O primeiro lugar ocupado pelo Sporting CP quando já estamos em janeiro é, no mínimo, surpreendente. Nem os mais otimistas esperariam um desempenho tão bom por parte da turma de Alvalade, principalmente pelas más indicações deixadas na temporada passada. No entanto, há um fator importante nesta surpresa: o público. Ou mais propriamente, a falta dele.

Os adeptos, como é sabido, são um elemento fundamental para um espetáculo desportivo: incentivam, motivam e dão vida aos jogos. Em março do ano passado, tudo parou, voltando entre maio e junho, mas com “novidade”: desta vez não teríamos adeptos nas bancadas. Foi, de certo, complicada a adaptação, tanto para os jogadores como para nós espectadores.

Para o Sporting Clube de Portugal, talvez até tenha sido um alívio. Como é sabido, o clube vive um período conturbado desde 2018. Aquando da destituição de Bruno de Carvalho, abriu-se um precedente e o clube ficou dividido em duas “fações”, se é isso que lhes podemos chamar.

Os apoiantes do ex-presidente leonino e os que de forma alguma o apoiavam, sendo simpatizantes de dirigentes da linhagem de Frederico Varandas, José Eduardo Bettencourt ou Godinho Lopes. No meio, estão imensos sportinguistas que só querem ver o seu clube ganhar em todas as modalidades, independentemente de quem lá está e de quem enverga a camisola.

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O Sporting CP assume a dianteira do campeonato, mesmo com a ausência de adeptos nos estádios
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

O ambiente no estádio José Alvalade XXI tanto podia ser de união como simplesmente insustentável. A contestação ao atual presidente Frederico Varandas sempre foi muito grande por parte dos sócios e adeptos. Muitos não queriam um regresso ao passado, mas sim continuar num registo semelhante ao de Bruno de Carvalho, mas mais moderado, que tinha como seu principal expoente o ex-guarda-redes de futsal e ícone do Sporting CP, João Benedito.

É certo que nem sempre a equipa ajudou, pelo que os assobios dos adeptos eram justos e perfeitamente compreensivas. Ainda assim, muitas vezes era notória a insatisfação das claques com a atual direção do Sporting CP, com quem nunca nutriram grande simpatia. As más decisões no planeamento da equipa de futebol e das restantes modalidades, a constante perseguição às claques e a comunicação terrível eram alguns dos motivos que causavam a ira dos associados.

Mesmo quando as coisas corriam bem dentro de campo, o ambiente era pesado e os jogadores sentiam-no. Até ao despoletar da pandemia, Alvalade era uma “casa estranha” para o Sporting CP, registando-se os piores números em termos de assistências da história do José Alvalade XXI.

Com a pandemia, a atual direção leonina veio ganhar mais um balão de oxigénio. A contratação de Rúben Amorim em março deu que falar, principalmente pelos valores do negócio. A espiral negativa parecia não ter fim, mas a falta de público acabou por relaxar os jogadores do Sporting CP que, com menos pressão, puderam concentrar-se puramente em jogar futebol. Depois de dois meses sem jogar, regressaram frescos e não se verificaria qualquer contestação visível.

Ao longo da presente temporada, tem sido feita uma analogia entre os resultados desportivos e ausência de adeptos leoninos nos estádios
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Não sou daqueles que defende que o Sporting CP jogue melhor sem público, mas é verdade que a falta de adeptos nas bancadas potenciou o lançamento de jogadores jovens como Eduardo Quaresma, Nuno Mendes ou Tiago Tomás. Sem grande pressão a nível presencial, e muito embora com milhões a assistir, as prestações foram manifestamente positivas e hoje os dois últimos são peças fundamentais na equipa principal dos Leões. 

Ainda assim, creio que caso a pandemia terminasse subitamente, e pudéssemos retornar aos estádios, que o ambiente seria mais sereno. Muito embora a atual direção continue a ter grandes divergências com as claques e uma popularidade baixíssima com os sócios, a realidade é que o futebol está em primeiro lugar – algo que acaba por atenuar certas decisões no mínimo bizarras, amadoras e incompreensíveis por parte de Frederico Varandas, Rogério Alves, Francisco Zenha, Hugo Viana e companhia – pelo menos para quem anda menos atento. 

Mais tarde ou mais cedo, a pandemia do COVID-19 ficará controlada, pelo que, felizmente, voltaremos todos a poder frequentar os estádios. É pouco provável que seja nesta temporada, o que acaba por ser uma ironia do destino. Já pensaram o que seria o Sporting CP conquistar o seu primeiro campeonato nacional em 19 anos e ter o estádio completamente vazio?  

Por enquanto, é a realidade que temos. Muitos dos jogadores do Sporting CP nunca puderam atuar em frente aos adeptos e estou certo que o querem o quanto antes, não só porque se querem mostrar, mas porque o rendimento acaba por ser superior. Porém, enquanto não for possível, apoiaremos desde as nossas casas. E estou certo que todos sentem a energia positiva! 

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