Primeira Liga | A Liga que queremos vender

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No início desta semana, Rui Costa chegou ao Parlamento com uma petição sobre a Primeira Liga debaixo do braço. O presidente do Benfica surge como primeiro subscritor de um documento que pede a suspensão do processo de negociação centralizada dos direitos televisivos do futebol português. A posição do Benfica não é propriamente uma novidade. O clube tem sido, de forma assumida, a principal voz contra este processo. Também não é difícil perceber porquê. Entre os três grandes, é o Benfica aquele que mais terá a perder com uma redistribuição centralizada das receitas. Mas essa é uma discussão que já foi feita e que, por isso, não vale a pena repetir aqui.

O que importa agora é fazer outra pergunta. Que Liga estamos, afinal, a tentar vender?

A centralização dos direitos televisivos parte de uma premissa que, em abstrato, é difícil de contestar. Juntar o produto, negociar em conjunto e redistribuir de forma mais equilibrada as receitas pode permitir reduzir diferenças entre clubes, aumentar a competitividade e, em teoria, tornar o campeonato português mais interessante. O problema é que não basta querer vender melhor. É preciso ter algo melhor para vender.

Marítimo Relvado
Fonte: Pedro Figueira / Bola na Rede

E, neste momento, o futebol português parece estar a tentar construir a casa começando pelo telhado. Bastaram dois jogos importantes para a nova época começar a dar sinais preocupantes. A Supertaça entre o Torreense e o FC Porto e o encontro entre Sporting e Estrela da Amadora ficaram marcados, entre outras coisas, pelas críticas às condições dos relvados. Dois jogos, duas situações que levantaram dúvidas sobre a qualidade do produto que estamos a apresentar.

FC Porto Supertaça Jogadores
Fonte: Paulo Ladeira / Bola na Rede

E isto acontece poucas semanas depois de Pedro Proença, presidente da Federação Portuguesa de Futebol, ter criticado publicamente o nível da arbitragem portuguesa. A questão não é saber se os árbitros erram. Naturalmente que erram. A questão é perceber o que estamos a dizer ao mercado quando o próprio presidente da Federação reconhece que um dos principais agentes do espetáculo não apresenta o nível desejado.

Que Liga estamos a vender?

Uma Liga em que os relvados dos estádios onde se disputam os principais jogos do país são alvo de críticas? Uma Liga cujo próprio presidente da Federação questiona a qualidade da arbitragem? Uma Liga em que a concentração de adeptos, audiência e capacidade comercial está esmagadoramente nos três grandes?

É aqui que a discussão sobre a centralização dos direitos televisivos se torna muito mais interessante do que a simples disputa entre Benfica e Liga.

Porque sim, é verdade que o futebol português precisa de distribuir melhor a riqueza. Mas será que distribuir dinheiro é suficiente para criar riqueza?

Tenho muitas dúvidas.

Adeptos do FC Porto
Fonte: Diogo Cardoso/Bola na Rede

O problema não está apenas em quanto dinheiro cada clube vai receber. Está no que cada clube será obrigado a fazer com esse dinheiro. Se queremos centralizar os direitos televisivos, então deveria existir um verdadeiro compromisso de reinvestimento. Obrigações concretas para melhorar infraestruturas, relvados, estádios, centros de treino, formação, comunicação, segurança e condições para os adeptos. Obrigações que permitam garantir que, daqui a cinco ou dez anos, o produto que estamos a vender vale mais do que aquele que vendemos hoje.

Porque não basta tirar dinheiro aos clubes que mais geram e distribuí-lo pelos restantes. É preciso garantir que esse dinheiro transforma a Liga, caso contrário, estaremos apenas a redistribuir uma receita que continuará a ser gerada, em grande parte, pelos mesmos de sempre.

E aqui surge outro problema.

O futebol português está cada vez mais exposto ao fenómeno dos multi-club ownerships. Investidores privados compram clubes, grupos internacionais passam a controlar diferentes projetos e Portugal corre o risco de se transformar numa plataforma de desenvolvimento e circulação de jovens jogadores para grandes estruturas internacionais. Nada disso é necessariamente negativo. O investimento estrangeiro pode ser extremamente importante para o futebol português.

Mas é legítimo perguntar: que tipo de investimento queremos atrair?

Queremos investidores que construam clubes mais fortes, melhores estádios, melhores academias e melhores condições para os adeptos? Ou queremos simplesmente distribuir dinheiro por estruturas que, muitas vezes, têm como principal objetivo maximizar o valor dos seus ativos e utilizar os clubes portugueses como peças dentro de uma estratégia empresarial maior?

Jogadores do Sporting
Fonte: Mário Pinto/Bola na Rede

Porque se a resposta for a segunda, então a centralização pode acabar por produzir um resultado perverso. O dinheiro que deveria servir para aproximar os clubes pode simplesmente reforçar estruturas de investimento que já existem.

E há ainda outra questão que não pode ser ignorada: o próprio modelo competitivo. Antes de discutirmos como distribuir as receitas, talvez devêssemos discutir se a competição que temos é aquela que queremos ter. O futebol português precisa de uma reflexão profunda sobre os seus quadros competitivos, sobre a experiência dos adeptos, sobre os horários dos jogos, sobre a qualidade dos estádios, sobre a arbitragem e sobre a forma como o espetáculo é apresentado.

Tudo isto influencia o valor dos direitos televisivos.

Porque os direitos televisivos não são apenas direitos de transmissão. São o preço que alguém está disposto a pagar para ter acesso a um produto e um produto vale aquilo que o consumidor entende que ele vale. É por isso que a discussão sobre a centralização não deveria começar com a pergunta sobre quanto dinheiro cada clube vai receber.

Deveria começar com outra: O que vamos fazer para que, daqui a dez anos, alguém esteja disposto a pagar muito mais por esta Liga?

É aí que está o verdadeiro problema.

Adeptos do Benfica
Fonte: Paulo Ladeira/Bola na Rede

Eu assinaria esta petição. Não porque considere que o modelo atual seja perfeito, porque não é, nem porque defenda que os três grandes devam continuar eternamente a concentrar uma parte desproporcional das receitas do futebol português. Assinaria porque não acredito que a Liga esteja preparada para centralizar os seus direitos televisivos sem, antes disso, criar as condições necessárias para que essa centralização produza aquilo que promete. O produto Liga ainda não está preparado, os clubes ainda não estão preparados e, sobretudo, o regime de obrigações que deveria acompanhar esta redistribuição ainda não está suficientemente pensado.

Centralizar pode, de facto, ser uma oportunidade histórica para o futebol português, mas também pode acabar por ser apenas uma forma de distribuir a mesma pobreza por mais clubes. E entre redistribuir dinheiro e criar valor existe uma diferença enorme. Se queremos vender melhor a Liga portuguesa, talvez devêssemos começar por torná-la melhor. Porque, no fim do dia, a pergunta que Rui Costa levou ao Parlamento é muito maior do que a posição do Benfica. É uma pergunta sobre o futebol que queremos construir e, acima de tudo, sobre a Liga que queremos vender.

Será que é mesmo esta a Liga que queremos vender?

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