universo portista ficou em choque com o susto por que passou o ‘santo’ Iker Casillas. Mais a frio, e já depois da situação clínica do espanhol ficar estável, percebeu-se que a baliza dos dragões (que já iriam perder peças importantíssimas nos setores mais dianteiros do terreno) poderia ser mais um dos grandes problemas para resolver. Eis que, do céu, um outro anjo aterra na invicta e, rapidamente, sossega os corações mais dados a preocupações.

Pois bem, Augustín Marchesín, argentino de 31 anos, não era, à primeira vista, um nome que pudesse consensualizar as opiniões de todos os quadrantes, sobretudo se tivermos em conta os inúmeros nomes (alguns de muito crédito) que foram desfilando nas páginas dos jornais, tais como Navas, Koubek, Trapp e até Gigi Buffon.

Os vídeos disponíveis na internet serviram de suporte à formação da primeira opinião sobre aquele que se configuraria como o novo número um da baliza azul e branca e a verdade é que escorreu alguma água da boca dos adeptos. Desde as defesas incríveis por instinto aos golos de pontapé de bicicleta nos treinos, passando pelos tentos decisivos em jogos decididos nos desempates por penaltis. A apresentação de Marchesín estava feita, mas faltava o mais importante: confirmar credenciais.

O mais recente mercado de transferências, apesar de ser um dos mais exigentes dos últimos anos, acabou por confirmar um FC Porto cirúrgico e assertivo nas escolhas para os lugares deixados por Casillas, Felipe, Militão, Herrera e Brahimi. A defesa (o setor em foco neste artigo) viu-se refém de três peças verdadeiramente importantes na dinâmica da equipa, seja pela qualidade dos seus atletas ou da experiência que cada um emprestava aos restantes colegas. No caso particular da baliza, seria necessário alguém que pudesse ter a muito pouco provável capacidade de fazer esquecer aqueles ‘fuera, fuera’ que Casillas gritava assim que um lance de bola parada era sacudido pela defesa. Ou até mesmo, alguém que pudesse igualar o ‘Santo’ nas exibições arrebatadores nos jogos de grande exigência, com paradas verdadeiramente incríveis (quem não se lembra do voo soberbo a parar o cabeceamento de Coates em cima dos 90; ou o primeiro clássico na Luz em que levou ao desespero os artilheiros Jonas e Mitroglou com uma mão cheia de defesas “impossíveis”?).

Marchesín tem no jogo de pés uma das maiores virtudes
Fonte: FC Porto

A primeira aparição de Marchesín, rapidamente fez crer que a baliza estaria em boas mãos (não terá Casillas tido influência na chegada do argentino ao Dragão?). Uma calma incrível na hora de trocar a bola com os colegas da defesa perante a pressão dos avançados do FK Krasnodar e a capacidade de nunca se desconcertar num jogo em que o adversário raramente incomodou, a não ser perto do final, altura em que Marche foi chamado a mostrar pela primeira vez os seus dotes de elasticidade, misturados com uma boa dose de reflexos.

A panóplia de soluções para parar os golos adversários continuou em Barcelos, com três paradas fenomenais, que acabaram ofuscada pelo resultado final negativo. O mesmo sucedeu no jogo seguinte, na receção aos russos que ditou a desilusão europeia. A perder por três, Marche teve uma ação decisiva, no cara a cara com o avançado, a negar um resultado mais humilhante e a dar à equipa uma nova chance para continuar a acreditar numa reviravolta que esteve perto, mas não se concretizou. A partir daqui deu-se o reset exibicional, mas Marche continuou a ser uma das figuras, ao manter a baliza a zeros, conseguindo tornar o retângulo magico demasiado pequeno para quem ataca.

No Reino do Dragão, houve uma lenda que caiu, mas rapidamente outra se levantou para mostrar ao mundo que não há espaço, nem tempo para lamentos no futebol. Iker estará certamente orgulhoso por perceber que o legado que deixou na baliza está em boas mãos.

Foto de capa: FC Porto

artigo revisto por: Ana Ferreira

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