A palavra desilusão depende de uma outra como o fumo depende do fogo. E da mesma forma que do fumo não nos conseguiremos livrar se não evitarmos o fogo, a desilusão também só aparecerá depois do surgimento de uma… ilusão. Por essa, sim, seremos todos responsáveis. E digo todos porque os adeptos são cada vez mais preponderantes nas suas equipas, para o bem ou para o mal.

O Sporting arrancou hoje uma vitória importantíssima. No campo do 4º classificado (então ultrapassado pelo Estoril), os leões entraram com a possibilidade de chegar ao topo da tabela de forma isolada. Se era um cenário típico o acusar de pressão aquando das melhores oportunidades, hoje o que se viu foi uma equipa tranquila e consciente das suas reais capacidades. A vitória, no final, foi justíssima perante o que se passou em Barcelos. Talvez o resultado pudesse ter sido diferente, sendo que tanto o Gil como o Sporting poderiam ter marcado mais do que o fizeram.

O contexto em que se jogava era, também ele, revelador da importância desta partida. Com o empate do Benfica, mas principalmente a derrota do Braga, teoricamente o rival directo nos objectivos desta liga, o Sporting ganha uma vantagem considerável para as próximas 18 jornadas. São já 14 os pontos que separam os dois candidatos ao 3º lugar que dá acesso à Liga dos Campeões no próximo ano. E sim, foi a isso que a equipa orientada por Leonardo Jardim se candidatou. Nada mais, nada menos. Independentemente do sucedido, o planeamento de uma época decorre antes do início da mesma. Aí, são definidos objectivos e, depois, tomadas decisões que tornem esses objectivos possíveis. E o objectivo não era ser campeão, pelo que não será a meio da época que isso irá ser alterado. Muito embora haja uma pressão daqueles que mais têm a perder se o Sporting conseguir superar o esperado.

Sporting gastou um sexto de Benfica e Porto para construir o seu plantel / Fonte: Abola
Sporting gastou um sexto de Benfica e Porto para construir o seu plantel / Fonte: Abola

É aí que pode surgir uma ilusão em tudo desnecessária. Não me entendam mal: nada disto tem a ver com falta de ambição. A ambição é sempre a maior possível. Mas não podemos deixar que daí nasça uma responsabilidade pejorativa que, por sua vez, poderá trazer ansiedade e pressão adicionais à equipa, jovem, que se vai construindo de forma exemplar.

Hoje, André Martins foi o melhor em campo. Móvel, confiante e a assumir as despesas do jogo ofensivo do Sporting, foi sempre capaz de, umas vezes, fazer entrar a bola em espaços abertos e, noutras, de ser ele próprio a ocupar as zonas do terreno mais despovoadas. Jogou, como se pede, entre linhas mas nem por isso se escondeu da bola. Cobrido por um Adrien que confere cada vez mais segurança e intensidade ao meio-campo leonino, e acompanhado pelo elevado nível de William Carvalho, dispôs talvez de mais condições para fazer o jogo para que já tinha mostrado potencial. Depois, na frente, Fredy Montero foi o homem golo necessário para desbloquear o marcador. Continuo, contudo, com a opinião de que ele é bem mais do que isso e por essa razão não depende dos golos para realizar boas exibições: baixa no campo, cria superioridade numérica e segura muito bem a bola, dando tempo para a equipa subir e respirar em momentos de maiores dificuldades. Um avançado é muito isso, e Fredy é muito avançado.

Seguem-se, agora, dois jogos em casa e uma deslocação ao recinto da 4ª melhor equipa do campeonato, o Estoril. Para já, o exigido são os mesmos índices de concentração que até agora têm vindo a ser apresentados. Belenenses, primeiro, e Nacional, a seguir, são adversários que podem colocar dificuldades se o Sporting não estiver no seu melhor. Depois, a ida ao Estoril em jornada de Benfica-Porto. Sobre essa, teremos tempo para pensar. Até lá a ilusão é apenas uma: vencer os dois jogos da 13ª e 14ª jornadas.

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