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As transferências de Clayton e de André Luiz do Rio Ave para o Olympiacos passaram quase sem ruído. E talvez seja isso que mais impressiona. Não pela qualidade dos jogadores, nem pelo destino escolhido, mas pela naturalidade com que estes movimentos são hoje aceites no futebol europeu.

O contexto ajuda a explicar essa normalidade aparente. O Rio Ave é detido por Evangelos Marinakis, o mesmo empresário que controla o Olympiacos e o Nottingham Forest. O percurso dos jogadores dentro desta rede não surpreende. É o funcionamento típico dos clubes em modelo de multi-club ownership, uma lógica já banalizada em campeonatos de topo, como se vê no universo do Chelsea, e que começa a marcar, de forma estrutural, o futebol português.

Clayton, no último verão, e André Luiz, neste mercado, tinham sido associados a transferências por valores consideravelmente mais elevados. Falava-se de outro patamar. Acabam por sair por quantias que, pelo menos do ponto de vista externo, parecem reduzidas para o Olympiacos. Pode questionar-se se os valores são justos ou não. Pode discutir-se se o Rio Ave ficou a ganhar ou a perder. Mas essa discussão, apesar de legítima, não é o essencial.

Clayton Silva Rio Ave
Fonte: Paulo Ladeira / Bola na Rede

O essencial está noutro plano. Está na forma como estas dinâmicas se cruzam com a centralização dos direitos televisivos e com o impacto real que essa centralização terá na estrutura da Liga portuguesa.

A centralização vai trazer mais dinheiro. Isso é praticamente consensual. Clubes como o Rio Ave passarão a ter receitas superiores, sem que, para isso, tenham necessariamente de aumentar audiências, melhorar estádios, captar mais sócios ou gerar maior interesse mediático. Contribuem para o produto Liga, é verdade. Mas não são eles que sustentam o seu valor comercial. Esse peso continua a recair, de forma esmagadora, sobre os clubes grandes, que concentram adeptos, transmissões internacionais e capacidade de gerar receitas.

Na prática, a centralização significa que esses clubes irão carregar financeiramente o aumento de receitas dos clubes pequenos. E isso, por si só, já merecia uma discussão séria. Mas torna-se ainda mais problemático quando se olha para o contexto atual da Liga.

O futebol português abriu-se ao investimento privado. Muitos clubes têm hoje capital nas mãos de empresários e fundos estrangeiros. Não se trata de um fenómeno isolado, nem necessariamente negativo. O problema surge quando esses investidores não encaram os clubes como projetos desportivos autónomos, mas como ativos funcionais dentro de uma rede maior.

O exemplo internacional ajuda a perceber o risco. O caso do Botafogo e do Lyon, ambos detidos por John Textor, mostrou como um clube pode ser usado para facilitar operações de mercado de outro. Segundo o L’Équipe, foi o Lyon que acabou por assumir encargos e movimentos financeiros que permitiram ao Botafogo concretizar contratações aliviando, assim, pressões financeiras. Tudo dentro da legalidade. Tudo dentro das regras. Mas profundamente desequilibrado do ponto de vista competitivo.

Thiago Almada Lyon
Fonte: Olympique Lyonnais

E aqui surge a grande questão. Faz sentido que o dinheiro da centralização, gerado sobretudo pelo valor dos clubes grandes, acabe por alimentar clubes de baixo valor de mercado, já adquiridos por investidores privados a preços reduzidos, dando-lhes acesso a fundos sobre os quais não trabalharam diretamente? Faz sentido que esses investidores beneficiem de receitas que não resultam de mérito desportivo, de boa gestão ou de crescimento orgânico, mas apenas de um mecanismo de redistribuição coletiva?

O contraste é evidente quando se olham para clubes que constroem as suas receitas. O Gil Vicente, que consegue boas vendas com Pablo e Andrew, fruto de scouting, risco e valorização. O Estrela da Amadora, que tem feito negócios relevantes, extraindo valor de contextos difíceis. Aí, as receitas extraordinárias são consequência de trabalho, de estratégia e de visão.

Quando esses mesmos clubes passam a integrar redes empresariais cujo interesse principal não é o crescimento do clube em si, mas a sua utilidade dentro de um grupo multinacional, o modelo começa a falhar. A centralização, pensada como instrumento de equilíbrio competitivo, corre o risco de se transformar num incentivo ao aproveitamento financeiro. Num mecanismo que recompensa quem menos investe no crescimento real do futebol português.

O perigo está precisamente aí. Um perigo estrutural. Um perigo silencioso, mas profundo. O de transformar a centralização dos direitos televisivos num subsídio indireto a modelos que pouco se importam com a competitividade da Liga, com o desenvolvimento dos clubes ou com a qualidade do espetáculo.

No fim, a pergunta impõe-se. É para isto que queremos a centralização? Para facilitar este tipo de aproveitamento? Será este modelo o garante da competitividade futura da Liga portuguesa, ou estaremos apenas a redistribuir dinheiro sem melhorar a competição, sem elevar o nível e sem proteger o próprio futebol nacional?

Talvez o verdadeiro debate não esteja nos números. Está na coragem de definir que tipo de Liga queremos. E a quem é que ela deve servir.

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