sexto violino

O Sporting não ganha o campeonato há 13 anos. Pior: nos últimos 40 anos, o Sporting foi campeão 4 vezes. Qualquer pré-adolescente adepto do FC Porto já viu a sua equipa ganhar mais ligas (7 nas últimas 10 edições) do que um “quarentão” adepto do clube leonino. Independentemente de, nos dias de hoje, nenhuma pessoa séria poder fechar os olhos à forma fraudulenta como os azuis-e-brancos foram ganhando a hegemonia do futebol nacional, a verdade é que essa subida de forma foi conseguida sobretudo à custa do Sporting. Quanto mais o FC Porto se ia consolidando como força principal do desporto-rei português, mais os leões se iam habituando a uma posição subalterna.

40 anos é muito tempo. É um período suficientemente grande para que se produzam mudanças profundas nas pessoas, nos países, nas instituições. E o Sporting é um exemplo de uma instituição que se moldou, neste caso para pior. Passou a ser hábito olhar-se para o emblema leonino como um clube que ganhava “quando o rei faz anos”, gerando inclusive algumas pseudo-simpatias hipócritas vindas dos rivais, desconfortáveis para quem sentia e sente o clube. Mas, ao longo desta reconversão de quatro décadas, houve algo ainda pior do que isso: os próprios sportinguistas habituaram-se a não ganhar, conformaram-se com a falta de vitórias.

roquete
José Roquette entrou no Sporting em 1995 e foi o primeiro rosto de um projecto ruinoso

Em 1995, numa tentativa de reverter a tendência desanimadora em que o clube já se encontrava, os sócios escolheram José Roquette para Presidente. O seu plano era, dizia-se, modernizar o clube para a entrada no novo milénio. Criou-se a SAD (transformando o Sporting oficialmente numa empresa), prometeu-se o aumento e modernização do património (novo estádio e Academia), disse-se que o Sporting deixaria de depender da bola no poste e passaria a ganhar 2 em cada 3 campeonatos.

Mas o projecto falhou. Apesar de o Sporting ainda ter ganho dois campeonatos, a diferença para os rivais era cada vez maior. Além disso, o clube, longe de prosperar, definhava: um passivo gigantesco, venda de património imobiliário, negócios ruinosos na compra de futebolistas, fecho de modalidades, etc. Em 2011, um semi-desconhecido de nome Bruno de Carvalho capitalizou enormemente com as suas aparições públicas, denunciando tudo isto e prometendo um novo rumo. Ganhou as eleições nesse ano mas não o deixaram assumir o cargo; voltou a ganhá-las em 2013 e deparou-se com Sporting praticamente falido e que, no futebol, estava a terminar aquela que viria a ser a pior época da sua História centenária.

De então para cá, o clube tem tentado reerguer-se. O triunfo na última edição da Taça de Portugal foi a maior prova física de uma mudança drástica de rumo, em busca de um Sporting ganhador. Pensar-se-ia que os adeptos, uma vez tomada a consciência de que o clube estava a definhar, se unissem em torno do novo Sporting. Mas isso não tem acontecido, pelo menos de forma plena. E há vários factores, uns internos e outros externos ao clube, que fazem com que assim seja.

Factor interno: os croquettes fora de prazo que não querem sair da travessa

A auditoria feita aos últimos mandatos presidenciais do clube lançou o pânico na chamada “dinastia croquette”. Aqueles que afundaram o Sporting vêm agora, na pessoa de António Dias da Cunha, proferir insultos rasteiros (“o Presidente devia ir para o manicómio”) e pedir a criação de movimentos contra Bruno de Carvalho. Ao contrário de FC Porto e Benfica, que falam a uma só voz, o Sporting habituou-se a dar tempo de antena a muitos “notáveis” cheios de opiniões. Curiosamente, nenhum deles pareceu importar-se muito quando, há apenas dois anos, o Sporting estava falido e ficou em 7º lugar, mais perto da descida de divisão do que do campeão.

Costuma dizer-se que “quem não deve não teme”. Ora, o comportamento recente de vários ex-Presidentes do clube parece indicar um enorme desconforto. Tais atitudes até teriam graça, não fosse o caso de estes soundbytes confundirem sempre alguns incautos que, por vezes, até têm direito a votos… Ainda assim, arrasada que está, para a maioria dos sportinguistas, a credibilidade de Roquettes, Dias da Cunha, Francos, Bettencourts e Godinhos Lopes, a estratégia passa agora por gerar a discórdia e criar divisões no clube, de preferência desejando que as coisas corram mal nos planos desportivo e financeiro, até que se lance um candidato presidencial que possa ameaçar o actual detentor do cargo. A oposição bafienta não vai desistir, e tem dois anos para tentar maquilhar o seu rosto e apresentar-se a eleições. Vergonha já sabemos há muito que não lhes assiste.

godinho
Godinho Lopes foi o último presidente antes de Bruno de Carvalho e pode ser expulso de sócio
Fonte: sporting.pt

Factor externo: media mansos com uns e implacáveis com outros

Relato um episódio de que me recordo: há dois anos, o Sporting apresentou Leonardo Jardim como novo treinador. Foi permitida a entrada de adeptos no auditório e houve algum atraso no início da conferência. Vários jornalistas ameaçaram deixar a sala. No Facebook, um jornalista fez um post público a apoiar os colegas e a arrasar a direcção do Sporting, post esse que recebeu aprovação de muitos dos seus pares. Alexandre Santos, da RTP, foi o único que recomendou aos colegas que não fossem “fortes com os fracos e fracos com os fortes”. Esta frase ficou-me. E, de facto, será que as reacções seriam as mesmas caso o episódio tivesse ocorrido no Dragão ou na Luz…?

Este é apenas um exemplo das diferenças de tratamento a FC Porto/Benfica e Sporting. Se muitas vezes parecem ser no mínimo de intenções duvidosas, outras acredito que surjam de forma inocente. Aqui, isso sucede porque o Sporting não tem, de todo, o mesmo peso dos rivais. De igual modo, o caso que opõe os leões à Doyen praticamente não tem produzido feedback positivo para o lado verde-e-branco nem merecido qualquer investigação, passando-se uma ideia de que o confronto foi gerado pelo capricho e pelas desculpas de mau pagador do Sporting. Até pode ter sido, em breve saberemos. Mas um fundo tudo menos transparente como este mereceria pelo menos ser alvo de um maior escrutínio. O triste é que foi preciso um jornalista italiano fazê-lo (texto brilhante, diga-se).

Será que os media portugueses, nomeadamente os desportivos, não pegam nestes temas por medo de represálias, por servilismo aos dois clubes instalados…? A este respeito, há que lembrar um despique entre José Diogo Quintela (JDQ) e Alexandre Pais, então director do Record, em que este último justifica assim o facto de o seu jornal não investigar os bastidores do futebol português: “JDQ disse, nestas colunas, que gostaria de ler amanhã no Record “uma notícia qualquer sobre escutas e corrupção que não seja primeiro dada nos jornais generalistas”. Trata-se de um desejo difícil de concretizar, pois quando o futebol perder de todo a credibilidade – traído por aqueles a quem dá de comer – aos generalistas não faltarão outros temas para exibir barba rija. Mas, morto o futebol, o Record perderá a razão de existir”.

alexandre santos
Bom exemplo: Alexandre Santos não alinhou no discurso crítico contra o novo Sporting
Fonte: Facebook de Alexandre Santos

É grave que se assuma que os jornais desportivos não vão enveredar por esse caminho porque isso seria trair aqueles que lhe dão de comer, e isto talvez explique a passividade dos desportivos face, por exemplo, ao Apito Dourado. Contudo, o mesmo Alexandre Pais escreveu, há semanas, um artigo em que crucifica os chamados croquetes do Sporting e se mostra compreensivo face à actual direcção. Afinal nem tudo é mau, pena é textos destes serem a excepção e não a regra.

Falando apenas dos últimos tempos, uma diferença de tratamentos salta logo à vista: Marco Silva, a quem o Sporting acusa, entre outras coisas, de “soprar” informações do clube para os media e de conluiar com o seu empresário e a Doyen no caso Rojo, desautorizando o Presidente e poupando o atleta num jogo de pré-época, continua a ter, ao contrário de Bruno de Carvalho, a chamada “boa imprensa”. Quando se confirmou a intenção de o Sporting rescindir com o treinador com justa causa, praticamente todos os órgãos de comunicação social destacaram nos seus títulos que Marco Silva ia embora unicamente por não ter vestido um fato, desprezando as cerca de 400 páginas da nota de culpa. Isto atira, como é óbvio, areia para os olhos dos sportinguistas menos atentos. Fica a dúvida sobre se o objectivo era esse…

Por último, a roda-viva da vinda de Jorge Jesus, em que ao princípio ninguém acreditava, transformou-se numa mistura explosiva de incredulidade, desespero e da chamada “azia”, com suposições acerca da origem do dinheiro e considerações sobre o futuro do clube poder ter sido hipotecado. Os 5M/ano – ou o que seja – oferecidos a Jesus só foram objecto de debate por se tratar de um treinador e do Sporting. Fosse a quantia gasta num jogador e não num técnico, ou fosse o destino de Jesus outro rival, e não haveria problema. Mais um sintoma de como pouca gente está preparada e/ou na disposição de ver o Sporting reerguer-se ao ponto de roubar o treinador a um adversário directo…

Que tudo isto aconteça numa discussão de café, é normal; que se passe nos nossos jornais, rádios e televisões, mostra bem as cores clubísticas da maioria dos intervenientes que estão em posição de influenciar a opinião desportiva no nosso país. Sim, a questão de Marco Silva não foi gerida da melhor forma. Mas ouvir comentadores falar em “ética” como argumento para censurar a vinda de Jesus para o Sporting é anedótico. Apetece perguntar: onde estavam essas pessoas quando rebentou o Apito Dourado, quando o Benfica supostamente lucrou com Roberto, quando vendeu André Gomes pela segunda vez ou Cancelo por um preço muito superior ao de mercado (curiosamente sempre para o mesmo clube “amigo”)?

É triste constatar que o jornalismo, área de estudo que resolvi seguir, se presta a estes comportamentos. Não peço imparcialidade, porque acho que todos têm o direito às suas preferências, mas sim seriedade. É possível ser adepto fervoroso de outro clube e admitir que Bruno de Carvalho está a fazer um óptimo trabalho. Muitos sabem-no, e é talvez por isso que entram em campanhas de desinformação. Preocupa-me que os lugares de comentário desportivo estejam praticamente vedados a sportinguistas, à excepção daqueles que não criam ondas e se inserem na categoria dos chamados “bons rapazes”, muitas vezes continuando até a dar credibilidade e voz à casta dirigente que afundou o clube nas duas últimas décadas.

msilva
Marco Silva tem beneficiado de boa imprensa. A união do clube ressente-se
Fonte: sporting.pt

Factor externo: papagaios diversos

Primeiro foi um ministro da Economia co-responsável por um país com quase um milhão de desempregados que tem a lata de vir opinar sobre o Sporting, depois foi um tal José Pereira, presidente da Associação Nacional de Treinadores de Futebol e, por último, a eurodeputada Ana Gomes.

Sobre o primeiro não há muito mais a dizer, a não ser lamentar o cinismo de quem apenas se preocupa com o desempregado Marco Silva e não com os milhares de empregos e vidas que destrói; sobre o segundo, líder de uma associação que, de tão activa que tem sido no desporto português, parece ter sido criada agora unicamente com o propósito de se juntar ao cortejo que manda bicadas no Sporting, importa perguntar onde estava quando Jorge Jesus foi impedido de entrar no centro de estágio do Benfica, no Seixal, ou quando Sérgio Conceição foi despedido do Braga com justa causa. “Habilidade parola” parece ser a forma ardilosa como esta personagem escolhe as temáticas sobre as quais se pronuncia…; por último, Ana Gomes. Em primeiro lugar, esclareço que não tenho quaisquer ilusões com o futebol, nem acho que um presidente seja idóneo só porque representa as nossas cores. O facto de reconhecer que Bruno de Carvalho tem feito um enorme trabalho nunca me fará defendê-lo cegamente – a ele ou a qualquer outro dirigente desportivo – porque sei como funcionam estas coisas do futebol. O dinheiro para mim não é todo igual, e incomodar-me-á se o meu clube aceitar receber fundos da Guiné Equatorial. Mas pergunto onde andava Ana Gomes quando saiu esta notícia. A eurodeputada, ex-maoísta, tem infinitamente mais experiência política do que eu, é certo. Mas eu, ao contrário dela, posso dizer que nunca me deixei enganar nem pelo estalinismo asiático que um dia a seduziu, e que subverteu o ideal igualitário em que ela dizia acreditar, nem pelas boas intenções do MPLA angolano, partido pseudo-socialista que não é mais do que a ponta-de-lança da cleptocracia local e que – curioso – Ana Gomes ajudou a legitimar internacionalmente, contribuindo para a sua integração na Internacional Socialista. Em boa verdade, a ditadura da Guiné Equatorial e a democracia de fachada angolana não têm assim tantas diferenças. Ana Gomes chegou a defender uma delas. Acredito que a eurodeputada tenha sido bem-intencionada neste alerta que fez à CMVM, mas admitamos que o seu percurso político não tem sido propriamente pautado pelas melhores decisões. Este foi apenas mais um episódio.

ana gomes
Ana Gomes foi a última voz de um coro de críticas que só parecem importar-se quando se trata do Sporting
Fonte: europarl.europa.eu

O Sporting, provavelmente o único clube do mundo que já foi alvo de dois boicotes por parte da arbitragem (em 1998 e em 2011, o que mostra bem a “boa-fé” com que o clube tem sido encarado em Portugal), tenta agora reerguer-se. Os “croquettes”, que antes eram acríticos, e os rivais, que outrora davam palmadinhas nas costas aos sportinguistas, tentam agora, cada um à sua maneira, dividir o clube e tentar travar o seu ressurgimento. No que diz respeito aos primeiros, é pertinente dizer-se que o Sporting é o único clube que não precisa de rivais, porque tem um grupo ainda mais nocivo dentro das suas hostes. Independentemente disso, contudo, FC Porto e Benfica não quererão facilitar a vida aos leões, como é exemplo a escolha de Luís Duque para a Liga ou a oposição desta ao fim dos fundos. Está bom de ver que dividir a hegemonia por dois é bem melhor do que fazê-lo por três… A presença marcada nos media de analistas que têm tido tolerância zero com o Sporting entristece-me enquanto jornalista, revolta-me enquanto Sportinguista e dá bem conta, em certos casos, da distância a que FC Porto e Benfica conseguem estender os seus tentáculos. Também isto é consequência das tais quatro décadas em que o Sporting foi adormecendo

Aproximam-se, portanto, tempos decisivos. Que os Sportinguistas saibam unir-se e identificar quem quer o mal do clube – há-os dentro e fora do Sporting. A nível institucional, desejo que o clube saiba lidar com as adversidades com determinação e eficácia, rumo a um futuro cada vez mais risonho. A Assembleia-Geral de amanhã, dia 28, poderá significar um novo passo nesse sentido.

P.S.: Dias da Cunha foi criticado neste texto, em virtude do seu legado e da sua recente postura lamentável, e sê-lo-á sempre que necessário. Porém, independentemente da credibilidade da personagem em questão, importa ver este vídeo, em especial a partir do minuto 3:26. Em 1999, Dias da Cunha denunciava uma tentativa de José Sócrates calar a revolva do Sporting com as arbitragens, evocando “interesses nacionais”. Mais um exemplo do que se falou neste texto, e que nos deveria preocupar a todos. Aqui fica o vídeo:

[ot-video type=”youtube” url=”https://www.youtube.com/watch?v=c7rM670uYDk”]

Foto de capa: site oficial do Sporting CP

Comentários