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Em 1995, Iran Costa lançava o famoso single “É o bicho / É o bicho / Vou-te devorar”. Mas antes disso, o verdadeiro “Bicho” já dava cartas no seu FC Porto, clube do qual é adepto desde nascença. Jorge Costa descreve-se como um “animal competitivo” e ganha troféus atrás de troféus no FC Porto, os mais importantes erguidos em conjunto com o amigo Vítor Baía. E por falar em amigos, o melhor que o futebol lhe deu: Sérgio Conceição, de quem diz que tem um ótimo coração mas um feitio difícil. Nesta entrevista de carreira, Jorge Costa conta-nos ainda o que pensa sobre um dia ser treinador do “seu” FC Porto, faz um pedido de desculpas aos portugueses pelo Mundial 2002 e assegura que o se passa dentro de campo fica dentro de campo.

– “É o bicho, é o bicho” –

Bola na Rede [BnR]: Em 1995, Iran Costa lançava o famoso single “É o bicho, é o bicho…

Jorge Costa [JC]: …vou-te devorar.

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BnR: Nem mais. Foi neste ano que Fernando Couto te deu a alcunha de “Bicho”?

JC: Ehehe, não. Já era anterior a isso.

BnR: Qual era a razão da alcunha?

JC: Não era nenhuma em específico. Era mais pelos meus índices competitivos. Eu era um animal competitivo.

BnR: Muitos colegas teus contam que até nos treinos punhas a malta em sentido, para darem sempre o máximo. Esse espírito de exigência foi-te incutido no FC Porto ou é algo que era intrínseco em ti?

JC: Acho que é algo natural. Como é óbvio podes ir melhorando durante a tua vida mas sinceramente acho que é algo que tu tens, nasce contigo. Nasces com uma vontade enorme de vencer ou não gostas de perder e és competitivo. E eu sou competitivo em tudo, não é só no futebol.

BnR: No sentido de líder que mantém a exigência lá em cima, quem é que vês como o teu “herdeiro” no plantel atual do FC Porto?

JC: É difícil não conhecendo a personalidade mas este Porto não tem ninguém que se destaque de uma forma que possamos dizer “Sim senhor, este é um verdadeiro líder”. O Porto tem um capitão, o Danilo, mas não o conheço pessoalmente e assim é difícil dizer.

BnR: Nas tuas palavras, o que é um jogador à Porto?

JC: Isso tem muito a ver com a mística. A mística é algo complicado de explicar mas no fundo é a vontade de ganhar num clube que se sente clube do coração. Muitos não eram portistas de nascença mas quando chegaram rapidamente se adaptaram e incutiram-lhes o que é ser Porto. A mística no fundo é fazer aquilo que é a obrigação dos jogadores: dar o máximo diariamente e fazê-lo por uma causa. Nós sentíamos o clube de uma forma diferente.

BnR: “Quando era pequenito, ia ver os jogos de cachecol e bandeira, com o sonho de ser jogador do FC Porto”. Qual a melhor memória desses tempos em que vias o jogo na bancada?

JC: O jogo que mais me recordo como adepto terá sido o Porto-Barcelona da Taça dos Campeões Europeus [85/86], três golos do Juary e um golo do Archibald. Infelizmente fomos eliminados, tínhamos perdido 2-0 em Barcelona. Chovia torrencialmente nesse dia, é daqueles jogos de criança que eu tenho mais memórias.

BnR: Costa Soares é o teu “pai” do futebol?

JC: Sim. Nós usamos muito essa expressão e eu, felizmente, também tenho alguns jogadores que me chamam pai. Mas por ter sido o primeiro, por ter sido aquele que me fez ver o futebol de uma forma diferente, bem mais séria do que aquilo que eu estava habituado. Ensinou-me muita coisa. Foi quem me ensinou a caminhar no futebol. Por isso, pode-se considerar o meu pai no futebol.

BnR: Para um menino que “cresceu” no Campo da Constituição, qual é a sensação de jogar pela primeira vez no Estádio das Antas?

JC: Foi tudo um sonho que se foi tornando realidade. Eu comecei relativamente tarde a jogar futebol federado e passado um ano estava no Porto. Lembro-me perfeitamente da primeira vez que piso o campo de treinos. Mais do que o Estádio das Antas, o campo de treino do Estádio das Antas. E relva, que eu no Foz jogava no pelado [Jorge ri-se com gosto].

BnR: À antiga…

JC: É. Pisar relva pela primeira vez foi qualquer coisa… Na final do campeonato de juniores jogámos no Estádio das Antas e foi um sonho tornado realidade, jogar num palco em que eu estive anos e anos do lado de cá da rede a apreciar os meus ídolos.

BnR: Tiveste algumas lesões graves, das quais recuperaste sempre antes do tempo previsto. Como é que se recupera mentalmente destas voltas que o destino nos dá?

JC: Mentalmente é uma questão, fisicamente, sinceramente, nem eu sei. Eu tive três roturas do ligamento cruzado anterior e todas elas foram recuperadas num espaço de três meses, o que é anormal. Animicamente foi difícil e eu tenho na minha memória a terceira lesão, estávamos em pré-época na Suécia. Foi de tal forma marcante que eu equacionei não ser operado e não voltar. Custou-me muito as duas primeiras e fui-me um bocadinho abaixo. Felizmente o Rodolfo Moura, na altura o fisioterapeuta do FC Porto, deu-me a força necessária e o apoio para não desistir. E em boa hora o fiz, porque depois disso ainda tive grandes sucessos.

BnR: Quem é que criou o “covil dos dragões” no autocarro do Porto?

JC: [Jorge dá uma gargalhada] Não sei se fui eu por acaso. Foi a malta com mais anos de clube, fomo-nos juntando lá atrás e criando as nossas rotinas, os nossos hábitos. Era assim uma coisa mais reservada, para entrares tinhas que merecer. Agora, quem criou, como o autocarro era o novo, provavelmente devo ter sido eu.

BnR: O que é que se fazia no covil? Era um espaço exclusivo fechado com cortinas…

JC: Se estavam fechadas era por isso mesmo, para ninguém saber [Sai mais uma gargalhada].

BnR: Ehehe.

JC: Não, jogávamos cartas e tal. Era um sítio mais privado, da malta mais experiente.

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