Ao longo dos 18 anos da minha célere existência, o hóquei trespassou o resguardo das “paixões inertes” sendo, nos últimos três/quatro anos, escoltado, por mim, em presença assaz frequente.

Sob a alçada dos patins e manuseamento do stick, explana-se no ringue a euforia e disforia até ao derradeiro momento, emoções essas proporcionadas pela rapidez de execução de movimentos, golos de espetacular desenvoltura e proteções de balizas com máxima eficiência, onde verdadeiros escudos atuam perante espadas e lanças afiadas.

Ora, a clausura ao Sporting Clube de Portugal alia-se à afeição e apego à modalidade. E, perante o panorama retratado, torna-se imperiosa a referência a uma pessoa: Paulo Freitas, o ex-treinador do Óquei Clube de Barcelos, clube através do qual conquistou a Taça CERS e o qual abandonou na época 2016/2017, estando esta ainda a decorrer.

A sua vinda para Alvalade foi preponderante no crescimento da modalidade. A demanda constante pela harmonia de grupo conduziu à coesão, à entreajuda e ao contorno de cada entrave vivido, factos que distinguem a solidez e a vivacidade do plantel de hóquei.

A exclusividade e a pendor emocional do “dez” sportinguista, conjuntamente com todo o staff leonino, permitiu, depois de época desgastante e custosa, o êxito e a tão aclamada glória: no reduto leonino, conferiu-se relevância e posterior mérito ao homem que, após jejum de 30 (longos!) anos, devolveu o clube à conquista da modalidade e do prestígio europeu que outrora vigorou e defendendo sempre, de maneira acérrima e intransigente, as cores leoninas.

Prova viva do que foi supracitado é o seguinte excerto dirigido ao jornal O Jogo: “Queria realçar a época do Sporting. Nunca entrámos demasiado eufóricos nem deprimidos. Sempre acreditámos no nosso trabalho, na qualidade, na união e na convicção de que íamos ser felizes. Por isso, hoje é dia de extravasar e sermos eufóricos. Trinta anos depois, calhou-nos o privilégio de representar o Sporting e devolver o título a todos os sportinguistas”.

Paulo Freitas, ao lado de Caio, Henrique Magalhães, Ferran Font e Tóni Pérez, nos festejos do título de 2017/2018
Fonte: Sporting CP

Algo verdadeiramente impressionante e do qual me orgulho é o facto de o discurso direcionado à comunicação social, no pós-jogo, ser conciso, consciente, humilde e despretensioso, características assinaláveis de uma postura que se demarca e não é conivente com condutas antidesportivas.

Reconhecer o mérito do adversário é, sobretudo, saber ganhar e, no jogo do título, triunfou no campo e no prólogo e epílogo do seu discurso dirigido, uma vez mais, ao jornal O Jogo: “Mas os jogadores estão preparados para sofrer e hoje voltaram a sofrer, porque o adversário é de enorme valia e obrigou-nos a ser um grande Sporting. Por isso, honra aos vencidos. O FC Porto está de parabéns pelo que fez, num ambiente adverso”.

Jamais se olvidarão todos os gestos, palavras e atos que provaram o amor nutrido pela listada verde e branca: aquele bater no peito diante do FC Porto, no jogo do título, que, alegoricamente, simbolizou um instante ternurento e o soltar do Ipiranga defronte da armada verde e branca.

Contudo, no passado sábado, Paulo Freitas e os seus súbditos perderam a liderança diante do FC Porto, no Dragão Caixa. O Ipiranga inverteu o sentido e várias críticas foram tecidas em torno da modalidade, facciosamente. Mesmo que o campeonato, a partir de agora, seja uma miragem, é um erro crasso pôr em causa a competência do homem que alcançou o céu e de toda a mística e linhagem aguerrida sentida.

Portanto, a renovação, concretizada a 14 de março, foi, por parte de Frederico Varandas, uma demonstração de agradecimento pelo ótimo trabalho realizado até então e de força, incitando-o de modo a que comande o futuro do clube. Paulo Freitas, riposta, afirmando: “É a forma de transmitirem que estão satisfeitos com o meu trabalho e postura. Para mim é um orgulho enorme continuar a representar este grande clube”.

O hóquei leonino, descurando a imprevisibilidade dos acontecimentos, encontra-se em boas mãos!

Foto de Capa: Sporting CP

Comentários