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A pergunta que intitula este texto é porventura uma das mais difíceis de serem respondidas no espectro futebolístico. A resposta é dúbia, tendo em conta as várias hipóteses que se levantam consoante a opinião de cada adepto. Ao ver uma equipa em campo, quando a exibição não está a ser positiva, não raras vezes vemos os adeptos a apontarem o dedo ao treinador. Coincidência ou não, talvez seja por isso que, na maioria dos casos, o primeiro a abandonar o barco em caso de emergência seja mesmo o treinador. Os lenços brancos na bancada, os maus resultados e as confrangedoras exibições parecem quase sempre só ter um culpado sem que este, na maioria das vezes, tenha sequer hipótese de poder contrapor esta tese.

Quando as coisas viram-se para o outro lado da trama – ou como quem diz, a equipa tem um bom rendimento – raras são as vezes em que o treinador ocupa o lugar a solo nas palavras de agradecimento da bancada. A não ser que o treinador tenha um ego do tamanho do clube que representa – e em Portugal até temos alguns casos desses – a verdade é que são os jogadores que acabam por levar com os luzes da ribalta quando as vitórias e as conquistas se sucedem. No caso do FC Porto, esta é uma premissa que tem sido repetida quase consecutivamente desde que me lembro. Com exceção de José Mourinho e André Villas Boas, que conquistaram títulos dentro e fora de portas ao serviço dos portistas, raros foram os técnicos que tiveram o aval das exigentes bancadas do Dragão. As razões foram várias ao longo dos anos: fosse por opções técnicas e táticas duvidosas ou por exibições sofríveis, a verdade é que homens como Jesualdo Ferreira, Co Adriaanse e Vítor Pereira passaram por momentos difíceis no Dragão.

É, por isso, a este ponto que chega Julen Lopetegui. Desconhecido para a esmagadora maioria dos adeptos portistas antes de chegar ao Porto, o treinador espanhol nunca foi verdadeiramente um bem amado. Não estou aqui a criticar a atitude contestatária dos adeptos em alguns casos, até porque também critiquei várias vezes o treinador na época passada. Mesmo que nunca tenha visto qualquer lenço branco na temporada passada, é certo e sabido que Lopetegui está longe de ser um treinador consensual no Dragão. Para adensar as incertezas relativamente à sua competência para gerir um plantel destes, a época em falso que proporcionou, sem títulos ou grandes vitórias para festejar, foi a cereja em cima do bolo para que a época que agora começa seja o verdadeiro “tudo ou nada” para Lopetegui.

Também por isso é que, quem viu como eu ao vivo o jogo frente ao Estoril, não se surpreende que ao mínimo erro individual, os adeptos portistas caiam em cima dos jogadores e do treinador. Os assobios que se ouviram em várias ocasiões durante a partida foram suficientes para se perceber o grau de exigência que esta época portista encerra. Ainda assim, e apesar de perceber as linhas com que se vai coser a nova época, não posso deixar de salientar esta “banalização do assobio” como um dos principais desafios de Lopetegui a médio prazo. É certo e sabido, e eu próprio salientei esse facto, que esta é tudo menos uma época fácil para o treinador portista. Apesar de ter um ano de campeonato português em cima – com as consequências que isso terá que ter na perceção dos adversários – a verdade é que Lopetegui não tem, nem por sombras, as armas que tinha na época passada. Tal como já destaquei, a perda de mais de metade dos titulares faz com que a visão sobre a equipa portista numa fase prematura da época tenha de ter sempre alguma precaução. Bem sei que duas épocas sem ser campeão faz com que os nervos cheguem ao limite e que a paciência do adepto seja pouca, mas creio que a “banalização do assobio” não pode nem deve ser o caminho a seguir no Estádio do Dragão.

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Lopetegui entra na segunda época como treinador do FCP
Fonte: dabancada.com

Por essa razão é que, ao ver um jogo no Dragão, sinto alguma frustração ao ver o comportamento dos adeptos em vários momentos do encontro. É certo que a exigência tem feito parte da história do FC Porto e talvez por isso se foi ganhando tantas vezes, tanta era a vontade de vencer que preenchia os adeptos e que fazia com que a motivação da equipa fosse sempre crescente. Mas isso não pode ser justificação para que, tal como vi ontem, se assobie a equipa aos 15 minutos quando já se está a ganhar por 1-0, ou que se assobie a equipa nos últimos minutos de jogo só porque os adeptos querem que a equipa marque mais um golo. A impressão que fica é que mesmo que por vezes esses assobios sejam justos – houve momentos frente ao Estoril em se cometeram erros primários -, a verdade é que se torna mais difícil jogar em casa do que fora.

Creio que é aqui que também se verá a estaleca de Lopetegui para o cargo. Mais do que os assobios por vezes injustos no jogo frente ao Estoril, aquilo que mais me perturbou foi a forma como Lopetegui voltou a “queimar” um jogador. Depois de Cissokho ter sido preterido da convocatória – a exibição frente ao Marítimo foi justificação suficiente para tal – frente ao Estoril foi a vez de Varela ter sido o primeiro a comprar bilhete de saída da equipa. Depois de uma primeira parte onde o extremo português acumulou erros, o treinador espanhol nem sequer esperou pelo intervalo para proceder à primeira substituição. No final do jogo, Lopetegui encarou a decisão como natural, justificando-se com as três substituições que tem ao seu dispor e que pode fazer no momento em que achar correto. Justificação que aceito mas que, a meu ver, pouco tem a ver com a realidade. Ao estar no Dragão, aquilo que me pareceu é que Julen Lopetegui foi atrás da opinião dos adeptos.

É verdade que Varela não estava, nem de perto nem de longe, a fazer uma exibição de qualidade, mas deve ser esta a gestão de um plantel? Não seria melhor esperar pelo intervalo para proceder à substituição ou até dar a Varela um início de segunda parte para tentar que o seu rendimento fosse melhor? Não quero, caro leitor, que me veja como um defensor acérrimo de Varela ou um crítico de todas as decisões de Lopetegui. Apesar de não concordar com este tipo de gestão, a verdade é que o treinador portista está no pleno direito de fazer alterações que quiser no momento que quiser. Aquilo que me preocupa é a perceção de achar que, não raras vezes, Lopetegui o faz porque ouve demasiado aquilo que vem da bancada. E é aqui que a “banalização do assobio” terá de ser encarada pelo treinador espanhol como um desafio que terá de superar até para o seu próprio crescimento enquanto técnico. Numa época em que o FC Porto tem o desafio de recuperar o título nacional, e com tantas alterações no plantel, mais do que nunca as ideias de um treinador tem de estar presentes na equipa.

É certo, e o jogo contra o Estoril demonstrou-o, que a equipa ainda tem um longo percurso para percorrer, tantas são as lacunas que ainda evidencia. E é por isso que, no meio de tantos obstáculos que a equipa ainda coloca a si própria, que o caminho tenha de ser firme. Mesmo que, no meio das suas decisões, ouça alguns assobios da bancada. Mesmo que, no meio das suas opções, tenha de colocar no onze um jogador vindo do V. Guimarães em vez de um jogador que custou 20 milhões de euros. Mesmo que, por entre as suas ideias, já não sobre nada da equipa da época passada. O importante, a meu ver, é não ir atrás do que se escreve e do que se ouve. É o problema das banalizações. Só espero é que Lopetegui perceba isso.