dosaliadosaodragao

Terminei a minha crónica da passada semana (ver AQUI) questionando se o sub-rendimento de alguns jogadores do FC Porto é, afinal, causa ou consequência da forma pálida como a equipa se tem exibido. Isto é, se a equipa não rende mais porque alguns atletas estão desmotivados e não dão o máximo pelas cores azuis e brancas ou se, por outra, é a própria equipa (e cada vez mais o contexto que a envolve) que está construída de uma forma que não possibilita que os jogadores se sintam confortáveis dentro dela e perfeitamente confortáveis para demonstrar e explanar todo o seu valor.

Sector paradigmático desta dúvida (cuja resposta, no fundo, até pode ter um bocadinho de cada uma) é o meio campo. Paulo Fonseca pensou a zona intermediária do seu FC Porto baseada num esquema de 2+1 e, desde o início da época, as experiências não param e, não parando, nunca se consolidou aquele que é – sem dúvida – o sector fundamental de um colectivo. Ainda mais quando se deseja que a equipa imponha o seu jogo e controle e/ou domine o adversário, consoante os diversos momentos do jogo.

Com a venda de João Moutinho e a saída de Castro, pensar-se-ia que Fernando, Defour, Josué, Herrera, Lucho, Carlos Eduardo e Quintero seriam suficientes para dar conta do recado. Recuperando a dúvida inicial, exceptuando pequenos flashs de jogos (essencialmente Zenit, na Rússia, e Braga, no Dragão), nunca como este ano o meio-campo do Dragão se mostrou tão frágil e inconsequente, tão pouco dinâmico e ameaçador. Com claros erros de palmatória, Fonseca já testou um pouco de tudo. Sempre e sempre sem consolidar uma base, sem descortinar um trio capaz de, com o decorrer dos jogos, se mostrar robusto e coeso.

Se Fernando é (e sempre será até ao fim dos seus dias no Dragão) indispensável, se Lucho partiu sem com isso se resolver qualquer problema (pelo contrário!), se Carlos Eduardo demonstrou até hoje maior capacidade do que qualquer outro para desempenhar o papel de ‘10’ (tão-só porque Quintero, mesmo com a sua genialidade que pode decidir um jogo, está ainda um pouco verde e acusa agora a falta de ritmo e confiança próprias de quem vem de uma lesão), a questão maior continua a ser o elemento que fará companhia a estes dois – Fonseca já aí experimentou Defour, Herrera, Josué, mesmo Lucho e até Carlos Eduardo.

Fazendo uma pequena radiografia das opções disponíveis – para mim, a dúvida passará por entre Defour, Josué e Herrera (isto se Quintero não demonstrar fibra para roubar o lugar a Carlos Eduardo e o brasileiro se assumir, então, como mais uma opção para ladear Fernando, desempenhando um papel semelhante ao cumprido na fase final da época passada, aí no Estoril) –, temos um belga que, motivado pela presença no Campeonato do Mundo, reclama frequentemente oportunidades mas que, a cada aparição, apesar da muita vontade, empenho e atitude (dos poucos, na realidade) evidenciadas, não consegue ser mais do que ‘certinho’, esforçado e com claras insuficiências ao nível da construção de jogo (incrível a forma como nunca arrisca, quer no passe ou no transporte de bola, lateralizando por demais); surge, por outro lado, Josué, sempre voluntarioso, colocando portismo em cada jogada, com excelente qualidade de passe, mas que se perde em quezílias e em confrontos físicos tantas vezes desnecessários, (des)focando-se em muito mais do que no jogo; por fim, o mexicano Herrera, que, em abono de verdade, se ergue como a maior esperança neste quadro – é certo que, por vezes, surge como que fora de jogo, alheado e desconcentrado, e apresenta uma qualidade de passe questionável (o que será sempre um ponto negativo num médio que se pretende de equipa grande); porém, é o único que da linha mais recuada – excluindo Alex Sandro e, ocasionalmente, Danilo –, fruto da sua elevada capacidade técnica, consegue transportar bola e surgir entre linhas, criando desequilíbrios e problemas diferentes aos adversários; em suma, arriscando!

Fernando e Enzo. ‘6’ e ‘8’ de excelência Fonte: Miamiherald.com
Fernando e Enzo. ‘6’ e ‘8’ de excelência
Fonte: Miamiherald.com

Respeitando a forma como Paulo Fonseca pensa o jogo do FC Porto – desde logo a forma como arquitectou o meio-campo -, o médio que acompanha Fernando na mesma linha, teria de ser, idealmente, alguém com grande amplitude de movimentos, um verdadeiro e intenso box-to-box, igualmente competente no processo defensivo quanto na capacidade de criar jogo ofensivo, quer através de passe com qualidade e critério, quer através de transporte de bola com rasgo (principalmente quando o adversário apresenta linhas baixas), permitindo a criação de desequilíbrios e juntando-se a Carlos Eduardo na segunda linha do meio-campo. Mas sabendo ser também inteligente, contemporizando e guardando a bola, se necessário for.

Olhando para os elegíveis do Dragão, jamais vejo Defour a fazer isto, acho Josué longe deste protótipo e apenas Herrera me parece com potencial para interpretar o lugar desta forma. É a solução imediata e perfeita? De todo! Mas é o único que, no seu íntimo, tem as potencialidades que o podem aproximar deste médio de eleição, tornando a equipa ligada e compacta. Um médio de que o FC Porto (ainda) não dispõe mas que não habita tão longe assim do Dragão. 300 Km a sul, vemos Enzo Peréz a interpretar, hoje, como poucos, esta casa táctica (assim lhe chama Freitas Lobo).

O argentino, perto do Porto, longe do FC Porto, agarra o espaço central, com intensidade e rasgo, coração e emoção, e serve de elo de ligação do jogo do Benfica. De Fejsa até Gaitán, Marko ou Rodrigo. De Fernando a Carlos Eduardo (e Varela e Quaresma)? Tens a palavra, Herrera – és o meu desEnzo.

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Ao ritmo do Penta e enquanto via Jardel subir entre os centrais, o Filipe desenvolvia o gosto pela escrita. Apaixonou-se pelo Porto e ainda mais pelo jogo. Quando os três se juntam é artigo pela certa.                                                                                                                                                 O Filipe não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.