tinta azul em fundo brando pedro nuno silva

O Porto de 2014/2015 não é o melhor Porto de sempre em termos de qualidade individual mas está longe de ser o pior. Há jogadores com muita qualidade, que podem fazer a diferença numa jogada de génio. Mas a equipa, colectivamente, poderá fazer a diferença? Parece que não, em situações de aperto não tem conseguido.

Este plantel tem jogadores emprestados e jogadores que só chegaram este ano à Invicta – são, portanto, novos nestas andanças. Não questiono o talento da maior parte deles mas questiono a sua responsabilidade enquanto jogadores ou pelo menos a vontade quase obsessiva pela vitória. Compreendo que queiram mostrar-se na Europa (deve ser mesmo o objectivo máximo da maior parte) e que queiram o melhor para os azuis e brancos, mas faz falta alguém! Na equipa portista noto que não há grandes referências – ninguém parece capaz de dar um berro e deixar os colegas empolgados, raivosos, com vontade de entrar na segunda parte e deixar a pele em campo. É isso que, com maior ou menor afinação táctica, faz falta a estes jogadores – sentir o clube! E fazê-los sentir o clube não é torná-los portistas (pelo menos, os jogadores recentes) mas fazê-los sentir a responsabilidade de envergar aquela camisola, fazê-los sofrer com os jogos e fazê-los ganhar consciência de que entram em campo por milhões de pessoas que querem que eles ganhem.

Qualquer jogador quer a vitória. As peladinhas entre amigos discutem-se sempre como se de uma final se tratasse – a vontade de ganhar existe na nossa condição de humanos. Mas continua a falta qualquer coisa – a tal responsabilidade, a tal voz de comando que se faça ouvir nos momentos em que a bola circula irremediavelmente entre defesa e meio-campo, com a baliza adversária lá longe, completamente livre de perigo. O último jogador que trouxe esse sentimento foi Lucho Gonzalez. Não era portista desde pequenino mas percebeu o que era jogar neste clube, sentiu o que era o Porto para os portistas e para os seus dirigentes e foi, por isso, um pilar de estabilidade no nosso plantel.

Nem todos dão berros no balneário como o Jorge Costa (e que saudades deve ter Pinto da Costa desses berros), mas a postura com que se encara um clube e um jogo é exemplo para os mais novos. Helton e Quaresma sabem o que é jogar no Porto mas um é guarda-redes, longe do jogo atacante (Co Adriaanse lá tinha os seus motivos quando dizia que um guardião não devia ser capitão), e esteve afastado do relvado durante meses, e o outro não é um pilar de estabilidade emocional.

Houve anos em que vi o Porto jogar um futebol regular sem grande intensidade mas com responsabilidade – ganhava os seus jogos e ia aproveitando as escorregadelas dos adversários. A irregularidade é típica da falta de maturidade e este plantel é imaturo e grande parte dos seus jogadores está a formar-se aqui. Para crescer tem de passar-se por esta fase de confusão, de erro, mas a falta de maturidade na equipa – principalmente no onze – é notória.

No último jogo da Liga, frente ao Marítimo, não vi ninguém comer a relva (que saudades de Paulinho Santos). Vi um Porto à procura da vitória e com claras oportunidades de golo mas não o vi a sufocar como fez vezes sem conta em anos anteriores. Não criamos medo no adversário através da nossa raça, não jogamos à Porto. Acredito que um dia vão somar ao seu talento a obsessão pela vitória e a força de quem não se verga, mas até lá ainda temos “muita sopa para comer”. O único senão é que no Porto não há tempo a perder, a rotatividade é alta, a exigência é máxima e a paciência dos adeptos é pequena. Espero, então, que a raça de Braga não seja um lusco-fusco e que se torne rotina no Dragão.

Foto de capa: Página de Facebook do FC Porto

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