Pronúncia do Norte

A última partida para o campeonato, em Arouca, marcou o previsível regresso do FC Porto às vitórias e a estreia a titular de uma das mais promissoras contratações do último defeso: Héctor Herrera, médio de 23 anos, ex-Pachuca. Depois de alguns jogos a rodar na equipa B e de parcos minutos de utilização nas jornadas inaugurais do campeonato (em Setúbal) e da fase de grupos da Liga dos Campeões (em Viena), o internacional mexicano entrou na equipa para o lugar de Steven Defour, assinando uma exibição muito positiva.

Desde o início da época, salvo uma ou outra excepção, o trio do meio-campo tem sido composto por Fernando, Lucho e Defour. Os dois primeiros são dos melhores médios que vi passar pelo FC Porto e pela nossa Liga. Ambos levam mais de seis anos de casa e são referências incontornáveis na equipa. Já o belga, na sua terceira época em Portugal, acabou por herdar, sem surpresa, o lugar que outrora era ocupado por João Moutinho. Uma herança pesadíssima, portanto. Substituir um pêndulo como o português não é tarefa fácil.

Hector Herrera / Fonte: O Jogo
Hector Herrera / Fonte: O Jogo

Nos últimos dois anos, Defour provou ter um grande compromisso com o grupo. Quase sempre na sombra dos titulares, foi fazendo uso da sua polivalência (jogou como trinco, como box-to-box e como extremo) para demostrar o seu valor e revelou-se sempre um jogador muito útil. O facto de ter conquistado o seu espaço na poderosa selecção belga reforçou o seu estatuto. Com efeito, era natural que, à partida para 2013/14, fosse ele a assumir o lugar deixado em aberto no miolo. Porém, a prestação de Herrera na última jornada veio acicatar sobremaneira a disputa pelo lugar. Defour tem, agora, de novo, um concorrente de peso.

No meu último artigo, referi a urgência que havia em voltar a inverter o triângulo do meio-campo, regressando ao esquema habitual, com um médio defensivo e dois “oitos”. Contra as minhas expectativas, Paulo Fonseca acabou por ceder às necessidades do colectivo e abdicou, finalmente, da sua ideia inicial de jogar com um “duplo pivot”: voltou a permitir ao “Polvo” estender, sozinho e confortável, os seus tentáculos à frente dos centrais e devolveu a Lucho um precioso parceiro na construção do jogo ofensivo.

Como já percebemos, Herrera jogou numa posição ligeiramente diferente da que Defour tem ocupado desde o início da temporada. É, por isso, difícil confrontar as respectivas prestações: nunca saberemos o que Defour teria crescido no último jogo se tivesse actuado mais adiantado, nem qual seria a resposta de Herrera se confinado a um menor raio de acção na rectaguarda do meio-campo. De todo em todo, é tentador comparar o que um e outro podem oferecer à equipa.

Defour é um futebolista inteligente, que ocupa muito bem os espaços e gere muito bem os ritmos. É, fundamentalmente, um jogador de equilíbrios. Esse é o seu grande trunfo. Com algum tempo e trabalho, Herrera – tão intenso e agressivo quanto Defour – dá toda a ideia de vir a conseguir dar esses equilíbrios ao conjunto portista, assim que se entrosar com os colegas, até porque apresenta outra disponibilidade física: é mais veloz, mais poderoso no choque e, ao contrário do flamengo, capaz de se superiorizar no jogo aéreo.

Steven Defour / Fonte: A Bola
Steven Defour / Fonte: A Bola

A grande diferença entre os dois reside, essencialmente, na capacidade de desequilibrar. Não sei se tem a ver com a “personalidade futebolística” de um e de outro ou com o papel distinto que desempenharam em campo até agora, mas o mexicano parece ser bastante mais afoito e vertical nas suas acções ofensivas. Com a bola no pé, procura quase sempre encontrar linhas de passe à frente (ao contrário de Defour, que contemporiza e não se aventura), tem mais facilidade em progredir com o esférico controlado e receia menos o um para um. Sem bola, desmarca-se para zonas mais adiantadas do relvado (e não para o lado ou para trás, como Defour) e procura movimentos de ruptura. Face a estes comportamentos dentro de campo, podemos concluir que Herrera empresta muito mais profundidade à equipa: com e sem bola, tem a constante preocupação de levar a equipa para a frente e encontrar brechas entre as linhas defensivas opostas. Resumindo, Herrera tem muito mais poder para desequilibrar porque arrisca mais. E era exactamente isto que o meio-campo azul e branco precisava!

Quintero e Josué, médios mais criativos, são as outras alternativas para jogar ao lado de Lucho. Embora sejam originários de zonas centrais do terreno, a escassez de extremos de classe indiscutível no plantel tem-nos empurrado frequentemente para as alas. Dependendo da estratégia de jogo e do adversário, podem, ainda assim, vir a ser decisivos jogando no meio. E terão, por certo, oportunidades para isso. Na verdade, as parelhas que se podem construir à frente de Fernando – entre Lucho, Herrera, Defour, Quintero e Josué – são imensas e quase todas elas podem resultar. Todavia, da mesma forma que Defour tem algumas limitações a atacar, Josué e, principalmente, Quintero têm limitações a defender. Herrera parece ser o virtuoso meio-termo entre todos.

Lucho, como capitão, jogará a maior parte dos jogos. Só que os anos passam e as pernas já lhe vão pesando, pelo que se impõe uma gestão de esforço que abrirá espaço aos outros. Para lhe fazer companhia, o ideal será, por norma, ter um jogador que consiga simultaneamente equilibrar e desequilibrar, defender e atacar: o verdadeiro box-to-box. Nesse sentido, depois de o ter visto em acção, não tenho grandes dúvidas de que Herrera é esse jogador e de que o mexicano virá a assumir grande importância na equipa a curto prazo. Correndo o risco de estar a fazer juízos precipitados, parece-me claro que, em Arouca, El Zorro se revelou o parceiro ideal para El Comandante, apresentando-se como a solução para uma boa parte dos problemas do actual FC Porto.

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