– O melhor amigo Sérgio Conceição –

BnR: Na final da Taça de Portugal em 2003/04 és expulso no seguimento de uma falta dura sobre o Nuno Gomes, teu companheiro de seleção e amigo. Vê-se que é um impulso do momento, o jogo estava a ser muito quente, e depois da expulsão o comentador diz que foste pedir desculpa ao Nuno. O que acontece dentro de campo fica dentro de campo?

JC: Sim. E o melhor exemplo se calhar é esse mesmo. O Nuno Gomes é meu amigo pessoal, conhecemo-nos desde os 15/16 anos. O João [Vieira] Pinto é meu amigo posso dizer desde infância, o Rui Costa é meu amigo. Estou a falar nestes porque foram jogadores dos clubes rivais, mas são amigos mesmos, não são amigos de circunstância. Felizmente eu tive esse cuidado e eles também de perceber que trabalho é trabalho e conhaque é conhaque. Eu muitas vezes dizia “Nem que fosse o meu pai”, com todo o respeito e carinho que tenho pelo meu pai como é evidente, era a minha função, era o meu trabalho e a minha forma de ser.

BnR: Achas que se os adeptos percebessem isso melhor, não haveria tantos comportamentos extremistas, que extrapolam a paixão associada ao futebol?

JC: Não levando toda a gente por igual mas os adeptos têm comportamentos bem piores do que os jogadores. Os jogadores são “obrigados” a fazê-lo porque são obrigados a defender o clube e a dar o melhor. Infelizmente eu percebo porque eu também sou adepto e percebo estas paixões. Mas acho que é importante termos um discurso diferente e pôr um travão em alguns adeptos porque não sei onde é que isto irá parar se continuam com alguns tipos de comportamento infelizes que temos visto.

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BnR: O Nuno Gomes há uns tempos falou disso, a recordar uma expulsão do Bruno Alves por causa de um desentendimento com ele. O Nuno diz que ele e o Bruno eram amigos e que aquilo ficou dentro de campo. Aconteceu, é futebol, bola para a frente. Mas os adeptos se calhar não esquecem esse lance.

JC: E nem vamos estar aqui a falar de casos mas isso acontece até entre jogadores dos próprios clubes, que são amigos de casa, e também naqueles jogos de solteiros contra casados em que as pessoas são amigas. As pessoas competitivas são assim. Agora se me perguntas “Está correto?”, eu acho que os jogadores deviam ter o cuidado de dar o exemplo. Mas é impossível tu no meio daquele stress e daquela adrenalina toda teres a capacidade de pensar. Tu ages, tomas decisões sob um stress brutal. Ninguém nessas circunstâncias vai conseguir pensar nas pessoas que estão a ver antes de agir.

BnR: Fala-se muito de que quando o Benfica e o Sporting vinham jogar às Antas encontravam ambiente muito hostil. O Porto também encontrava esse ambiente quando ia a Lisboa?

JC: Normal. Hostil tipo o quê, autocarro a chegar no meio dos adeptos do adversário e assim?

BnR: Sim, desse género.

JC: Eu até gostava de chegar à Luz e a Alvalade, dava-me mais “pica” para o jogo, mais motivação. Nunca vi isso como um ambiente de guerra e o futebol é isto mesmo, é paixão. A paixão, não só no futebol, faz-nos ter atos diferentes e há que perceber isso. Infelizmente, hoje em dia confunde-se muito o que é ser apaixonado por um clube.

BnR: Qual a influência que Sérgio Conceição teve na tua ida para o Standard Liege?

JC: Total. Foi o grande responsável porque me ligava diariamente. Eu estava numa altura em que não jogava no Porto, com o Co Adriaanse, e o Sérgio pressionava-me diariamente, ele e o D’ Onofrio, para mudar de ares. E lá me convenceu.

BnR: Ainda falas com ele hoje em dia? Têm boa relação?

JC: Temos. O Sérgio é, provavelmente, o meu melhor amigo do futebol e temos uma relação excelente.

BnR: Como é que ele era enquanto jogador no balneário?

JC: Eu já disse isso várias vezes e não sei se ele vai gostar. O Sérgio é das pessoas com melhor coração e tem um feitio difícil. Mas o Sérgio tem um feitio difícil por isso mesmo e por isso é que eu gosto tanto dele. Ele é um bocadinho como eu, é um animal competitivo, nem no teste do ioiô quer perder. O Sérgio não quer perder para ninguém, talvez com os filhos, os mais pequeninos, mas não muito contente. Com os mais velhos seguramente que ele já não perde. E isso às vezes leva-o a ter atitudes ou reações que as pessoas podem condenar ou não gostar.

BnR: Como tens visto o trabalho dele esta época?

JC: Como as outras. De grande valia e atrevo-me a dizer: eu acho que se o Porto sobrevive, quando digo sobrevive quero dizer está no topo a lutar por tudo, em grande parte o deve a ele.

BnR: Na tua opinião, o que explica a forma recente do Porto?

JC: É uma falsa questão, na minha opinião. O pior jogo que o Porto fez desde a retoma do campeonato foi o jogo que ganhou, contra o Marítimo. De resto, acho que é claramente uma falta de eficácia gritante porque o Porto ganhou o jogo que jogou menos bem e perdeu e empatou dois jogos que merecia ter ganho.

BnR: Com o Aves então…

JC: Sim, mas mesmo com o Famalicão, que é uma equipa diferente, o Porto não ganha por culpa própria, por ineficácia.

BnR: Consegues ver-te no futuro no lugar onde ele está neste momento? Não digo “tirar-lhe” o lugar, mas se no futuro a oportunidade surgir.

JC: Acho difícil. Mas mesmo que achasse possível, jamais o diria. Por muito diplomática que seja a minha resposta, iria ferir o Sérgio, portanto eu jamais o iria fazer.

BnR: Foi mais difícil a saída forçada com Otávio Machado ou a franqueza de Co Adriaanse quando te diz que tem quatro jogadores melhores que tu e por isso não havia lugar para ti na equipa?

JC: A saída para o Charlton.