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Em 1995, Iran Costa lançava o famoso single “É o bicho / É o bicho / Vou-te devorar”. Mas antes disso, o verdadeiro “Bicho” já dava cartas no seu FC Porto, clube do qual é adepto desde nascença. Jorge Costa descreve-se como um “animal competitivo” e ganha troféus atrás de troféus no FC Porto, os mais importantes erguidos em conjunto com o amigo Vítor Baía. E por falar em amigos, o melhor que o futebol lhe deu: Sérgio Conceição, de quem diz que tem um ótimo coração mas um feitio difícil. Nesta entrevista de carreira, Jorge Costa conta-nos ainda o que pensa sobre um dia ser treinador do “seu” FC Porto, faz um pedido de desculpas aos portugueses pelo Mundial 2002 e assegura que o se passa dentro de campo fica dentro de campo.
– “É o bicho, é o bicho” –
Bola na Rede [BnR]: Em 1995, Iran Costa lançava o famoso single “É o bicho, é o bicho…
Jorge Costa [JC]: …vou-te devorar.
BnR: Nem mais. Foi neste ano que Fernando Couto te deu a alcunha de “Bicho”?
JC: Ehehe, não. Já era anterior a isso.
BnR: Qual era a razão da alcunha?
JC: Não era nenhuma em específico. Era mais pelos meus índices competitivos. Eu era um animal competitivo.
BnR: Muitos colegas teus contam que até nos treinos punhas a malta em sentido, para darem sempre o máximo. Esse espírito de exigência foi-te incutido no FC Porto ou é algo que era intrínseco em ti?
JC: Acho que é algo natural. Como é óbvio podes ir melhorando durante a tua vida mas sinceramente acho que é algo que tu tens, nasce contigo. Nasces com uma vontade enorme de vencer ou não gostas de perder e és competitivo. E eu sou competitivo em tudo, não é só no futebol.
BnR: No sentido de líder que mantém a exigência lá em cima, quem é que vês como o teu “herdeiro” no plantel atual do FC Porto?
JC: É difícil não conhecendo a personalidade mas este Porto não tem ninguém que se destaque de uma forma que possamos dizer “Sim senhor, este é um verdadeiro líder”. O Porto tem um capitão, o Danilo, mas não o conheço pessoalmente e assim é difícil dizer.
BnR: Nas tuas palavras, o que é um jogador à Porto?
JC: Isso tem muito a ver com a mística. A mística é algo complicado de explicar mas no fundo é a vontade de ganhar num clube que se sente clube do coração. Muitos não eram portistas de nascença mas quando chegaram rapidamente se adaptaram e incutiram-lhes o que é ser Porto. A mística no fundo é fazer aquilo que é a obrigação dos jogadores: dar o máximo diariamente e fazê-lo por uma causa. Nós sentíamos o clube de uma forma diferente.
BnR: “Quando era pequenito, ia ver os jogos de cachecol e bandeira, com o sonho de ser jogador do FC Porto”. Qual a melhor memória desses tempos em que vias o jogo na bancada?
JC: O jogo que mais me recordo como adepto terá sido o Porto-Barcelona da Taça dos Campeões Europeus [85/86], três golos do Juary e um golo do Archibald. Infelizmente fomos eliminados, tínhamos perdido 2-0 em Barcelona. Chovia torrencialmente nesse dia, é daqueles jogos de criança que eu tenho mais memórias.
BnR: Costa Soares é o teu “pai” do futebol?
JC: Sim. Nós usamos muito essa expressão e eu, felizmente, também tenho alguns jogadores que me chamam pai. Mas por ter sido o primeiro, por ter sido aquele que me fez ver o futebol de uma forma diferente, bem mais séria do que aquilo que eu estava habituado. Ensinou-me muita coisa. Foi quem me ensinou a caminhar no futebol. Por isso, pode-se considerar o meu pai no futebol.
BnR: Para um menino que “cresceu” no Campo da Constituição, qual é a sensação de jogar pela primeira vez no Estádio das Antas?
JC: Foi tudo um sonho que se foi tornando realidade. Eu comecei relativamente tarde a jogar futebol federado e passado um ano estava no Porto. Lembro-me perfeitamente da primeira vez que piso o campo de treinos. Mais do que o Estádio das Antas, o campo de treino do Estádio das Antas. E relva, que eu no Foz jogava no pelado [Jorge ri-se com gosto].
BnR: À antiga…
JC: É. Pisar relva pela primeira vez foi qualquer coisa… Na final do campeonato de juniores jogámos no Estádio das Antas e foi um sonho tornado realidade, jogar num palco em que eu estive anos e anos do lado de cá da rede a apreciar os meus ídolos.
🎙 Jorge Costa: “No FC Porto não ficamos contentes com o que conquistámos. Queremos sempre mais”#FCPorto #FCPortoEmCasa pic.twitter.com/NPPapoS9h8
— FC Porto (@FCPorto) April 17, 2020
BnR: Tiveste algumas lesões graves, das quais recuperaste sempre antes do tempo previsto. Como é que se recupera mentalmente destas voltas que o destino nos dá?
JC: Mentalmente é uma questão, fisicamente, sinceramente, nem eu sei. Eu tive três roturas do ligamento cruzado anterior e todas elas foram recuperadas num espaço de três meses, o que é anormal. Animicamente foi difícil e eu tenho na minha memória a terceira lesão, estávamos em pré-época na Suécia. Foi de tal forma marcante que eu equacionei não ser operado e não voltar. Custou-me muito as duas primeiras e fui-me um bocadinho abaixo. Felizmente o Rodolfo Moura, na altura o fisioterapeuta do FC Porto, deu-me a força necessária e o apoio para não desistir. E em boa hora o fiz, porque depois disso ainda tive grandes sucessos.
BnR: Quem é que criou o “covil dos dragões” no autocarro do Porto?
JC: [Jorge dá uma gargalhada] Não sei se fui eu por acaso. Foi a malta com mais anos de clube, fomo-nos juntando lá atrás e criando as nossas rotinas, os nossos hábitos. Era assim uma coisa mais reservada, para entrares tinhas que merecer. Agora, quem criou, como o autocarro era o novo, provavelmente devo ter sido eu.
BnR: O que é que se fazia no covil? Era um espaço exclusivo fechado com cortinas…
JC: Se estavam fechadas era por isso mesmo, para ninguém saber [Sai mais uma gargalhada].
BnR: Ehehe.
JC: Não, jogávamos cartas e tal. Era um sítio mais privado, da malta mais experiente.
– Taça UEFA, o “clique” europeu –
BnR: Tens espaço em casa para as medalhas todas?
JC: [Jorge hesita antes de responder] Tenho, tenho…
BnR: Mas foram várias…
JC: Sim, mas eu não sou… Infelizmente, porque agora passamos uma fase complicada, consegui ter tempo para parar, pensar e ver. Passaram muitos jogos das campanhas europeias do Porto e da Seleção, e deu para eu recordar muita coisa. Porque enquanto jogador a vida é tão intensa, hoje és campeão europeu, amanhã tens uma final da Taça para jogar e depois uma decisão do campeonato. Não tens tempo para usufruir e festejar como deve ser as grandes conquistas que vais tendo. E de facto foram grandes conquistas. Nestes três meses deu para perceber as conquistas e de que forma foram conseguidas. Eu falo por mim, tenho títulos na carreira que são brutais, quase impensáveis, e eu sinceramente nunca tinha parado para pensar naquilo que conquistei. Hoje sinto-me muito mais orgulhoso e vaidoso de tudo aquilo que consegui. Eu não tinha essa consciência.
BnR: Taça UEFA, Liga dos Campeões e Taça Intercontinental. Qual te deu mais satisfação ganhar?
JC: Foi a Taça UEFA. Por ser a primeira prova de grande importância pelo clube do coração, pelo jogo em si, o ambiente, o prolongamento… E acho também que foi importante porque foi aquele jogo que nos deu o clique a nível europeu [pausa para Jorge fazer marcação cerrada aos seus três cães] Desculpa, estou só a tentar que eles não fujam para a rua.
BnR: Sem problema. Dizias sobre o clique a nível europeu?
JC: Sim, foi o clique de, para além de campeonatos e tal, nós também podíamos ficar na história a nível internacional.
BnR: Lembro-me perfeitamente de ver o jogo em casa, estava um calorão cá. Imagino lá em Sevilha…
JC: Siiim, estava um inferno. Eu tinha um carro de sete lugares e foi a família toda lá, foi um ambiente diferente. Não é aquela final em que apanhas o avião e tal. Vais de carro, chegas e estão 40 e tal graus, não sei quantas mil pessoas no estádio, outras tantas fora do estádio. A viagem do hotel para o estádio foi fantástica, foi todo um ambiente que marcou.
BnR: O que é que sentes na chegada às Antas após a conquista da Taça UEFA?
JC: Foi brutal. Infelizmente muitos dos nossos adeptos estavam em viagem ainda, portanto não nos puderam receber. Mas foi brutal. Nós sentíamo-nos a última bolacha do pacote [Jorge ri-se com satisfação]. É uma sensação indescritível. E isso existe, a sensação indescritível existe. Não consegues encontrar adjetivos para explicar como te sentias na altura.
VÍDEO: Mourinho deu-se a conhecer ao guiar o @FCPorto à vitória na Taça UEFA em 2003 #UEL https://t.co/es4ra1wR2w pic.twitter.com/OncEkrFQuZ
— UEFA.com em português (@UEFAcom_pt) January 26, 2016
BnR: A decisão foi tua de levantar a Taça UEFA e a Liga dos Campeões em conjunto com o Vítor Baía?
JC: Foi. Mas foi das decisões mais fáceis e mais justas que poderia haver. Posso contar a história desde início: no ano anterior eu saio nos últimos seis meses para o Charlton e o Vítor fica como capitão. Depois, eu volto no início da época seguinte e no estágio de pré-época em St. Etienne…
BnR: O Mourinho decide fazer votação entre ti e o Vítor.
JC: Exato. E o Vítor antes de começar a votação pede a palavra e diz “Eu se for a votar, o meu voto é no Bicho”. Ele depois explicou porquê, e bem. Nós tínhamos muitos jogadores novos, novos de idade e novos no clube, Maniche, Paulo Ferreira, Derlei, Nuno Valente, Tiago. Eram muitos e que iriam ser colocados a tomar uma decisão que iria ser complicada para eles. Na altura, o Vítor, por tudo aquilo que mostrou, por tudo aquilo que era, eu tomei a decisão de partilhar os momentos de sucesso com o meu braço direito e esquerdo.
BnR: Decidiram isso antes do jogo ou foi no momento?
JC: Não houve uma decisão. Eu na altura de levantar a taça chamo o Vítor, até porque esta [a Taça UEFA] não tem as orelhinhas como a Liga dos Campeões, e ele deu-me uma ajuda para levantar esta taça que era difícil [risos].
– O adeus forçado ao clube de coração –
BnR: Há um episódio polémico com a tua substituição ainda antes do intervalo no jogo contra o Vitória FC, em 2001/02. Havia já alguma desconexão entre ti e Otávio Machado antes deste episódio?
JC: Não faço ideia mas, sinceramente, nunca fugi a esse tema mas nesta fase da minha vida posso dar-me ao luxo de falar daquilo que me apetece e a não falar de pessoas que não me apetece.
BnR: Pinto da Costa interveio nesse diferendo ou na tua saída forçada para o Charlton?
JC: Claro que sim. Na altura fui eu que forcei para sair, ia ter o Mundial e precisava de jogar, nem convocado era. Mas claro que o Presidente não queria que eu saísse. Por outro lado, o Presidente não faz as equipas, isso é decisão sempre do treinador. Por isso, o Presidente não me pode garantir que eu vá jogar ou não. Mas foi sensível ao ponto de perceber que eu tinha um Mundial para jogar, precisava de jogar e só o conseguiria fora do Porto.
BnR: Porquê o Charlton, de entre todas as hipóteses que tiveste na altura?
JC: Não sei. Olha, às vezes nós temos decisões estranhas na vida e que não se consegue explicar. Lembro-me perfeitamente que estava tranquilo em casa e tinha vários convites desde Itália, França… E ligou-me o Amadeu Paixão, que eu não conhecia pessoalmente, mas tínhamos amigos em comum e não sei se foi pela forma dele falar tão honesta, tão simples, de me apresentar uma solução, que achei que era a pessoa ideal para me ajudar. Foi uma decisão um bocadinho tomada no impulso mas que em boa hora a tomei.
Jorge Costa.
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— Forgotten Premier League Footballers (@ForgottenPL) June 11, 2020
BnR: O que é que José Mourinho disse para te convencer a regressar ao FC Porto?
JC: Nós já tínhamos uma relação mais próxima porque ele tinha sido adjunto do Bobby Robson. Entre muitas coisas que falámos, eu disse-lhe que voltar ao Porto não estava em causa, financeiramente perdia dinheiro, e perdi, e nem vale a pena estar a falar do que eu ganhei depois em termos desportivos porque não saberia se isso ia acontecer ou não. Eu queria era voltar a casa e a única coisa que lhe disse foi “Amanhã se eu tiver que não jogar, não jogo, mas se eu tiver que jogar, jogo. Por merecer ou por não merecer, não por questões paralelas”. E ele deu-me a garantia que isso com ele jamais aconteceria.
BnR: O teu pai descreveu-te como um “líder com coração de manteiga”. É importante este equilíbrio num líder?
JC: É. Mas isso não convém que se saiba muito [volto a ouvir a gargalhada caraterística do “Bicho”].
BnR: Ehehe. É aquele segredo mal guardado…
JC: Há claramente dois “Jorge Costas”. Há aquele dentro do campo, no treino e no jogo, que é intratável. E depois a pessoa “Jorge Costa”, que é diferente.
– O melhor amigo Sérgio Conceição –
BnR: Na final da Taça de Portugal em 2003/04 és expulso no seguimento de uma falta dura sobre o Nuno Gomes, teu companheiro de seleção e amigo. Vê-se que é um impulso do momento, o jogo estava a ser muito quente, e depois da expulsão o comentador diz que foste pedir desculpa ao Nuno. O que acontece dentro de campo fica dentro de campo?
JC: Sim. E o melhor exemplo se calhar é esse mesmo. O Nuno Gomes é meu amigo pessoal, conhecemo-nos desde os 15/16 anos. O João [Vieira] Pinto é meu amigo posso dizer desde infância, o Rui Costa é meu amigo. Estou a falar nestes porque foram jogadores dos clubes rivais, mas são amigos mesmos, não são amigos de circunstância. Felizmente eu tive esse cuidado e eles também de perceber que trabalho é trabalho e conhaque é conhaque. Eu muitas vezes dizia “Nem que fosse o meu pai”, com todo o respeito e carinho que tenho pelo meu pai como é evidente, era a minha função, era o meu trabalho e a minha forma de ser.
BnR: Achas que se os adeptos percebessem isso melhor, não haveria tantos comportamentos extremistas, que extrapolam a paixão associada ao futebol?
JC: Não levando toda a gente por igual mas os adeptos têm comportamentos bem piores do que os jogadores. Os jogadores são “obrigados” a fazê-lo porque são obrigados a defender o clube e a dar o melhor. Infelizmente eu percebo porque eu também sou adepto e percebo estas paixões. Mas acho que é importante termos um discurso diferente e pôr um travão em alguns adeptos porque não sei onde é que isto irá parar se continuam com alguns tipos de comportamento infelizes que temos visto.
BnR: O Nuno Gomes há uns tempos falou disso, a recordar uma expulsão do Bruno Alves por causa de um desentendimento com ele. O Nuno diz que ele e o Bruno eram amigos e que aquilo ficou dentro de campo. Aconteceu, é futebol, bola para a frente. Mas os adeptos se calhar não esquecem esse lance.
JC: E nem vamos estar aqui a falar de casos mas isso acontece até entre jogadores dos próprios clubes, que são amigos de casa, e também naqueles jogos de solteiros contra casados em que as pessoas são amigas. As pessoas competitivas são assim. Agora se me perguntas “Está correto?”, eu acho que os jogadores deviam ter o cuidado de dar o exemplo. Mas é impossível tu no meio daquele stress e daquela adrenalina toda teres a capacidade de pensar. Tu ages, tomas decisões sob um stress brutal. Ninguém nessas circunstâncias vai conseguir pensar nas pessoas que estão a ver antes de agir.
BnR: Fala-se muito de que quando o Benfica e o Sporting vinham jogar às Antas encontravam ambiente muito hostil. O Porto também encontrava esse ambiente quando ia a Lisboa?
JC: Normal. Hostil tipo o quê, autocarro a chegar no meio dos adeptos do adversário e assim?
BnR: Sim, desse género.
JC: Eu até gostava de chegar à Luz e a Alvalade, dava-me mais “pica” para o jogo, mais motivação. Nunca vi isso como um ambiente de guerra e o futebol é isto mesmo, é paixão. A paixão, não só no futebol, faz-nos ter atos diferentes e há que perceber isso. Infelizmente, hoje em dia confunde-se muito o que é ser apaixonado por um clube.
BnR: Qual a influência que Sérgio Conceição teve na tua ida para o Standard Liege?
JC: Total. Foi o grande responsável porque me ligava diariamente. Eu estava numa altura em que não jogava no Porto, com o Co Adriaanse, e o Sérgio pressionava-me diariamente, ele e o D’ Onofrio, para mudar de ares. E lá me convenceu.
Sérgio Conceição ultrapassou Fernando Santos e passou a ser o 4.º treinador com + jogos pelo FC Porto (157)
Treinadores com + jogos pelo FC Porto:
321 José Maria Pedroto🔝
254 Artur Jorge
187 Jesualdo Ferreira
157 SÉRGIO CONCEIÇÃO⬆
156 Fernando Santos pic.twitter.com/afpOaPxtbl— playmakerstats (@playmaker_PT) June 17, 2020
BnR: Ainda falas com ele hoje em dia? Têm boa relação?
JC: Temos. O Sérgio é, provavelmente, o meu melhor amigo do futebol e temos uma relação excelente.
BnR: Como é que ele era enquanto jogador no balneário?
JC: Eu já disse isso várias vezes e não sei se ele vai gostar. O Sérgio é das pessoas com melhor coração e tem um feitio difícil. Mas o Sérgio tem um feitio difícil por isso mesmo e por isso é que eu gosto tanto dele. Ele é um bocadinho como eu, é um animal competitivo, nem no teste do ioiô quer perder. O Sérgio não quer perder para ninguém, talvez com os filhos, os mais pequeninos, mas não muito contente. Com os mais velhos seguramente que ele já não perde. E isso às vezes leva-o a ter atitudes ou reações que as pessoas podem condenar ou não gostar.
BnR: Como tens visto o trabalho dele esta época?
JC: Como as outras. De grande valia e atrevo-me a dizer: eu acho que se o Porto sobrevive, quando digo sobrevive quero dizer está no topo a lutar por tudo, em grande parte o deve a ele.
BnR: Na tua opinião, o que explica a forma recente do Porto?
JC: É uma falsa questão, na minha opinião. O pior jogo que o Porto fez desde a retoma do campeonato foi o jogo que ganhou, contra o Marítimo. De resto, acho que é claramente uma falta de eficácia gritante porque o Porto ganhou o jogo que jogou menos bem e perdeu e empatou dois jogos que merecia ter ganho.
BnR: Com o Aves então…
JC: Sim, mas mesmo com o Famalicão, que é uma equipa diferente, o Porto não ganha por culpa própria, por ineficácia.
BnR: Consegues ver-te no futuro no lugar onde ele está neste momento? Não digo “tirar-lhe” o lugar, mas se no futuro a oportunidade surgir.
JC: Acho difícil. Mas mesmo que achasse possível, jamais o diria. Por muito diplomática que seja a minha resposta, iria ferir o Sérgio, portanto eu jamais o iria fazer.
BnR: Foi mais difícil a saída forçada com Otávio Machado ou a franqueza de Co Adriaanse quando te diz que tem quatro jogadores melhores que tu e por isso não havia lugar para ti na equipa?
JC: A saída para o Charlton.
– Pedido de desculpas pelo Mundial 2002 –
BnR: No jogo contra a Inglaterra no Euro 2000, sofremos dois golos cedo. Demorámos a acertar as marcações porque houve alguma surpresa da parte deles em relação ao que Portugal esperava?
JC: Deixa-me só acrescentar, e eu sou suspeito, éramos das melhores seleções numa altura em que as outras seleções eram muito boas. A seleção francesa então era de sonho. Relativamente ao jogo com a Inglaterra, era o primeiro jogo no Campeonato da Europa, por isso entrámos assim um bocadinho… e acabamos por sofrer dois golos. Mas tivemos a capacidade e o talento coletivo e individual para dar a volta. Essa seleção para além de um coletivo fortíssimo, um espírito de grupo do melhor que podia haver, tinha individualidades que na dificuldade vinham ao de cima e resolviam jogos.
BnR: Qual era o estado de espírito ao intervalo?
JC: Sentíamos que era possível. Nós tivemos sempre essa confiança, mesmo com França, que era a melhor equipa do mundo na altura, achávamos que com a nossa competência, com o nosso trabalho, com uma ponta de sorte, poderíamos ter chegado à final. Infelizmente não conseguimos mas estivemos sempre na luta até ao fim.
THAT #Portugal 🇵🇹 team at the #Euro2000 🇧🇪🇳🇱!
Up: Vitor Baia 🧤, Fernando Couto, Dimas, Jorge Costa, Abel Xavier & Rui Costa
Down: Nuno Gomes, Paulo Bento, Jose Vidigal, João Pinto & Luis Figo pic.twitter.com/KEL6x9lKv2— World Cup Fever ⚽ (@Trivia_WorldCup) November 26, 2019
BnR: Como é que era o ambiente nesta seleção?
JC: Eu comparo muito esta seleção, apesar de não termos ganho, ao “meu” Porto, nomeadamente o de 2003/04. Tínhamos essa confiança, nós sabendo que… repara, a seleção de França, se eu te começar a dizer um a um, são todos jogadores de topo a nível mundial. E sabíamos que era difícil, mas nós acreditávamos que nos podíamos bater com qualquer seleção, como acabámos por nos bater com França, onde acabámos por perder num golo de ouro.
BnR: Sentes que à seleção do Euro 2000 apenas faltou um bocadinho de sorte? Porque tinha tudo.
JC: Sim, faltou-nos sorte, faltou-nos as outras equipas não serem tão fortes. Eu orgulho-me muito e fiquei muito contente quando Portugal foi campeão da Europa, porque achava que era quase uma utopia um país tão pequenino como nós consegui-lo, apesar de termos o melhor jogador do mundo de futebol, de futsal e de futebol de praia. Temos os melhores do mundo mas depois temos um grupo mais restrito. Mete-te no papel do selecionador de França e faz-me uma lista de 23 jogadores. É dificílimo. Enquanto que Portugal não é assim tão complicado, deixas um ou outro de fora que pode dar discussão, em França deixas 20 ou 30, no Brasil deixas 100. Por isso nós portugueses só temos que estar orgulhosos, eu daquilo que fiz e também daquilo que vejo os atuais fazerem. A seleção com o Fernando Santos foi campeã da Europa e ganhou a Liga das Nações, é um feito brutal.
BnR: Como é que era o Humberto Coelho como selecionador nacional?
JC: Era alguém que nos punha sempre em sentido, no sentido de nós estarmos sempre com receio de não sermos escolhidos. Para o Humberto Coelho não havia indiscutíveis e acho que isso foi o grande segredo dele: ter-nos sempre no estado de alerta máximo porque se facilitássemos não jogávamos. Entre tudo o resto que ele tem de bom, como é evidente, fez um trabalho fantástico.
BnR: Como é que explicas o nosso desempenho no Mundial 2002?
JC: O Mundial 2002 foi uma desilusão para mim, começando no estágio de preparação, depois nas condições que tivemos, num ambiente que nós sentíamos que não era o mais agradável. Foi algo expectável de uma prova que foi mal preparada.
BnR: Sentes que também subestimámos o nosso Grupo?
JC: Sim. Digo isto com todo o respeito e pedindo desculpa a todos os portugueses, porque acho que nós todos temos que pedir desculpa aos portugueses pelo que não fizemos no Mundial 2002. Claramente nós achávamos, com maior ou menor dificuldade, que eram favas contadas. E não.
BnR: Qual a melhor lição que o futebol te ensinou?
JC: Houve tantas… O futebol deu-me tanto, tantas amizades, tanto convívio, ensinou-me a partilha. É difícil numa palavra dizer o que o futebol me ensinou porque eu cresci no futebol. Se calhar, o futebol ensinou-me a ser homem, a ser melhor ser humano.
– Passes curtos –
BnR: Qual é para ti o melhor momento da tua carreira?
JC: Mundial de juniores de 1991.
BnR: Um estádio?
JC: [Jorge ri-se perante a resposta óbvia] Estádio das Antas.
BnR: Qual foi o melhor jogador com quem jogaste?
JC: Não consigo dizer um: Deco, Figo e Rui Costa.
BnR: Um guarda-redes?
JC: Baía.
BnR: Um defesa?
JC: Fernando Couto.
BnR: Um médio?
JC: Rui Costa. E Deco [Jorge desata-se a rir] Rui Costa/Deco.
BnR: Um avançado?
JC: Jardel.
BnR: E o jogador mais difícil de defrontar?
JC: Van Nistelrooy.









