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Analise táctica: FK Qarabag

Tiago Silva · 10 min

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O Sporting CP depois de falhar na época passada o acesso à Liga dos Campeões, irá estrear-se esta quinta-feira, na fase de grupos da Liga Europa. Um sorteio que ditou como adversários o Arsenal de Londres – como favorito à conquista do Grupo E – o Vorskla, clube ucraniano que ficou em terceiro lugar no seu campeonato local no ano transato e por fim o FK Qarabag, pentacampeão do Azerbaijão. É precisamente pelo fim que vamos começar. Hoje iremos olhar com destaque para os aspetos tácitos da equipa Azeri que será o primeiro adversário dos Leões na Liga Europa.

Fundado há 67 anos, o FK Qarabag está atualmente situado na região de Baku, pois em 1993 foi obrigado a deixar a sua região mãe devido à Guerra entre o Azerbaijão e Arménia. Apesar de há muito se ter deslocado e de ser obrigado a estabelecer-se então na capital azeri, ainda existe uma esperança de um dia o clube conseguir regressar a sua cidade de origem, uma cidade com cerca de 40 mil pessoas que é hoje constituída por ruínas da guerra e sendo também considerada uma das maiores cidades fantasma do Mundo. O antigo estádio do FK Qarabag foi inclusive destruído durante a guerra, utilizando então o clube, um estádio construído em 2015 em Baku, apesar do FK Qarabag disputar os seus encontros da UEFA no Estádio Olímpico de Baku, onde será disputada esta temporada a final da Liga Europa.

Apesar de todas as dificuldades, é de salientar e enaltecer a ascensão do FK Qarabag nos últimos anos, que impressiona ao ponto de hoje ser uma equipa competitiva na Europa – na época de 2017/18 foi um ano histórico. Foi na Liga dos Campeões que o conjunto azeri fez história ao bater o FC Copenhaga no play-off de qualificação para a Fase de Grupos da prova através da regra dos golos fora e definir-se, por isso, como a primeira equipa da história do Azerbaijão a alcançar esta fase da competição, onde também aí o FK Qarabag surpreendeu.

Apesar do último lugar no grupo da morte da competição, a equipa não perdeu qualquer um dos dois jogos disputados frente ao Atlético Madrid naqueles que foram os dois únicos pontos conquistados pela equipa que registou derrotas então frente a AS Roma e Chelsea – além de se ter estabelecido como a principal força do futebol azeri, destronando o seu rival direto Neftçi Baku, que tal como o nome indica, é um clube situado na capital do país. Para este crescimento em muito contribuiu a chegada ao clube de Gurban Gurbanov, antigo ícone do futebol do Azerbaijão, é treinador da equipa do FK Qarabag desde 2008 e atualmente com 46 anos é conhecido por praticar um futebol expansivo e baseado na posse de bola tendo levado até ao clube a ser apelidado de “Barcelona do Cáucaso”.

Na presente época, o conjunto do Azerbaijão, O FK Qarabag falhou o seu primeiro objetivo da temporada: repetir a qualificação para a fase de grupos da Champions, como havia feito na época transata. Depois de deixarem pelo caminho os eslovenos do Olimpija e os albaneses do Kükesi, num conjunto de quatro jogos em que não sofreram golos, os cavaleiros foram superados pelo BATE. O acesso à fase de grupos da Liga Europa, assegurado pela quarta vez nos últimos cinco anos, foi obtido após eliminarem o Sheriff Tiraspol num conjunto de 3-1. O plantel conta com algumas caras bem conhecidas dos Portugueses e de Alvalade. Vagner, ex-Estoril, é o dono das redes enquanto que Simeon Slavchev, que passou pelos Leões, é um dos patrões do meio-campo.

É uma equipa que costuma rodar o seu plantel no seu campeonato, pois sabe que tem qualidade suficiente para vencer os seus jogos mesmo com uma equipa menos rotinada ou com os melhores elementos, tentando assim jogar na máxima força nas competições europeias surpreendendo os adversários. Para esta temporada a equipa reforçou-se muito bem e apresenta-se mais forte que na época passada. Na equipa que consideramos a equipa mais forte/equipa base temos cinco reforços (Vagner, Slavchev, Zoubir, Ozobic, Emeghara). Para esta analise tática, vamos considerar apenas os jogos já realizados para as competições da UEFA e para o seu campeonato local.

  • Processo ofensivo

É uma equipa habituada a jogar em posse, em três jogos para o campeonato conta com uma média de 62% de posse, juntando os jogos já realizados quer para a Champions quer para a Liga Europa, onde existem adversários de maior nível esses valores continuam a rondar os 59%, o que comprova que é uma equipa que gosta de ter bola e de trabalhar com ela. O conjunto de Gurbanov está mais rotinado a jogar num sistema de 4x2x3x1 – utilizou este sistema cerca de 60% das vezes – mas que por vezes se “transforma” num 4x1x4x1. Uma equipa habituada a fazer bastantes remates com uma média de 12 remates, mas que conta apenas com uma taxa de sucesso de 26%, fazendo com que a equipa seja pouco eficaz. O sistema com que se irá apresentar em Alvalade, irá depender muito da mentalidade do treinador e das ideias que traz para o jogo. Acreditando que se irá manter fiel as suas ideias de posse, conto que o emblema do Azerbaijão entre em campo com a disposição de 4x2x3x1 com o seguinte onze titular:

Guarda-Redes: Vagner

Defesas: Medvedev, Guseynov, Sadygov e Guerrier

Duplo Pivot: Slavchev e Garayev

Médios: Zoubir e Madatov nas alas com Ozobic ao meio.

Avançado: Emeghara.

É uma equipa que em organização ofensiva procura jogar mais apoiado desde a defesa até ao ataque. Vagner é um experiente guarda-redes e joga bem com os pés, jogando por vezes mais adiantado, dando confiança e tranquilidade à equipa. Os centrais Guseynov e Sadygov têm como seu ponto fraco o não serem muito fortes tecnicamente, mas compensam isso por serem ambos jogadores agressivos defensivamente. No duplo pivot, temos Garayev como homem mais defensivo e Slavchev como homem mais equilibrado, fazendo o papel de médio box-to-box, mas ocupando áreas mais ofensivas que Garayev.

A equipa tipo organizada em 4x2x3x1

Apesar da equipa se organizar em 4x2x3x1, devido às suas dinâmicas ofensivas, faz com que se coloque num esquema mais parecido ao 3-4-3. Na primeira fase de construção, procuram sempre que seja feita uma linha de três centrais. Por norma, na primeira fase de construção, o FK Qarabag constrói com três atrás, sendo que o central-direito – Guseynov – se coloca como homem mais recuado, com o central-esquerdo -Sadygov – a abrir no lado esquerdo. Do lado direito ou fica o lateral-direito – Medvedev- ou o médio defensivo –Garayev – que por vezes também baixa, ocupando o lado direito do terreno mas sempre com um objetivo em comum, permitir ao seu lateral esquerdo –Guerrier – subir no terreno, pois é um jogador que gosta de atacar e que da muita capacidade ofensiva ao longo da linha, comportando-se como um extremo.

O heat map do lateral esquerdo Guerrier, onde é possível observar a projeção ofensiva que o lateral dá à equipa no corredor esquerdo.

Caso o lateral-direito fique recuado na estrutura de três, não se projetando, a ala fica entregue ao extremo do lado direito. O principal objetivo é ter sempre os extremos em terrenos interiores, quer para potenciar a capacidade de remate, já que os médios alas/extremos jogam com os “pés trocados” pois o canhoto Madatov joga na direita e o destro Zoubir joga na esquerda, quer para lhes dar a capacidade de decisão, visto que são os jogadores mais criativos e que mais desequilibram. Tecnicamente muito fortes e com uma qualidade acima da restante equipa, são muito fortes no 1 contra 1. Ozobic, também é um dos homens em destaque na equipa, pois é o homem das bolas paradas e possui uma excelente meia distância e visão de jogo. Na frente, Emeghara é um ponta de lança algo trapalhão, não é muito letal nem forte tecnicamente e as suas principais armas são a sua mobilidade e velocidade.

Como já foi referido anteriormente, sendo uma equipa que gosta de ter bola, Qurbanov pede aos seus jogadores, sobretudo aos médios Slavchev e Ozobic para entrarem no bloco adversário e quase sempre esses dois médios e os extremos estão entre as linhas adversárias à espera dos passes verticais para criar um desequilíbrio. Conseguindo ultrapassar esta pressão defensiva, é uma equipa que gosta de colocar vários homens na área. Apesar de ser uma equipa que procura a posse e construir de forma lenta a partir de trás, para depois lá na frente fazer a diferença com as suas individualidades, o FK Qarabag torna-se mais letal quando consegue fazer transições rápidas defesa-ataque, explorando a profundidade de Emeghara. Os azeri, como pode ser observado pelo facto do lateral direito ficar algumas vezes atrás, preferem e procuram mais focar os seus ataques pelo flanco esquerdo, pois é onde Guerrier da uma maior profundidade mas também Zubir que é o homem mais desequilibrador, capaz de conciliar argumentos na condução e no drible, com bastante foco nos cruzamentos e nos passes de rutura.

Nas bolas paradas é curioso verificar que por vezes é um dos centrais a cobrar o canto, sendo que um deles por vezes não sobe à área. Outra das jogadas ensaiadas, é o facto de um dos centrais ficar à entrada da área para o remate. No entanto, quando cobrado o canto para o interior da área, são os defesas laterais os homens alvo, sendo que Guerrier é bastante incisivo no ataque à bola, inclusive estes dois homens já marcaram este ano de bola parada.

  • Processo defensivo

Aqui a equipa mantém a sua estrutura original de 4x2x3x1- que por vezes se transforma num 4x1x4x1 onde aí o homem mais recuado do meio-campo é Garavyev que fica responsável por cobrir uma área de terreno muito grande para apenas um homem, criando aqui algumas fragilidades defensivas – , com Slavchev ao lado de Garayev, num duplo-pivot no miolo e depois com Madatov, Ozobic e Zoubir a fazerem uma linha de três à sua frente com Emeghara sozinho a cortar linhas de passe aos centrais. É uma equipa muito agressiva que procura defender mais coesa, limitando o espaço adversário, não dando tempo para pensar tentando encurtar as linhas e jogando mais compactos, limitando as ações adversárias. Apesar disso, apresentam algumas lacunas nesta transição defensiva, mas lacunas essas que podem não ser tão evidentes neste jogo porque é expectável que os Leões assumam o controlo do jogo e não permitam muita posse e uma maior concentração do FK Qarabag no meio-campo ofensivo, como tem acontecido habitualmente ao longo da época. O FK Qarabag coloca muitos homens no último terço como já foi referido, o que poderá ajudar na rápida reação à perda de bola, mas que poderá trazer algumas desvantagens caso esta não resulte, fazendo com que percam a superioridade numérica na transição defensiva, possibilitando ao adversário contra-ataques perigosos.

O facto de Guerrier estar muito projetado e em posições mais ofensivas, faz com que o lateral contribua para estas lacunas, pois nos momentos da perda está quase sempre longe do oponente, ficando o seu espaço muito descoberto, colocando a sua equipa em desvantagem numérica ao centro ou com dificuldades em recuperar as suas posições, o que permite aos rivais criar facilmente perigo em situações de transição. No meio-campo, as marcações não são à zona, mas sim homem a homem, o que faz com que movimentos dos médios rivais criem facilmente espaço para outros jogadores ocuparem, criando aqui uma maior facilidade para jogar entre as linhas. Nas bolas paradas defensivas, é uma defesa maioritariamente homem a homem, deixando apenas um jogador em cada um dos postes e um mais solto que poderá estar à entrada da área para cortar um possível remate ou também sair ao canto curto ou cobrir o primeiro poste.

Em suma, o conjunto do FK Qarabag não é uma equipa com um grande nível técnico, mas tem equipa para surpreender o Sporting e criar dificuldades em Alvalade. Ofensivamente vamos ver se vão querer ter a bola ou se vão procurar sair em contra-ataque no inicio do jogo. Acredito que podem entrar com uma postura mais defensiva e ao longo do jogo irem-se soltando aos poucos. O jovem Madatov e o francês Zoubir terão que ser jogadores anulados, tecnicamente têm qualidade mais que suficiente para desequilibrar o jogo. Acredito que apesar de ser uma equipa agressiva defensivamente, apresenta algumas lacunas que o Sporting terá de explorar e se o fizer a 100%, poderá garantir uma vitória tranquila. Como referi anteriormente, o processo defensivo é algo mais básico, mais limitado.

Ao tentar ser pressionante e reativa à perda da bola onde Emeghara funciona como primeiro defesa, faz com que se desequilibrem com maior facilidade, fazendo com que sejam abertos muitos espaços entrelinhas, sobretudo por existir a preocupação em defender homem a homem, onde o Sporting terá de procurar constantes combinações pelo espaço interior que permitam a entrada no bloco rival, onde jogadores como Bruno Fernandes, Nani ou Raphinha podem ser importantes, podendo utilizar a sua meia distância. Mas onde o Sporting deve sobretudo exaustivamente procurar fazer uma pressão constante é à primeira fase de construção do FK Qarabag, pois basta observar os golos sofridos pelo conjunto do Azerbaijão para constatar que o defesa central Sadygov, procura por vezes passes mais arriscados, perdendo a bola e demonstrando as suas debilidades técnicas e que podem permitir recuperações em zonas mais altas do terreno e apanhar o rival completamente em contrapé.

Ainda assim, é necessário estar a um bom nível e com elevados níveis de concentração para levar os primeiros 3 pontos nesta Liga Europa.

Foto de Capa: FK Qarabag

artigo revisto por: Ana Ferreira

 

Tiago Silva

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