O FC Porto perdeu na deslocação ao Estádio da Luz. Uma derrota na casa de um rival direto tem tanto de insuportável para um adepto como de normal. Ou assim seria não fosse já um hábito os Dragões saírem, invariavelmente, do lado vermelho da Segunda Circular com resultados positivos. Se os adeptos estão bem ou mal-habituados dependerá sempre do ponto de vista.

Foi um jogo quezilento, quase sempre mal jogado e no qual os duelos físicos se sobrepuseram ao recorte técnico. A bola passou mais tempo no ar do que no chão e ainda deve estar dorida de tão maltratada que foi. Ainda assim, pese embora uma grande penalidade que, na minha opinião, ficou por assinalar a favor dos portistas (falta de Rúben Dias sobre Marega), o Benfica foi superior e acaba por ser um justo vencedor da partida. Muito mais por demérito do FC Porto do que propriamente por uma exibição de gala encarnada.

No Reino do Dragão importa refletir e perceber o que correu mal. Os problemas do FC Porto vão muito para além do jogo de Domingo. Exceção feita à jornada inaugural do campeonato (vitória sobre o Chaves por 5-0), os comandados de Sérgio Conceição têm somado exibições não mais dos que sofríveis.

A equipa que venceu, na anterior temporada, o campeonato nacional, não difere muito, é certo, da que tem alinhado no começo da presente época. Isto em termos dos nomes que figuram atrás das camisolas porque no que ao jogo jogado as semelhanças são impercetíveis. Herrera é uma sombra de si próprio, Marega (como de certa forma era expectável) já não marca diferenças, Maxi confirma a falta de fôlego para estas andanças, Brahimi, embora inconformado, não anda inspirado e a lista poderia continuar por mais algumas linhas. Coletivamente, o FC Porto de Sérgio Conceição nunca foi um hino ao futebol (pelo menos na dimensão mais técnica desta expressão) e, verdade seja dita, o treinador nunca quis que assim fosse.

As despesas do futebol mais fantasista e rendilhado eram entregues exclusivamente a Brahimi e o sucesso da equipa estava alicerçado numa potência física invejável, no ganho invariável dos tais duelos físicos, numa rápida, agressiva e eficiente reação à perda de bola e numa incessante e eficaz procura da profundidade. Só assim se explica que um jogador com clamorosas deficiências técnicas como Marega tenha assumido, por via dos seus notáveis atributos físicos, um papel preponderante no FC Porto campeão nacional. Ora, muito dificilmente se repetiria tal cenário. Os adversários já conhecem este futebol, já conhecem Marega e os seus movimentos e vão neutralizando as suas investidas. O maliano não é dotado de inteligência tática ou técnica para debelar estas dificuldades e a tendência será sempre para se reaproximar do jogador mais desastrado e trapalhão (nunca deixou de o ser) que chegou ao FC Porto há uns anos.

Tem sido escassa a utilização de Óliver Torres na presente temporada
Fonte: FC Porto

Assim, começa a parecer evidente que algo tem que mudar. Sou um grande fã de Sérgio Conceição e um acérrimo apoiante da sua chegada ao FC Porto. Não me considero um tal de “pseudo” adepto e julgo ter alguma legitimidade para criticar. Crítica essa sempre construtiva e baseada naquilo que vou assistindo dentro de campo e enviesada, provavelmente, pelo gosto por um estilo de futebol diferente. Começa a causar-me algum desconforto a escassa utilização de dois jogadores.

Esta é uma crítica e súplica que fazia quando a equipa ganhava e, portanto, parece me legítimo que a enuncie num momento de perda exibicional, já que a nível de resultados, a realidade é substancialmente melhor do que o que a imprensa quer fazer parecer. Falo de Óliver Torres e Jesús Corona. O caso do espanhol é aquele que me causa mais estranheza. Uma equipa como o FC Porto não pode dar-se ao luxo de desperdiçar tanta qualidade. Óliver perdeu (na minha opinião injustamente) o lugar na equipa depois da derrota com o Besiktas no início da última época e não mais o recuperou. Eu não vejo, é certo, o jogador a treinar, mas a qualidade que evidencia de cada vez que pisa o relvado de um campo de futebol torna incompreensível que seja constantemente preterido do onze. Julgo que os 20 minutos a que teve direito na receção ao Galatasaray foram suficientemente esclarecedores e elucidativos. E poderia ter sido uma peça fundamental no Domingo para colocar alguma serenidade no jogo e permitir ao FC Porto uma melhor gestão da posse de bola.

Em vez disso, a opção recaiu mais uma vez em Sérgio Oliveira e, a páginas tantas, o FC Porto dispunha-se no relvado da Luz com um meio campo composto por Herrera, Sérgio e Danilo e demonstrava gritantes dificuldades em tirar a bola da pressão e suster a agressividade do meio campo do Benfica. Ainda em relação a Óliver, parece-me importante contrariar o argumento, tantas vezes utilizado para justificar a sua falta de utilização, que se prende com a suposta dificuldade do espanhol no momento defensivo. É falso. Óliver é talentoso, mas operário, e compensa a falta de robustez física com uma inteligente ocupação dos espaços e com uma capacidade de desarme invulgar para um jogador tão tecnicista. E depois, é um dos melhores jogadores do nosso campeonato a esconder e transmitir a bola. Um prodígio.

Corona realizou uma exibição sublime frente ao Galatasaray
Fonte: FC Porto

O segundo jogador a que me referi no presente artigo, Jesús Corona, é outro estranho caso. É, para mim, o jogador mais desconcertante do futebol português e, não fosse a sua inconsistência exibicional, estou em crer que a sua escassa utilização não seria sequer um tema. Acredito, até, que já nem andaria por Portugal mas sim pelos mais importantes campeonatos da Europa. No entanto, e ainda assim, acredito que deve ser uma aposta mais constante e que essa inconsistência só deixará de ser uma realidade quando lhe for dada a confiança necessária e o espaço para errar. Se o jogador sabe que se não estiver ao seu melhor num jogo já não vai “calçar” no jogo seguinte, a probabilidade e o medo de errar, aumentarão exponencialmente.

A isto acresce que Tecatito protagonizou uma exibição de encher o olho no jogo da Liga dos Campeões (frente ao Galatasaray) e que merecia uma oportunidade no onze que iniciou o jogo no Estádio da Luz. No entanto, foi apenas lançado no fim do jogo, numa posição que não é a sua e num contexto tremendamente adverso.
Em suma, faltou calma, qualidade de passe, fantasia e inspiração ao FC Porto no clássico e acredito que Óliver e Corona poderiam ter sido a solução. Sérgio Conceição é um treinador competente e saberá, melhor do que ninguém, aquilo que é melhor para a equipa, no entanto, se me é permitido deixar uma humilde sugestão, talvez seja a hora de trocar, em certas ocasiões, o bombo pelo violino para melhorar a harmonia da orquestra. Em castelhano (ou hispânico) talvez nos tivéssemos entendido.

Foto de Capa: FC Porto

Artigo revisto por: Jorge Neves

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Fervoroso adepto do futebol que é, desde o berço, a sua grande paixão. Seja no ecrã de um computador a jogar Football Manager, num sintético a jogar com amigos ou, outrora, como praticante federado ou nos fins-de-semana passados no sofá a ver a Sporttv, anda sempre de braço dado com o desporto rei. Adepto e sócio do FC Porto e presença assídua no Estádio do Dragão. Lá fora sofre, desde tenra idade, pelo FC Barcelona. Guarda, ainda, um carinho muito especial pela Académica de Coimbra, clube do seu pai e da sua terra natal. De entre outros gostos destacam-se o fantástico campeonato norte-americano de basquetebol (NBA) e o circuito mundial de ténis, desporto do qual chegou, também, a ser praticante.                                                                                                                                                 O Bernardo escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.