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Portugal e a Champions

Tiago Serrano · 5 min

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Cabeçalho Futebol Nacional

A prestação dos clubes portugueses nesta edição da UEFA Champions League chegou ao fim. Pela segunda vez na história do futebol, houve duas equipas portuguesas a passarem a Fase de Grupos da competição, mas ambos ficaram pelo caminho nos oitavos-de-final da mesma. Apesar do desempenho positivo de ambas as equipas, este acabou por se revelar insuficiente para manter Portugal no quinto lugar do ranking da UEFA, o que implicará a redução do número de equipas portuguesas na Champions na temporada 2018/2019: uma com entrada directa na Fase de Grupos e outra no play-off.

Mais uma vez, a possibilidade de uma nova conquista europeia não passou de um sonho distante para os adeptos encarnados e azuis e brancos. E, sinceramente, a cada época que passa, convenço-me cada vez mais de que a conquista do “ceptro europeu” é uma meta cada vez mais distante para os clubes portugueses.

Ora comecemos pelo início: no tempo da Taça dos Campeões Europeus, a maior competição europeia de clubes era disputada exclusivamente por eliminatórias. E, com isso, a competição era mais propensa à aparição de outsiders, como foram os casos do SL Benfica em 1960/1961 e do FC Porto em 1986/1987. Outro exemplo disso mesmo foi o Notthingham Forest, que ainda hoje é a única equipa que foi mais vezes campeã europeia do que campeã doméstica. Nestes tempos, chegámos a ter clubes campeões europeus na Escócia, na Roménia e na antiga Jugoslávia, bem como finalistas vencidos na Suécia e na antiga União Soviética, cenários nunca vistos no formato actual da competição.

Com a mudança para o formato de Champions, em 1991, os países com maior coeficiente da UEFA passaram a ter mais de um representante na competição. E com o aumento para 24 equipas, e, posteriormente, para 32 equipas, os países melhor classificados no ranking ganhavam mais representantes.  E neste formato nunca houve até agora uma equipa que se sagrasse campeã europeia duas épocas consecutivas. Se, por um lado, a máxima competição europeia de clubes está mais competitiva nesse aspecto, por outro, essa mesma competitividade está mais ao alcance dos clubes mais poderosos a nível desportivo e financeiro.

Relembrando uma citação de Johan Cruyff: “Por que é que não seria possível vencer um clube rico? Nunca vi um saco de dinheiro marcar um golo.”

Infelizmente, hoje em dia já não é bem assim. Hoje em dia, cada jogador é visto como um saco de dinheiro. Recordemos a última vez que o FC Porto foi campeão europeu: com José Mourinho ao leme, o FC Porto tinha conquistado o campeonato, a Taça de Portugal e a Taça UEFA em 2002/2003;  com vários dos seus jogadores a serem cobiçados por clubes europeus, Pinto da Costa submeteu o clube a um grande esforço financeiro para os manter, com o intuito de apostar forte na Liga dos Campeões na próxima temporada. Se jogadores como Deco ou Ricardo Carvalho tivessem sido vendidos ainda em 2003, o clube azul e branco provavelmente não teria repetido o feito de 1987.

A última equipa fora dos “Big-Five” a sagrar-se campeã europeia Fonte: UEFA
A última equipa fora dos “Big-Five” a sagrar-se campeã europeia
Fonte: UEFA

A ideia onde quero chegar é a de que a questão das vendas é um dos factores de desigualdade financeira entre os clubes portugueses e os clubes dos principais campeonatos europeus.

Os clubes dos principais campeonatos europeus têm mais e maiores fontes de receitas. As suas receitas em publicidade, markting e direitos televisivos chegam a cobrir cerca de 30 vezes o orçamento dos clubes portugueses. Só para se ter uma ideia, antes dos contratos milionários com as operadoras televisivas, os três grandes juntos lucravam menos dinheiro em direitos televisivos que o último classificado da Premier League.

Tendo os clubes dos principais campeonatos europeus maior poder financeiro, têm, consequentemente, maior capacidade para contratar – e acima de tudo para manter – jogadores de grande qualidade. Assim, as equipas-base dos clubes de topo sofrem alterações, perdendo menos rotinas e menos entrosamento.

No nosso caso não é assim. Derivado à situação sócio-económica dos clubes portugueses – e do país em geral – estes estão literalmente obrigados a vender jogadores importantes todos os anos. E assim, os treinadores dos clubes como o SL Benfica e o FC Porto são recorrentemente forçados a reconstruir a equipa e a estabelecer novas rotinas de jogo e de trabalho.

Outro factor que aumenta ainda mais este fosso financeiro é a enorme carga fiscal a que o nosso país é submetido. Um clube português tem de desembolsar um valor entre 2 a 2,5 milhões de euros para pagar um ordenado líquido de 1 milhão de euros por ano a um jogador. Enquanto que um clube turco, para pagar o mesmo valor de ordenado, tem de desembolsar cerca de 1,2 milhões de euros.

Aubameyang acabou com o sonho dos encarnados. Fonte: SL Benfica
Aubameyang acabou com o sonho dos encarnados
Fonte: SL Benfica

Depois, com o novo formato da Liga dos Campeões, em 2018/2019, os quatro primeiros classificados das ligas dos quatro primeiros países do ranking da UEFA terão entrada directa na Fase de Grupos da competição; ou seja, metade dos clubes participantes na Fase de Grupos representam os quatro primeiros classificados do ranking da UEFA.

Nas últimas dez temporadas, apenas clubes dos “Big-Five” (Alemanha, Espanha, França, Inglaterra e Itália) marcaram presença nas meias-finais da Champions e apenas 7 equipas fora dos “Big-Five” conseguiram estar entre as oito melhores equipas da Europa.

E, vendo bem as coisas, os adeptos do SL Benfica e do FC Porto até nem têm grandes motivos para se queixarem, visto que o SL Benfica e o FC Porto foram as únicas equipas fora dos “Big-Five” que chegaram aos quartos-de-final da competição duas vezes nos últimos dez anos. Situação que mostra o trabalho e a qualidade de ambos os clubes, que conseguem manter-se competitivos perante a necessidade de vender jogadores todos os anos, e de quem os representa.

Sonhar não paga imposto e, para nós, enquanto adeptos, é legítimo sonhar e acreditar na conquista do maior título europeu, mas enquanto existir este fosso e esta desigualdade, a “Orelhuda” será praticamente uma miragem. Aos clubes portugueses, resta abordar jogo a jogo e ver o que pode acontecer.

Foto de capa: UEFA

Artigo revisto por Mafalda Carraxis

Tiago Serrano

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