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eternamocidade
Gary Lineker, numa das frases mais célebres da história do futebol europeu, dizia que “no futebol são 11 contra 11 e no fim ganham os alemães”. Muito provavelmente, o avançado inglês não seria um predestinado, e a sua frase era apenas uma evidência acerca da superioridade que a seleção e as equipas germânicas têm tido no futebol europeu e mundial. Falar nos quatro títulos mundiais da seleção alemã e nas cinco ligas dos campeões ganhas pelo Bayern de Munique são premissas suficientes para se perceber onde se metia o FC Porto.

Como havia dito no meu texto no último domingo, a tarefa portista era hercúlea. No mundo de futebol, a única dúvida que pairava acerca desta eliminatória residia nos números da goleada alemã. Do outro lado, estava a “pequena” equipa do FC Porto, daquele país que, para muitos, não passa de uma província espanhola ou da cauda da Europa. Para a esmagadora maioria dos portistas, a esperança num apuramento era meramente utópica. A diferença entre as equipas é tão evidente que sonhar com a presença nas meias finais era praticamente um sacrilégio.

Também por isso é que a vitória de hoje soube tão bem. Soube tão bem ver os alemães a passearem-se pela cidade do Porto e a preverem uma goleada do Bayern. Soube tão bem olhar para as redes sociais e perceber que, em Portugal, já se fazia o funeral prévio à equipa de Lopetegui. Tudo isto soube tão bem que as minhas palavras serão sempre curtas para demonstrar o orgulho e a felicidade por tão grande feito conquistado pelo FC Porto. Nas bancadas do Dragão, 50 mil almas encheram-se de fé e, com uma coreografia a todos os níveis brilhante – recordando as glórias europeias portistas e exigindo respeito pelo clube -, era um estádio cheio que puxava e queria empurrar a equipa de Lopetegui para algo impossível.

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Como escrevi no Bola na Rede, para poder sonhar com o apuramento, o FC Porto, mais do que tudo o resto, tinha de saber usar aquilo que é mais importante: a cabeça. O aspeto mental e a inteligência tática eram essenciais para manter a chama do dragão acesa. Por isso, a equipa sabe que não podia esbanjar as oportunidades que lhe surgissem e que, de quando em vez, tinha de colocar o Bayern em espaços que não os seus, obrigando-os a jogar taticamente de forma desprotegida. No onze inicial, a surpresa da inclusão de Jackson Martinez, cinco semanas após a lesão em Braga, era um argumento mais para tentar criar perigo na defensiva alemã. Do lado dos bávaros, Pep Guardiola preferiu não colocar o sistema 3x5x2 em campo, deixando Badstuber no banco e entregando o jogo ofensivo a Thiago Alcântara.

Jackson regressou após lesão e apontou o terceiro golo dos dragões Fonte: Facebook do FC Porto
Jackson regressou após lesão e apontou o terceiro golo dos dragões
Fonte: Facebook do FC Porto

Depois, veio o melhor: os primeiros 15 minutos do FC Porto. Com uma entrada avassaladora, diante de um Bayern que ia dando tiros nos pés, a equipa portista entrou como ninguém esperava que pudesse acontecer. Com um bloco alto, sempre na pressão à primeira fase de construção alemã, o FC Porto foi conseguindo bloquear Xabi Alonso e Lahm, os motores da sala de máquinas tática de Guardiola. Empurrada para espaços e para problemas a que não está habituada, a equipa do Bayern foi obrigada a errar pelo FC Porto. Também por isso não foi de estranhar que, em tão pouco tempo, dois erros defensivos tenham sido tão comprometedores para os germânicos. Logo aos três minutos, Jackson ganhou a bola a Boateng, ficando isolado perante Neuer, que derrubou o avançado colombiano e por isso deveria ter levado o cartão vermelho. Velasco Carballo assim não o quis, e, perante o gigante alemão pela frente, Ricardo Quaresma partiu para bola e decidiu dar a primeira estocada na estratégia alemã.

O Dragão explodiu e mal sabia que, apenas sete minutos depois, novo erro alemão haveria de colocar o FC Porto a vencer por 2×0. Agora, havia sido a vez de Quaresma aproveitar o erro de Dante e, perante Neuer, fazer a sua famosa trivela para marcar o segundo golo portista. Com um resultado tão improvável quanto justo, dada a entrada demolidora portista, Guardiola alterou aquilo que tinha planeado. Obviamente que o controlo da bola esteve sempre lá e não raras vezes o FC Porto foi obrigado no primeiro tempo a jogar no seu último terço de terreno.

A circulação de bola foi mais rápida e os médios jogaram de forma mais prática, procurando envolver Gotze, Muller e Lewandowski no jogo ofensivo. O FC Porto, com dois golos de vantagem na bagagem, viu-se obrigado a recuar o bloco e a entrar no espaço tático indesejado perante uma equipa como o Bayern de Munique. À medida que os minutos iam passando, o bloco portista ia recuando e eram cada vez mais os jogadores que o Bayern colocava no seu processo ofensivo. Por isso, não foi de estranhar que, aos 28 minutos, os bávaros tenham mesmo chegado ao golo, com Thiago Alcântara a dar excelente sequência ao cruzamento de Jerome Boateng. Com o golo alemão, até ao apito para o descanso, o FC Porto voltou a subir no terreno e, por Alex Sandro e Casemiro, a estar próximo de fazer o terceiro golo na partida.

No regresso dos balneários, voltou a entrada forte e autoritária do FC Porto. Ainda assim, e ao contrário do primeiro tempo, em que a estratégia de Lopetegui procurava sobretudo aproveitar o erro contrário, no segundo tempo a equipa foi mais astuta e dinâmica na busca pelo último terço de terreno. Ao obrigar o Bayern a recuar e invariavelmente a falhar passes na sua primeira zona de construção, o FC Porto foi ganhando confiança nos primeiros minutos do segundo tempo. Também por isso, o golo cheirava no Dragão e só não aconteceu mesmo porque Neuer, à passagem da hora de jogo, negou de forma soberba o golo a Herrera. Ainda assim, apenas cinco minutos depois, o melhor guarda redes do mundo foi incapaz de suster a desmarcação e a arrancada de Jackson, que, apesar de não estar na melhor forma física, foi capaz de fazer o que melhor sabe, marcando o terceiro golo para a equipa portista.

Até final do encontro, o Bayern bem tentou reduzir a desvantagem mas raramente conseguiu criar perigo para a baliza de Fabiano. Com uma defensiva solidária e um meio campo batalhador, o FC Porto foi conseguindo sustentar o ímpeto germânico e, de quando em vez, ameaçar o último reduto do Bayern. Como ponto negativo, mais do que o golo alemão, foram os amarelos a Danilo e Alex Sandro, que os deixam fora do jogo de Munique. Com dois golos de vantagem e sem os dois laterais disponíveis, o FC Porto chegará à Baviera na próxima semana com a esperança de que é possível chegar às meias finais. Mesmo contra todas as probabilidades, a exibição desta noite foi mais uma prova de que, mais do que a estatística ou o poder teórico, a ambição também consegue reescrever a história. A tarefa não será fácil mas, por esta noite, o FC Porto mereceu o direito a sonhar. E, claro, sempre com ilusão.

A Figura:
Quaresma –
Vive claramente um dos melhores momentos da carreira. Sempre disponível defensiva e ofensivamente, foi um verdadeiro quebra cabeças para a defensiva germânica. Os dois golos coroam uma exibição de luxo do Harry Potter.

O Fora-de-jogo:
Amarelos a Danilo e Alex Sandro –
Mais do que o golo de Thiago Alcântara, a pior notícia para o FC Porto é a ausência dos seus dois laterais para a segunda volta. A sua importância é essencial e será preciso quase um milagre para a equipa resistir sem duas das suas peças mais importantes no jogo da segunda mão, em Munique. 

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