Fruto da despromoção à Liga Europa, o FC Porto recebeu o Eintracht Frankfurt, equipa alemã, na primeira mão dos dezasseis-avos de final da competição. Paulo Fonseca apenas mexeu no eixo central da defesa, devido à impossibilidade de Abdoulaye alinhar no conjunto azul-e-branco, entrando Maicon para o seu lugar.

O FC Porto entrou no jogo com uma atitude semelhante à testemunhada em Barcelos, com um jogo mais rápido e fluido e pressionando mais à frente do que em momentos anteriores da época, aproveitando ainda o facto de o Frankfurt se ter revelado uma equipa a jogar em todo o campo, abrindo espaços na sua defensiva (muitas foram as vezes em que Alex Sandro e Josué dispuseram de imensos metros à sua frente para explorar).

Em oito minutos – dos 8’ aos 16’ – o FC Porto ameaçou e poderia ter concretizado, se o nível de decisão e o poder de concretização tivessem sido outros – primeiro uma transição comandada por Herrera, com a contribuição de Fernando e com Jackson, dentro da área, a atrapalhar-se (8’); de seguida, uma bomba de Josué, junto à meia-lua mas sobre a barra (10’); depois, de novo o ‘8’ do FC Porto a caminhar com o esférico e a desferir um remate frouxo, sem perigo, quando dispunha de melhor opções (13’); a seguir, um cruzamento de Alex Sandro com Jackson a emendar ao primeiro poste e com Herrera a surgir ao segundo, atrapalhando o defesa contrário e gerando o primeiro ‘bruá’ nas bancadas (14’); seguidamente, um remate de Quaresma no lado esquerdo do ataque, para fora (15’); por fim, Jackson, com um belo remate à meia-volta defendido pelo keeper alemão, depois de uma iniciativa de Danilo (16’).

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O Frankfurt, dispondo-se num 4-2-3-1, com o seu jogo sempre à procura de Joselu, subia as suas linhas mas raramente apresentava capacidade para gerir a posse de bola de forma consolidada. Pelo contrário, perdendo o esférico, era uma equipa que revelava dificuldades na transição defensiva, possibilitando ao Dragão sair em contra-ataque ou transição rápida. Neste capítulo, Josué assumiu, por inúmeras ocasiões, o domínio das operações, ainda que nem sempre de forma tão rápida e esclarecida quanto seria desejável. Era nestas bases que o jogo se desenrolava, com ascendente do FC Porto (score de 12-2 em ataques, aos 22’) mas sem a materialização em golos. Já depois de alguma réplica da equipa alemã (situações de relativo perigo aos 25’ e 30’) e de um excelente lance de Jackson culminado num remate que, por centímetros, não redundou em golo, haveria de ser Quaresma – talvez no momento menos bom do FC Porto na primeira parte – a pegar na sua varinha mágica ainda repleta de pó e a assinar a obra-prima da noite num remate fantástico desde o lado esquerdo da área, com a bola a descrever um arco perfeito e a beijar as redes alemãs (44’).

Com o apito para o intervalo, sobrava a sensação de justiça que o golo do ‘Harry Potter’ consigo tinha trazido. Para além da diferença abissal em termos de remates (11-3 a favor do Dragão), o FC Porto afirmava-se como a equipa mais capaz dentro do terreno do jogo, ainda que nem sempre decidindo da melhor forma – e só isso justificava a vantagem mínima no marcador.

O reatar do jogo trouxe um Frankfurt mais atrevido e a colocar mais unidades na frente. Por entre livres e cantos ganhos, começou a surgir Joselu como o elemento mais perigoso (boa defesa de Helton, aos 50’, após um cabeceamento do espanhol). O meio-campo do FC Porto parecia um pouco amorfo e sem nervo na recuperação de bola, sendo que Alex Sandro e Danilo não se afirmavam tão aventureiros na saída para o ataque. O tónico para uma alteração de postura foi uma jogada de envolvimento entre Herrera, Fernando, Varela e Jackson, com o colombiano a desperdiçar à boca da baliza, ao minuto 59.

A partir daqui, vimos um FC Porto mais seguro de si, a assumir o jogo e a tentar construir mas sempre de forma lenta e previsível, sem rasgo e sem, inerentemente, criar perigo. Percebendo isso, Paulo Fonseca trocou o desgastado (e nem sempre bem-sucedido) Josué e lançou Carlos Eduardo, ao minuto 67. O ex-estorilista entrou para poder assistir de perto ao dilatar da vantagem portista: livre do lado direito batido por Quaresma, Jackson a emendar de cabeça, Maicon a assistir e Varela, à boca da baliza, a não perdoar e a fazer o 2-0.

Ricardo Quaresma. Por um momento resgatou a sua versão Harry Potter  Fonte: Zero Zero
Ricardo Quaresma. Por um momento resgatou a sua versão Harry Potter
Fonte: Zero Zero

Numa altura em que se julgava ser mais natural surgir o 3-0 do que o 2-1, acabou por ser o Frankfurt a diminuir, por intermédio de um remate cruzado, de ressaca, à entrada da área de Joselu (73’). A partir deste momento, o jogo virou! O FC Porto não mais se encontrou, não demonstrando capacidade para organizar jogo e pressionar o adversário, ou até para fazer uma gestão da bola mais controlada; pelo contrário, o Frankfurt começou a acreditar que seria possível chegar ao empate, muito fruto da forma como o Dragão se demonstrava tão adormecido e passivo, defendendo de forma deficiente. Em suma, um Dragão sem chama, tantas vezes já visto e revisto esta época.

A equipa alemã, mesmo não demonstrando argumentos que pudessem justificar um FC Porto tão incapaz de comandar o jogo, chegou mesmo ao 2-2, fruto de uma má abordagem defensiva por parte de Alex Sandro, com o brasileiro a assinar um auto-golo. Antevendo mais um jogo sem vencer em casa na Europa esta época, o FC Porto tentou pegar no jogo mas jamais o fez de forma minimamente organizada e expedita; ao invés, a substituição de Ghilas por Fernando (82’) não acrescentou nada de substancial: o argelino fixou-se na área e, à excepção de um lance ao cair do pano, não dispôs de nenhuma oportunidade de perigo. Porque, no fundo, o problema situava-se a montante: o meio-campo (apenas com Carlos Eduardo e Herrera) não conseguiu produzir jogo ofensivo e os extremos (Quaresma e Varela), já muito fatigados, desapareceram do jogo. Se a ideia era ter mais gente na área para empurrar a bola para a baliza, Paulo Fonseca esqueceu-se de que era preciso alguém para a levar até lá.

O jogo terminou com um 2-2 profundamente amargo para as hostes azuis e brancas mas que acaba por se justificar. Primeiro, pela incapacidade da equipa de gerir o resultado e o esforço quando dispunha de uma vantagem de 2-0; depois, pelos erros defensivos cometidos mais uma vez esta época; por fim, pela ineptidão que a equipa demonstrou para pegar no jogo e dar a volta ao texto assim que se viu empatada. Segue-se a segunda mão na Alemanha, com a certeza de que o FC Porto parte em desvantagem mas com a convicção de que, em condições normais, é melhor equipa do que este Frankfurt. Agora, como na Champions, é preciso demonstrá-lo em campo. E isso é o que continua a amedrontar qualquer adepto portista.

Figura: Ricardo Quaresma

Longe de fazer um jogo excepcional, acabou por ter duas ou três arrancadas e outros tantos remates que deixaram os alemães desconfiados. Mais do que isso, resgatou a sua varinha mágica para assinar a única obra de arte da noite, a fazer lembrar o Mustang de outros tempos, que correrá essa Europa fora.

Fora de jogo: Alex Sandro

O lateral esquerdo brasileiro tem quilómetros e quilómetros nas pernas esta época. Vítima da (ausente) gestão de Paulo Fonseca, a verdade é que os lançamentos nas suas costas continuam a acontecer e a criar problemas ao FC Porto. Mais do que isso, em termos ofensivos, está muito longe da preponderância que tinha na temporada passada, e acabou por estar ligado ao lance do 2-2, em que aliviou desastrada e precipitadamente uma bola para dentro da sua baliza.