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Certa vez, Marcelo Bielsa, mítico treinador argentino, afirmou preferir a “transpiração inspirada à inspiração momentânea”. Vem isto a propósito de Ricardo Quaresma e do seu retorno ao Dragão.

Mustang”, “Cigano” ou “Harry Potter”, o extremo internacional português voltou a casa! À casa onde, entre 2004 e 2008, ajudou a escrever páginas de glória e assinou momentos de magia. O comum portista relembra a sua invulgar capacidade técnica – desde as trivelas às recepções de bola precisas e orientadas, passando pelos dribles estonteantes e cruzamentos tensos a “cheirar a golo”. Como recorda os enormes golos: ao Valência, na Supertaça Europeia; com nota artística, em Alvalade; com a “bola no sete”, em Guimarães; ou numa combinação de espectacularidade e eficácia, diante do Benfica.

Mas o portista lembra (talvez) a outra face de Quaresma: os ‘amuos’, os pedidos para sair, a rábula do Verão de 2008 ou o sentir-se maior e mais importante do que o colectivo. Laszlo Boloni acertou em cheio quando, numa palavra, o definiu – “Mustang“, disse, então, o ex-treinador do Sporting. Ou um verdadeiro cavalo selvagem.

Quaresma sempre necessitou de um espaço muito próprio dentro de uma equipa de futebol. Talvez por isso tenha tido pouco sucesso com o exigente Co Adriaanse; talvez por isso tenha demonstrado o melhor futebol com o pacifista Jesualdo Ferreira. Melhor do que ninguém, o actual treinador do Braga montou o FC Porto de então de forma a proteger Quaresma: com plena liberdade, tornou-se um verdadeiro ícone de magia com a bola nos pés. Sem ela, menos um a defender. Ou, se quisermos, um jogador de inspiração momentânea mas com muito pouca transpiração inspirada. E tudo menos aquilo que nós, portistas, definimos como ‘um jogador à Porto’!

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Da mesma forma que recordo todos os momentos de plena magia assinados pelo Harry Potter, lembro os assobios e a sensação de desgaste profundo que a relação Quaresma-adeptos atravessava quando o “Mustang” partiu. Falhou em Milão, não apareceu em Londres, reinou algum tempo na Turquia e tirou férias no Dubai. Até aqui.

Sorrir. Eis o que Quaresma e os adeptos do FC Porto esperam voltar a fazer. / Fonte: A Bola
Sorrir. Eis o que Quaresma e os adeptos do FC Porto esperam voltar a fazer. / Fonte: A Bola

Ainda assim, quando mais precisava, Quaresma teve a mão estendida de quem lhe havia dado um berço para crescer. De quem o tinha mostrado ao Mundo e o havia deixado partir porque a casa já era pequena para tamanho ego. O ego que Ricardo Quaresma alimentava a cada trivela feita.

Só quem não assistiu ao primeiro treino do Dragão no novo ano não conseguiu descortinar a alegria que o reforço do FC Porto demonstrou. O adepto portista aprumou a casa e tratou de receber um dos seus filhos, esquecendo os mal-entendidos e recordando tão-só os momentos em que foi feliz graças à sua acção. Deu-lhe (provavelmente) a última oportunidade e devolveu-lhe a camisola com que sempre gostou de alinhar: o mítico 7. Perante isto, perceber o conforto e a comodidade do “Cigano”, o seu à-vontade e alivio mesclado com a gratidão que tem por sentir que a casa onde mais foi feliz não o esqueceu, traduzida nas palavras emocionadas de quem está a rebentar de alegria, não deixa indiferente o mais racional dos adeptos.

À semelhança do regresso de Lucho, espero e desejo que este retorno seja bem mais do que um paliativo administrado aos adeptos portistas; é certo que as minhas dúvidas quanto à utilidade desta contratação não se dissiparam totalmente. Porém, não duvido, hoje, que o lado emocional de Quaresma estará mais reforçado do que nunca – não há maior motivação do que sentir o carinho de quem o recebeu de braços abertos e lhe deu a possibilidade de voltar a ser feliz (como ele próprio o disse). Se, aliado a isso, atingir rapidamente os níveis mínimos de ritmo e capacidade física, então Quaresma terá legitimidade para exigir que “Harry Potter” volte a ser o seu nome do meio. Porque, no fundo, talento foi coisa que nunca lhe faltou.

Agora, Ricardo – como disse J.F. Kennedy –, terás de te olhar ao espelho e interrogares-te a ti próprio: não perguntes o que o FC Porto pode (mais) fazer por ti. Pergunta antes o que tu, com o Dragão no peito, podes fazer pelo FC Porto. Agora é contigo!

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Ao ritmo do Penta e enquanto via Jardel subir entre os centrais, o Filipe desenvolvia o gosto pela escrita. Apaixonou-se pelo Porto e ainda mais pelo jogo. Quando os três se juntam é artigo pela certa.                                                                                                                                                 O Filipe não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.