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Sentido! O Árbitro está aqui – Entrevista a Pedro Henriques

Emanuel Melo · 6 min

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No futebol, os protagonistas costumam ser impreterivelmente os mesmos. Jogadores, treinadores e dirigentes acabam sempre por mover paixões e muitas emoções por parte dos adeptos. No meio disto, existe um anti-herói: o árbitro, juiz do espetáculo, que acaba por ser o parente pobre no meio do jogo, e só lhe é dado protagonismo quando erra.

Em virtude daquilo que se tem passado no futebol português nos últimos tempos, fomos falar com Pedro Henriques. O atual comentador falou-nos da sua carreira no futebol e expôs a sua visão em relação ao estado da arbitragem em Portugal.

Bola na RedePedro, foi sem dúvida alguma um dos árbitros portugueses mais marcantes do futebol nacional nos últimos anos. Como surgiu o interesse pela arbitragem?

Pedro Henriques: Fui tirar o curso de treinador e de árbitro de futebol e de futsal, em virtude de na instituição militar ter que lidar com o treino, e com equipas e seleções de ambas as variantes e, nesse sentido, o interesse surgiu devido ao gosto pela modalidade, pela necessidade e vontade de saber mais sobre o Futebol e para, obviamente, poder desempenhar melhor as minhas funções. Assim sendo, ao tirar o curso de árbitro apaixonei-me logo pela função e, ao ser nomeado para um jogo, gostei, aliás adorei e fiquei por lá 20 anos.

BnR: Recordo que para além da carreira na arbitragem, fez carreira a nível militar. Acha que há semelhanças entre a vida militar e a arbitragem? O passado militar deu-lhe alguma vantagem quando, depois, veio a arbitrar jogos?

PH: Ser oficial do exército e ser árbitro de futebol tem coisas em comum: a adrenalina, a emoção, a gestão de pessoas e de momentos de alguma tensão, a actividade física e exigente, o rigor do treino, o espírito de missão, a motivação constante, o pouco reconhecimento público… Com todas estas coisas é fácil sermos um pouco loucos, mas muito apaixonados e envolvidos pela “tropa” e pelo “apito”.

BnR: Quais foram as suas grandes referências na arbitragem?

PH: Não tinha bem uma referência específica, tinha uma referência geral, de apreciar o futebol inglês e a forma como os árbitros interpretavam e dirigiam os jogos, daí, criei um estilo muito pessoal, de deixar jogar, privilegiar o contacto físico e de grande respeito e proximidade com os jogadores, treinadores e adeptos. Como diziam na altura, eu arbitrava à Inglesa.

BnR: Como é que se relacionava com os jogadores? Era próximo dos jogadores ou mantinha algum distanciamento?

PH: O segredo na vida está em pormo-nos no lugar dos outros quando nos relacionamos com eles. Se percebermos isto e soubermos o que significa: liderança, motivação, tomada de decisão, atitude, respeito, seres humanos, futebol e sobretudo paixão, o resultado só pode ser, para além de momentos constantes de felicidade, uma relação sistemática e permanente de excelência, neste caso concreto, com os jogadores ao mais alto nível, de forma fácil, tranquila e de enorme consideração e respeito.

Pedro Henriques foi árbitro profissional durante vários anos Fonte: Facebook Oficial de Pedro Henriques
Pedro Henriques foi árbitro profissional durante vários anos
Fonte: Facebook Oficial de Pedro Henriques

BnR: Arbitrou mais de uma centena de jogos em Portugal. Lembra-se de algum jogo em especial que lhe tenha sido mais complicado de gerir?

PH: Só guardo as recordações dos jogos que foram especiais pela positiva e que marcaram a minha carreira também de forma positiva. Destaco a minha estreia na 1º divisão em 2001-2002 no Santa Clara-Braga; a participação na final da Taça de Portugal em 2002-2003 entre FC Porto e União de Leiria; o primeiro dérbi Benfica-Sporting em 2005-2006; e o primeiro clássico entre Porto-Sporting em 2006-2007.

BnR: O que é que lhe proporcionava maior prazer em arbitrar?

PH: O prazer de arbitrar estava relacionado com o sentimento de que, para além de saber que estava a dar sempre o meu melhor, estava na modalidade que amo e a fazer uma coisa sem a qual não vivo (exercício físico de uma maneira geral e correr em particular). Depois, gosto de participar “por dentro” daquilo que eu gosto e das atividades às quais me entrego, ou seja, há os que fazem parte da história porque a ajudam a fazer e escrever, e há os outros, que apenas se limitam a contar essa história, e essa é a diferença que faz com que não perca tempo com aqueles que apenas sabem criticar e julgar.

BnR: Vivemos semanas cada vez mais polémicas em relação à arbitragem, com ameaças, com duras críticas. Considera justas as críticas feitas não só por adeptos como também por dirigentes e comentadores em relação aos árbitros?

PH: Se todos os que comentam e criticam a arbitragem experimentassem arbitrar uma só vez um jogo de futebol, provavelmente mudavam o tom das críticas. Se todos aqueles que já foram árbitros, fossem humildes e deixassem de lado as frustrações que carregam, também mudariam de certeza a forma como criticam os atuais árbitros.

BnR: Acha que a Federação está a defender da melhor forma os árbitros? Como se pode contornar esta onda de críticas que tem sido gerada nas últimas semanas?

PH: Pergunta muito complexa para responder em poucas linhas. Mas digo o seguinte, acredito neste Conselho de arbitragem e em todos os seus elementos, e sei que toda a estrutura da Federação é cada vez mais competente e profissional. Como tal, acho que todos eles são as pessoas certas no lugar certo para levar a bom porto este mandato.

Concorda com a ideia de poder haver árbitros estrangeiros na liga portuguesa?

PH: Concordo que as principais ligas europeias, que têm os melhores clubes e os melhores árbitros, onde se insere também Portugal, possam fazer uma permuta de árbitros de forma equitativa, mas alerto que esta situação, sob o ponto de vista burocrático e financeiro, tem algumas dificuldades para ser implementado de forma assídua.

BnR: Acredita que esta nova fornada de jovens árbitros, que têm surgido nos últimos tempos, tem qualidade?

PH: A nossa arbitragem, tal como o nosso futebol em gera,l está num patamar de excelência, somos dos melhores do mundo nesta atividade. E não vejo, por exemplo, grandes diferenças entre os nossos árbitros e os de “lá de fora”, onde todas as semanas também vejo erros e casos, só que a grande diferença é que em alguns desses países e campeonatos não se valoriza tanto a questão da arbitragem e, sobretudo, não se desculpam tanto com os árbitros para os seus insucessos.

Depois da arbitragem, Pedro Henriques dedica-se agora ao comentário desportivo Fonte: Relato.pt
Depois da arbitragem, Pedro Henriques dedica-se agora ao comentário desportivo
Fonte: Relato.pt

BnR: A Profissionalização da Arbitragem foi um dos assuntos que voltou à baila com estas polémicas. Atualmente, em que moldes é possível avançar-se para a profissionalização dos árbitros? Quais os benefícios dessa mudança?

PH: Os árbitros têm de ser profissionais, porque em todas as atividades um profissional tem mais competências do que um amador e nesse sentido a profissionalização é irreversível, ou seja, o futuro, em Portugal, é ter árbitros em exclusividade e profissionais.

BnR: E considera que o recurso às tecnologias pode vir a ser útil para ajudar os árbitros em Portugal?

PH: Todas as tecnologias que possam auxiliar o árbitro na sua tomada de decisão são bem-vindas, são úteis e vão facilitar o trabalho do árbitro e, sobretudo, vão dar mais verdade desportiva ao jogo.

BnR: Acha que esta é a melhor altura para se pensar em ser árbitro?

PH: Não é, nem nunca foi. Uma boa altura é para se ser crítico, de forma destrutiva, daqueles que têm a coragem de querer fazer parte do futebol apenas como mais um, que nada faz e que apenas se limita a julgar. Esta é a altura ideal para se ser árbitro e desta forma contribuir para a atividade de maior sucesso no mundo e, provavelmente, a mais apaixonante também.

 

Artigo revisto por: Diana Martins

Emanuel Melo

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