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«A pessoa que disse “eu prefiro ter sorte do que ser bom” viu a vida de forma cristalina. As pessoas têm dificuldade em perceber que uma grande parte da vida depende da sorte. É assustador pensar na quantidade de coisas que estão para lá do nosso controlo. Há momentos num jogo [de ténis] em que a bola bate no cimo da rede e, durante uma fracção de segundo, tanto pode passar para o outro lado como resvalar para trás. Com um pouco de sorte cai para a frente, e ganha-se a partida». Assim começa o filme Match Point, de Woody Allen. As imagens que acompanham a narração são de uma bola de ténis a ser repetidamente batida de um lado para o outro do court, sem que se vejam os jogadores. A dado momento, um deles atira-a contra a parte superior da rede e ela sobe, ficando suspensa no ar exactamente a meio caminho entre qualquer um dos lados. Por fim, a cena muda. Ninguém sabe, por enquanto, qual o desfecho desse ponto decisivo.

A metáfora usada pelo cineasta norte-americano é aplicável a qualquer situação da vida quotidiana mas, uma vez que é de futebol que aqui se falará, manteremos a comparação no plano desportivo. Como seria o mundo do futebol se o Manchester United não tivesse marcado dois golos nos últimos dois minutos ao Bayern de Munique, na final da Liga dos Campeões de 1999? Ou se o penálti decisivo que John Terry enviou ao poste na final da mesma competição em 2008 tivesse ido uns centímetros mais para dentro e entrado na baliza do United? Ou ainda se Sergio Ramos não tivesse marcado de cabeça ao cair do pano na final de 2014, impedindo o Atlético de Madrid de conquistar a sua primeira Champions e permitindo que o Real chegasse à tão ansiada décima? Tudo questões de pormenor, de sorte ou falta dela, que mudaram para sempre a história do futebol.

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Equipa do Sporting em 1959/60. Podia ter sido ela a representante portuguesa na Taça dos Campeões de 1960/61, ganha pelo Benfica
Fonte: Portal Sporting Memória

Vem tudo isto a propósito de um vídeo recente onde José Augusto, velha glória do Benfica, confessa que marcou um golo irregular contra o Sporting, na época de 1959/60: “quando o Fernando Mendes me ultrapassa dou-lhe um toque no pé, ele espalha-se ao comprido (…) e eu faço o golo”. E qual é o interesse de ir recuperar, quase seis décadas depois, um dérbi longínquo? Simples: o Sporting tinha-se adiantado no marcador, nesse jogo de meados de Dezembro de 1959, e José Augusto fez o empate. A partida terminou 1-1. Nesse ano, o Benfica sagrar-se-ia campeão com dois pontos de avanço sobre os leões, havendo margem para admitir que, caso a irregularidade do jogador encarnado tivesse sido sancionada, o Sporting acabaria a temporada com 44 pontos, os mesmos do rival (na época, as vitórias valiam apenas dois pontos e, caso o Sporting tivesse vencido em Alvalade por 1-0, uma vez que o Benfica venceria por 4-3 na Luz, o desempate teria de se fazer pela diferença de golos, onde os verde-e-brancos levavam vantagem – 82 marcados e 20 sofridos contra 75 e 26 do Benfica). Nesse caso os leões seriam, portanto, campeões nacionais. Mas não é tudo: uma vez que, naquela altura, a presença na Taça dos Campeões Europeus estava limitada aos campeões de cada país, se o Sporting terminasse em primeiro na liga portuguesa de 1959/60 seria o representante luso na Europa em 1960/61, ficando o Benfica de fora (a Taça das Taças e a Taça Uefa só seriam criadas mais tarde). Ora, tal não só não aconteceu como os encarnados viriam mesmo a sagrar-se campeões europeus nesse ano. Isto é, a falta de José Augusto, que o próprio admitiu ter existido, parece insignificante à primeira vista mas pode ter tido, na verdade, consequências de dimensões impensáveis. Tinha assim início a odisseia vitoriosa dos homens de Béla Guttmann na Europa do futebol, que se repetiria em 1961/62 com novo título.

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 A confissão de José Augusto, 57 anos depois

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Que fique claro: o que aqui se faz não é, de forma alguma, uma desvalorização da extraordinária equipa do Benfica dos anos 60 ou um ajuste de contas com a História, até porque se parte do princípio de que o árbitro Raul Martins (e não Décio de Freitas, como afirma o ex-jogador das águias) agiu de boa-fé – daí neste texto falar-se em sorte e não se enveredar por caminhos menos salutares, ainda que, em bom rigor, um golo precedido de falta pouco ou nada tenha em comum com a beleza de um golo heróico marcado ao cair do pano, como aqueles a que acima se aludiu. E também não se está a dar nada por garantido, ou seja, não era, obviamente, 100% seguro que o Sporting fosse o campeão nesse ano. Trata-se aqui, isso sim, unicamente de revisitar um episódio tão marcante quanto esquecido e que o próprio José Augusto trouxe agora a público.

Da mesma forma que não se exige de um historiador europeu actual que peça desculpa pelas cruzadas ou pela escravatura levadas a cabo em séculos anteriores, também aqui o objectivo não é atirar “culpas” para cima dos adeptos benfiquistas ou do próprio José Augusto, que fez o que muitos outros fariam em prol da sua equipa. Trata-se apenas de dar a conhecer um acontecimento relevante e curioso da História do futebol português – feliz para o Benfica, aziago para o Sporting – que pode ter estado na génese de uma das fases mais bem-sucedidas de sempre de um clube nacional. E, assim como se afirma que o objectivo deste texto não é desvalorizar ou desmerecer ninguém, também não se pode deixar de reforçar que optar pelo silêncio ou pelo encobrimento seria bem menos recomendável e até incongruente – uma vez que, como se viu, o próprio José Augusto não tem problemas em que este episódio seja do conhecimento público.

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Na época, a versão de José Augusto foi diferente daquela que agora confessou
(Imagem retirada do vídeo aqui apresentado)

Enquanto Sportinguista, à distância de tanto tempo, estou pouco interessado em entrar em polémicas sobre se o meu clube seria ou não campeão nessa temporada do virar da década de 50 para a de 60. Felizmente, a História do Sporting vai muito para além das efemérides dessa época desportiva. Aqui apenas se expõe essa possibilidade muito plausível, porque a verdade é que os leões terminaram o campeonato praticamente colados aos rivais (43 pontos contra 45) e têm, portanto, razões para pensar que a sorte foi muito cruel para eles tanto no dérbi como no desfecho desse campeonato.

“Se a vida depende muito da sorte, foi justamente sorte que tivemos, e ainda bem”, defender-se-ão os benfiquistas. Já os adeptos do Sporting queixar-se-ão, e não sem motivos para isso, do fatídico momento em que o árbitro validou, nesse dérbi de 1959/60, o tal golo irregular que colocou o Benfica no caminho do título e da glória europeia que se lhe seguiu. Recuperando a metáfora do início do texto, em Dezembro de 1959 o clube da Luz atirou uma pequena bola de ténis contra a rede. Esta acabou por balançar e cair no campo do adversário, originando o melhor match point da existência benfiquista. O resto, já se sabe, é História. Mas, com a ajuda de José Augusto, passados quase sessenta anos tornou-se possível relatar de maneira mais rigorosa a forma como lá se chegou.

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Palavras do árbitro Raul Martins após o jogo
(Imagem retirada do vídeo aqui apresentado)

 Foto de capa: Wiki Sporting

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O João Sousa anseia pelo dia em que os sportinguistas materializem o orgulho que têm no ecletismo do clube numa afluência massiva às modalidades. Porque, segundo ele, elas são uma parte importantíssima da identidade do clube. Deseja ardentemente a construção de um pavilhão e defende a aposta nos futebolistas da casa, enquadrados por 2 ou 3 jogadores de nível internacional que permitam lutar por títulos. Bate-se por um Sporting sério, organizado e vencedor.                                                                                                                                                 O João não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.