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Que futuro?

Bernardo Lobo Xavier · 6 min

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O Futebol Clube do Porto vive tempos conturbados. Ao insucesso desportivo alia uma situação financeira, no mínimo, periclitante. Que futuro?

A mesma direção, grosso modo, que conduziu o FC Porto a três décadas de glória com a hegemonia do futebol nacional e vários títulos continentais, tem acumulado erros em catadupa na gestão do clube que o levaram à situação decadente em que se encontra atualmente. Um clube altamente endividado, um clube que aumentou nos últimos anos o seu passivo para níveis preocupantes, um clube que teve, esta época, dificuldades para regularizar o pagamento dos salários aos seus colaboradores a tempo e horas, um clube que lança um empréstimo obrigacionista para poder liquidar um mesmo lançado anteriormente, um clube que já antecipou quase 100M€ de receita do contrato celebrado com a Altice (MEO) que só entra em vigor em 2018 e um clube obrigado a gerar mais valias no valor de 115M€ para fugir aos castigos da UEFA por incumprimento do fair-play financeiro. Esta é a situação financeira calamitosa em que o FC Porto se encontra. Muitos portistas desconhecem esta realidade . No fim do dia, ao adepto interessa se a bola entrou ou não na baliza. Mas a verdade é que tudo isto contribui para que a bola comece a entrar menos vezes.

Percebemos também que, fruto dos constantes insucessos e mudança de atitude e pujança na comunicação para o exterior, o FC Porto perdeu poder nos meandros do futebol português, perdeu relevância nas mais altas instâncias do nosso futebol e, como consequência, perdeu o respeito muitas vezes confundido com receio por parte dos árbitros. Errar contra o FC Porto deixou de ser um problema e deixou de ter consequências. E isto, quer queiram quer não, também se deve a um adormecimento de uma estrutura aburguesada que se acomodou depois de dois títulos nacionais “caídos do céu” (sem retirar o enorme mérito que tiveram Vítor Pereira e seus pupilos).

Pinto da Costa é o presidente do FC Porto Fonte: FC Porto
Pinto da Costa é o presidente do FC Porto
Fonte: FC Porto

O FC Porto sempre foi um clube diferente. E esta diferença prendia-se, nada mais nada menos, pelo facto de o FC Porto ser um clube que mais do que vários adversários, tinha um inimigo. Entenda-se o termo “inimigo” no sentido positivo do mesmo. O SL Benfica, clube que domina e manieta quase toda a opinião pública e publicada deste país, foi, durante muitos anos, o combustível da máquina azul e branca. O combate ao centralismo de Lisboa sempre foi um baluarte da estratégia portista e o constante confronto era uma forma de estar e não uma solução elaborada em cima do joelho para escamotear maus resultados e fugir às responsabilidades. Muitos nos acusam (aos portistas) de sermos mais anti-benfiquistas do que fervorosos adeptos do Porto mas não entendem que esse anti-benfiquismo (sem nunca passar para a violência e para a falta de respeito) é quase condição essencial e necessária ao portismo. Isto pode ferir algumas suscetibilidades e provavelmente será alvo de fortes críticas mas toda a vida foi assim e o período de maior sucesso do nosso clube deu-se quando estes pontos não eram sequer discutíveis. O FC Porto nunca foi, e provavelmente nunca será, o maior clube português. Está, nesse capítulo, muito longe do SL Benfica e, se calhar, do Sporting CP. Mas era o melhor e era isso que nos tornava grandes. Nunca o maior mas sempre o melhor.

Por tudo isto se percebe que o FC Porto está muito longe do sucesso desportivo. As bases deixaram de ser sólidas, a tranquilidade e estabilidade que caracterizavam o nosso clube desapareceram e deram lugar à anarquia da bancada. A direção, cada vez mais fragilizada, gere o clube ao som do assobio de forma a retardar o momento em que será, finalmente, responsabilizada pelo insucesso e, com esse tipo de atuação, está a colocar em risco o futuro e a sustentabilidade do clube.

É fundamental a contratação de um treinador competente e dar-lhe estabilidade, confiança, apoio e tranquilidade para trabalhar. É necessário garantir-lhe que não terá o lugar em risco ao primeiro desaire. Fui um crítico de Nuno Espírito Santo e um apoiante da sua desvinculação enquanto técnico principal do FC Porto porque não lhe reconhecia competência para  cargo. Quando falo em estabilidade, quero dizer que é fulcral estabilizar na competência. Treinadores como Marco Silva (já fora de órbita) ou Sérgio Conceição, seriam para mim os mais acertados para o cargo e seria de extrema importância a contratação de um destes nomes. Uma opinião meramente pessoal com base numa profunda análise, mais uma vez, da competência, ideia de jogo, gestão de recursos humanos e capacidade comunicativa.

No entanto, urge perceber, até pelo que já referi anteriormente, que nem estes ou outro qualquer nome que venha a ser o escolhido como timoneiro da equipa principal de futebol resolverão todos os problemas existentes. A solidez e competência da estrutura do nosso principal rival, encontra-se, infelizmente, a anos luz da nossa e, como tal, não será um treinador, por si só, a resolver todos estes problemas conjunturais e estruturais. É imperativo o reconhecimento de que, provavelmente, o FC Porto voltará a não ganhar na próxima temporada (oxalá esteja enganado), já que competirá com armas muito inferiores, como já sucedeu esta época.

O clube tem que saber dar um passo atrás para dar dois à frente. É necessária e essencial uma reabilitação financeira e um aumentar dos níveis de rispidez comunicacional para que se volte a ganhar, sendo quase certo que para isso acontecer, este hiato de vitórias (pelo menos no que ao título nacional diz respeito) correrá o risco de se prolongar por mais uma ou duas temporadas. O investimento e endividamento desenfreado já provaram não ser solução e colocaram em risco a sobrevivência do clube. Compete, agora, aos obreiros deste descalabro um emendar desses erros e o recolocar do navio em rota certa sob pena de este se afundar definitivamente.

A união é fundamental para o sucesso no FC Porto Fonte: FC Porto
A união é fundamental para o sucesso no FC Porto
Fonte: FC Porto

Muitas vezes se confundem os domínios do possível e do provável. Ora, uma eventual conquista do campeonato nacional por parte do FC Porto na temporada desportiva que se avizinha entra no campo das possibilidades mas está completamente fora do âmbito da probabilidade.

Sei que não é fácil para um portista aceitar esta ideia, até pelo facto da eminente possibilidade de o SLB igualar a proeza do FC Porto no final do século passado e ser pentacampeão para o ano que vem, mas quando a sobrevivência do clube está em causa a racionalidade torna-se fundamental. Importa agora apoiar a equipa em mais uma longa temporada e saber fazer análises dentro do contexto atual do clube e nunca fazer a separação dos dois (clube e seu contexto). São tempos diferentes dos que estávamos habituados. Há que, primeiro, aceitar, para depois voltar a ganhar. Exige-se máximo rigor, honestidade e competência a todos os envolvidos no processo e pede-se, agora, alguma paciência e ainda mais apoio a uma massa adepta que se habituou a caviar mas a quem, ultimamente, têm sido servidas apenas latas de conserva.

Não quero com isto, ainda assim, reduzir as esperanças ou desculpabilizar possíveis insucessos. Cabe ao FC Porto lutar até à última gota de suor por todas as provas em que estiver envolvido mesmo que parta para estas em clara desvantagem. Isso é uma obrigação enquanto parte integrante do clube.

Mais uma vez apelo à união do clube porque só assim, juntos, poderemos dar a volta a uma situação que poderá ser bem pior do que imaginamos. É tempo de vacas magras no Reino do Dragão.

Foto de capa: FC Porto

Bernardo Lobo Xavier

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