Marcel Keizer chegou a Alvalade e encantou. Com um registo de vitórias e de golos marcados face a golos sofridos, dignos de registo, colocou as expetativas dos adeptos leoninos novamente em alta. No entanto, apesar deste começo empolgante, a verdade é que os Leões desde o jogo com o Vitória SC, nunca mais se encontraram e tem sido cada vez mais preocupante o rendimento dos leões, juntamente aos maus resultados que apresentam.

É verdade que Marcel Keizer entrou a meio da época, com um plantel não construído por si, com erros de pré-época que não foram cometidos por ele de igual forma, mas José Peseiro deixou o comando técnico a 2 pontos do primeiro lugar. Neste momento o Sporting CP já vai a onze do FC Porto e com uma luta pelo terceiro lugar muito renhida, frente a um SC Braga que se afirmou ao longo dos últimos anos. E nisto a culpa terá de ser de Keizer.

Foi Keizer quem colocou o Sporting CP a jogar melhor? É um facto. Mas a verdade é que os resultados vão sempre superar as boas exibições. Nem sempre se joga bem e ganha-se, mas nos últimos anos a grande diferença entre os três grandes é precisamente essa: FC Porto e SL Benfica mesmo não jogando tão bem conseguiam ganhar maior parte dos jogos, o Sporting CP não. José Peseiro não apresentava um futebol vistoso mas os adeptos olhando para a diferença pontual na sua saída para os dias de hoje, acabam por ser muito mais críticos com o atual treinador e a questionar até se José Peseiro não faria igual ou melhor.

Eu não gosto nem de José Peseiro nem de Marcel Keizer. Não são treinadores para o Sporting CP e para as suas ambições. Face ao que aconteceu recentemente em Alvalade era preciso alguém com um pulso mais firme no balneário, algo à semelhança do que faz Sérgio Conceição no FC Porto.

Mas entre um e outro, gostava da ideologia inicialmente apresentada por Marcel Keizer. Disse gostava porque uma das vantagens do técnico holandês foi por água abaixo muito rapidamente. A ideia de jogo fluída, apoiada, com pressão alta, com um futebol vistoso mesmo que o processo defensivo fosse muito débil, que permitia ao Sporting CP marcar vários golos e sair por cima dos adversários, foi substituída por um futebol novamente lento, previsível, sem ideias e sem soluções. Juntando ainda o facto de a aposta na formação/jovens jogadores ter sido uma breve miragem.

Jovane Cabral, Miguel Luís, Bruno Paz, Pedro Marques, Thierry Correia ou até Abdu Conté foram alguns nomes que foram surgindo nas convocatórias e alguns tiveram, inclusive, minutos na Liga Europa. E era esta a ideia que Keizer trazia mas que se desvaneceu. Apenas Jovane e Miguel Luis foram aposta e cada vez com menos tempo e visibilidade, chegando inclusive a jogarem nos sub-23. Francisco Geraldes regressou de um empréstimo e conta com sensivelmente 15 minutos de jogo.

Marcel Keizer chegou com uma filosofia de não se agarrar a uma equipa-base para passar a usar sempre a mesma equipa. Com a quantidade de jogos que os grandes clubes têm de disputar actualmente, começa a não fazer grande sentido o conceito de equipa-base. Os jogadores têm grande desgaste, sofrem lesões com frequência, há castigos, pelo que a equipa tem de estar sempre a mexer. Além de que, deste modo, se mantêm todos os jogadores motivados. No entanto, Keizer insiste sempre nos mesmos jogadores e sobretudo em jogadores que não rendem o que devem render e que não acrescentam nada ao processo ofensivo, quer defensivo dos Leões.

Por exemplo, Nemanja Gudelj na teoria tem uma ótima meia distancia, um ótimo passe e visão de jogo, no entanto nunca remata ou remata mal, nos passes não é vertical, apenas lateraliza ou joga atrás. Faz o mesmo que Petrovic basicamente. É incrível como com a chegada do jovem Idrissa Doumbia, que demonstrou excelentes indicadores e até por todas as lacunas que o plantel leonino tem, não seja de titular de caras sobretudo pelas suas características individuais: uma enorme aliança entre o ponto de vista físico e o ponto de vista técnico.

Outro exemplo é o de Bas Dost. De goleador passou a um jogador nulo em campo. Desmotivado ou não, Dost não é um jogador de equipa grande. Não é. Marca muitos golos? Sim. Mas marca muitos de penalty ou muitos de encostar que qualquer um faria. É a minha opinião. E eu prefiro um jogador que marque menos mas que dê mais à equipa, que participe mais no jogo, que defenda, que ataque. Enfim, que faça um pouco de tudo, permitindo naturalmente à equipa criar mais oportunidades. Não marca 20 ou 30 golos, marca 10 ou 15 mas a equipa no seu coletivo irá ter uma performance melhor e naturalmente outros jogadores irão acabar por fazer golo.

Dost neste momento não liga o jogo ofensivo, não pressiona (aliás, nunca o fez), não reage à perda da bola e o mais gritante de tudo – sobretudo no jogo contra o Villarreal – é não ajudar na organização defensiva. O Sporting CP jogou quase uma parte inteira com menos um jogador e Dost andou na frente, no meio dos únicos 2 jogadores da equipa espanhola, à espera que a bola lhe chegasse como por milagre. Quando chegava, oferecia sempre a bola aos jogadores adversários. Foi desgastante assistir a este jogo, sobretudo neste ponto de vista mais tático que prejudicou a eliminatória.

A eliminatória europeia ficou comprometida com a abordagem de Keizer
Fonte: Sporting CP

A verdade é que recentemente, Keizer conseguiu surpreender o SC Braga com um 3x4x2x1 ou 3x4x3 e a equipa beneficiou e muito nesse jogo desse sistema. Surpreendeu, ganhou de forma inequívoca e a equipa parecia novamente mais solta. Mas durou apenas um jogo. Como se costuma dizer, um relógio parado está sempre certo duas vezes num dia. E é aqui que quero chegar e é aqui que o titulo do artigo começa a fazer todo o sentido. O holandês começou com um 4x3x3 e funcionou, começou a ser previsível e começou a ter maus resultados e a perder o rumo e o controlo da situação. Alterou ao fim de N jogos para o tal 3x4x3 que só voltou a funcionar na perfeição num jogo.

Depois juntando a isto, a capacidade para ler o jogo e para mexer na equipa é nula! Nula! Mexe numa equipa aos 70/75 minutos. Raramente gasta as substituições todas, maior parte das vezes mexe mal: um treinador nunca pode deixar Dost em campo tendo em conta a situação da eliminatória da Liga Europa na altura da expulsão, era preciso meter jogadores mais rápidos e frescos, procurando o contra-ataque.

Mas o que fez o holandês? Tira Diaby, mete Raphinha. Permanece Dost, tenta defender em 4x4x1 ou em 5x3x1 em que muitas vezes era Bruno Fernandes a defesa esquerdo, completamente esgotado. Vejo um treinador em casa, a perder com o eterno rival e a primeira solução que vejo saltar do banco é Petrovic. O mercado de Janeiro, com as saídas de Nani e Montero só permitiu ao Sporting CP piorar o seu plantel, quer a nível tático mas sobretudo a nível técnico.

Enfim, uma panóplia de más decisões que Marcel Keizer tem tomado e mais pressão sobre a direcção de Frederico Varandas. Muito dificilmente vejo o Sporting CP a chegar à final da Taça e a conseguir o terceiro lugar do campeonato. É e será uma época totalmente falhada quer por parte da direcção – que é o maior responsável pela situação atual do clube – quer por parte do treinador holandês que começa a revelar não ter a capacidade necessária para treinar em grandes palcos.

Foto de Capa: Sporting CP

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