a minha eternidade

Ricardo Quaresma transferiu-se do Futebol Clube do Porto para o Besiktas, da Turquia, por 1,2 milhões de euros. Depois da sua segunda passagem pelo clube, ao fim de um ano e meio de excelentes prestações, o “Harry Potter” azul e branco não entra no planeamento para esta época portista. O treinador espanhol Julen Lopetegui afirmou peremptoriamente que não iria dar ao atleta o tempo de jogo que este reivindica e incontestavelmente mereceria pela sua qualidade. A relação não muito cordial entre os dois já remonta à temporada passada, tendo Q7 perdido a braçadeira por algumas atitudes intempestivas.

Não estou a escrever com o intuito de absolver ou condenar a estrutura do Porto, o treinador, ou o próprio jogador por este desfecho. Pretendo antes encetar um epílogo (precipitado é certo) que enforme uma – a minha – visão sobre este futebolista, melhor… acerca do seu génio. O “Cigano”, como é apelidado devido à sua etnicidade, durante toda a carreira teve detractores implacáveis que o desclassificavam e fãs extasiados que o endeusavam como sendo um magnífico jogador. Compreendo as duas posições e assumo-me próximo dos “religiosos”. Advogar que Quaresma é um excelente futebolista não será uma afirmação protegida pela infalibilidade. Mas quem o despreza está muito mais longe de lhe atribuir uma avaliação justa, visto que não reconhece que os seus pés foram moldados pela genialidade do Deus da circunferência.

Interessa, portanto, estabelecer esta pequena precisão ao nível de pensamento para categorizar Quaresma e o julgar com a justeza merecida. Alguém genial não precisa de ser muito bom (constante, produtivo), por exemplo, no seu trabalho (neste caso profissional de futebol). Os analistas mais especializados e o público em geral, para com esta individualidade, partem de premissas erradas quando o criticam (no sentido avaliativo). Invariavelmente tentam ajustar as suas prestações e as suas escolhas de carreira com a valia das suas capacidades inatas, do seu talento, do seu… génio.

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No FC Porto, Quaresma voltou a recuperar o seu lugar na Selecção Nacional
Fonte: fpf.pt

Isto é um labor mental que de nada vale exercitar. O pensamento de que ele deveria ser melhor do que é se fosse mais inteligente ou contido, ou que poderia ser Cristiano Ronaldo (tanto serve aqueles que o pretendem diminuir, como quem o pretende elevar). Quaresma é aquilo que é e deve ter muito orgulho no que conseguiu. Problematizem-no pelo que é e foi, não pelo que poderia (como saber?) ter sido… Na minha opinião pessoal, para além de ungido com o toque de midas da criatividade, é também um grande jogador, muito útil às equipas onde passou e com um rendimento estável. Não concordando, admito alguma legitimidade a opiniões contrárias, porque também falhou em alguns momentos em que podia ter feito melhor.

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Não tenho dúvidas em relação ao seu profissionalismo, atitude, vontade, afinco, tenacidade e companheirismo. A sua autoconfiança é justificada, bem como o seu individualismo (com tamanha destreza não vai jogar fácil ao lado). O que terá sido algo prejudicial para a condução da sua carreira foi o factor psicológico de excessiva carência que lhe denoto. Quaresma tem de ser amado incondicionalmente (por todos no clube), sente-se bem se for a estrela entre os seus pares e quando todos lhe endossam a bola para resolver o jogo. A sua técnica letal germina quando é o principal jogador do onze. Se os outros o acompanham nesse reconhecimento de jogador primordial vai para cima do oponente sem temor. Já com os seus dez colegas “encavalitados” sobre si fica mais leve e solto para gingar.

Por isso, talvez, não tenha vingado no Barça (muito novo), Inter e Chelsea (titular e “menino” de Scolari, perdeu espaço depois da saída do técnico brasileiro) – nesses clubes foi mais difícil (mesmo impossível) atingir esse estatuto de jogador-chave. Por isso brilhou na cidade invicta. O FC Porto tem o tamanho e estatuto ideal para ele. Um clube sem “vacas sagradas” onde o “Mustang” pode arrancar a solo e driblar dois, três, quatro (sem no treino levar um pontapé de algum “Materazzi”)… No Porto, coroado por Jesualdo Ferreira (que o compreendeu plenamente), pôde ser a mais cintilante estrela da constelação, tendo o jogo exclusivamente mecanizado em seu torno, ficando incumbido de o acelerar, numa acção colectivamente centrípeta por si subordinada. No Dragão não apenas existiu tolerância, como se fomentou que o artista fizesse bonitos, se instigou o drible, o cruzamento e remate… de trivela (consegue efeitos na bola que mais ninguém no mundo é capaz).

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Em 2014/2015, Quaresma nunca conviveu bem com a sua não indispensabilidade
Fonte: ricardoquaresma.net

Por isso diz “sentir saudades” do “clube do coração” e do “seu Norte”. Terra que o norteou pelos caminhos mais sublimes e que ele abrilhantou. O seu potencial inefável aí se consubstanciou, numa adopção mútua de sentimentos de pertença, embora não de nascença, um filho citadino de espírito e carácter. Quaresma muitas vezes disse que dava a vida pelos portuenses azuis e brancos. Para disseminar todo o seu potencial necessita de ser incondicionalmente amado, como foi (em muitos momentos no Porto). Retribuo-lhe essa afectuosidade dizendo-lhe: “Quaresma, morro contigo”. Se algum seu treinador lhe transmitir essa carga emocional, uma simbiose inabalável nascerá. Deste modo, qualquer timoneiro terá reciprocidade em campo de Quaresma. Ou melhor, do homem que não joga futebol nem faz golos; no fundo, não é sequer futebolista – é um oleiro de chuteiras que cria obras-primas. Fundador de uma estética é, de facto, anunciante da ressurreição divina.

Foto de capa: Página de Facebook de Ricardo Quaresma