O Sexto Violino

O Troféu Cinco Violinos marcou o quinto jogo particular da nova época do Sporting. Embora marcando cedo e dominando a maior parte do jogo, os leões sofreram dois golos da Lazio (um deles em fora-de-jogo) e apenas venceram nos penáltis (4-2, após o 2-2 nos 90 minutos). Numa altura em que a equipa de Marco Silva está a um dia de concluir o primeiro mês de trabalho, aqui ficam as principais conclusões até agora:

1: Defesa pouco segura

Quando todos pensavam que o central mais perto da saída era Marcos Rojo, eis que sai Eric Dier. O inglês mostrou a sua ingratidão ao virar as costas ao Sporting à primeira oportunidade, valendo-se da última armadilha (esperamos…) que Godinho Lopes deixou no clube para rumar ao Tottenham por 5M€. Futre, Simão, Quaresma e Moutinho são, até hoje, os únicos exemplos de jogadores que traíram o emblema que fez deles jogadores e que conseguiram ter sucesso. Todos os outros têm trilhado um rápido caminho rumo ao esquecimento – o preço a pagar por não terem sabido esperar.

A saída de Dier torna imprescindível a permanência de Rojo. Paulo Oliveira é um central que aprecio, mas temo que a passagem do Vitória para o Sporting seja demasiado abrupta. Além disso, o clube de Alvalade beneficiaria, com Rojo e Maurício, da continuidade de um eixo defensivo que cresceu muito no último ano e que podia agora, em ano de Champions, consolidar ainda mais o seu estatuto. O Sporting não pode dar-se ao luxo de vender 2 dos seus 3 centrais com mais minutos e rotinas na última época, especialmente porque os jogadores em questão mostravam entender-se muito bem. Nas laterais, Cédric tem estado a bom nível mas Jéfferson precisa claramente de concorrência. Ontem, o seu corredor ficou várias vezes desprotegido.

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Não é novidade para ninguém que, para já, a solidez defensiva do último ano ainda tem andado longe de Alvalade. O futebol de Leonardo Jardim era mais calculista e menos espectacular do que o de Marco Silva, mas tinha a vantagem de ser sustentado numa retaguarda forte. Para Jardim, cada jogo era um campeonato que começava a ser ganho lá atrás, para depois desferir um golpe no adversário; com Marco Silva, a equipa tem exibido um futebol de qualidade e com um pendor mais ofensivo, ainda que por vezes desguarnecendo o sector mais recuado na ânsia de procurar o golo. O jogo de ontem, com a Lazio, foi o último exemplo disso mesmo: os italianos foram duas vezes à baliza de Patrício e fizeram dois golos. Urge melhorar neste aspecto, gerindo melhor os momentos de jogo.

2: Meio-campo dá garantias

O sector intermediário é, para já, o ponto forte do Sporting. Não só a nível de opções – bastante mais do que no ano passado, em que o plantel era curto – mas também na qualidade e eficácia demonstradas. Numa altura em que William Carvalho ainda está longe da melhor forma (ontem voltou a mostrar-se um pouco preso, lento e com tendência para complicar lances fáceis), Adrien assume cada vez mais o papel de líder do meio-campo tanto a defender como a organizar jogo, prometendo consagrar-se definitivamente enquanto um dos melhores médios nacionais.

André Martins tem sido, talvez, a surpresa mais agradável: mesmo continuando a não jogar na sua posição natural (pisa os terrenos de Adrien com maior à-vontade), o médio parece ter perdido a vergonha e estar a assimilar bem aquilo que o novo treinador quer dele. Com Jardim, André Martins parecia muitas vezes perdido entre linhas, sem se atrever a entrar na área mas também sem se assumir como o criativo capaz de rasgar defesas e desmontar “autocarros”. Este ano, Marco Silva parece ter-lhe pedido que seja mais ousado e apareça de forma incisiva em zonas de finalização, de modo a baralhar os defesas e a conferir mais soluções atacantes. Não sendo o típico 10, André Martins está a soltar-se e a mexer com o jogo colectivo.

Os restantes centrocampistas também parecem vir acrescentar valor. Rosell tem critério no passe  curto e longo, faltando apenas testar de forma mais constante a sua capacidade defensiva; João Mário fez uma grande segunda metade de campeonato em Setúbal e a sua permanência no plantel é mais do que justificada, podendo actuar quer a médio-centro quer um pouco mais adiantado, onde a sua criatividade e meia-distância serão mais vezes solicitadas; por último, Slavchev veio de lesão e pouco tem jogado, mas parece ser um jogador esclarecido, que conhece várias posições e que ainda vai evoluir; por último, Gauld tem sido mais resguardado, o que se percebe dadas as enormes mudanças recentes na vida de um ainda teenager. Contudo, a sua fantasia poderá ser útil numa fase mais adiantada da época.

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André Martins tem sido a principal revelação da pré-época e continua a mostrar a sua veia goleadora
Fonte: Zerozero

3: Extremos q.b.

Talvez o sector menos forte, porque falta alguém claramente acima da concorrência que se assuma como a grande figura atacante que a equipa não tem. Ainda assim, do pouco que vi de Shikabala, pareceu-me ter capacidade para ganhar o lugar à direita: apesar de poder vir acompanhado de alguns vícios de um futebol menos competitivo (individualismo, eventuais dificuldades a defender, possível estatuto de “estrela”, etc.), o 7 tem boa qualidade técnica e, sendo canhoto, flecte muitas vezes para o meio, não só dotando a equipa de mais uma opção finalizadora como também variando a manobra colectiva, jogando em espaços mais interiores e possibilitando a que do outro lado jogue um extremo mais vertical.

A boa surpresa tem sido Carrillo que, apesar de não estar a fazer exibições de encher o olho, parece ter voltado um jogador mais maduro, criterioso e com maior disponibilidade a defender. Se a equipa evolui, espera-se que o peruano também o faça. Por fim, Capel estará mais perto de ficar e, apesar de ser um jogador pouco inovador nos seus recursos, tem uma entrega notável e é um extremo bastante útil. À espreita estarão Mané (adivinha-se uma temporada com menos tempo de jogo para o jovem português, porque a qualidade, a exigência e o número de opções subiram) e Héldon, de quem se tem dito poder estar de saída por empréstimo. Apesar de também ver no cabo-verdiano o ala com menos possibilidades de tempo de jogo, penso que a extensão da época exige a existência de 5 atletas para esta posição.

4: Quem será o ponta-de-lança?

Montero e Slimani são jogadores diferentes para estilos de jogo diferentes. Com o argelino ainda a poder sair, Marco Silva parece apostar no colombiano para primeira opção. Ainda que continue sem marcar, Montero joga para a equipa e é a opção mais viável para o futebol apoiado que o ex-treinador do Estoril está a querer implementar. Não o vejo como um verdadeiro ponta-de-lança, ainda que os seus primeiros meses em Portugal parecessem indicar o contrário. Nem acho que seja incompatível com Slimani, devido ao facto de os seus recursos técnicos e de leitura de jogo lhe permitirem recuar para a posição de André Martins e jogar no apoio ao argelino, sem que disso resulte um 4-4-2 declarado. No entanto, com o 8 do Sporting a exibir-se a bom nível, essa solução deverá ter de esperar. À semelhança do que aconteceu no ano passado, Slimani talvez comece o campeonato no banco. E há ainda Tanaka, que no jogo com a Lazio deixou boas indicações com um soberbo passe de rotura e um remate com o pé esquerdo que quase deu golo.

5: Qualidade de jogo

Se comecei por alertar para as fragilidades defensivas que ainda subsistem, termino a dizer que já se notam diferenças para melhor no jogo jogado. A equipa tem dado indicações de querer assumir mais o jogo, dando sequência em campo às ambições assumidas pelos responsáveis relativamente à luta pelo título. Ao longo da pré-época tem-se visto (ainda a espaços, é certo) um futebol fluido, com combinações rápidas a meio-campo – algumas vezes ao primeiro toque – e com transições velozes, tendo como objectivo criar perigo apanhando a defesa adversária ainda em contrapé. A nível posicional, parece haver uma tendência para os jogadores baralharem marcações e aparecerem soltos em áreas que normalmente não são as deles, o que também constitui uma novidade. No jogo de ontem já se viu isso, nomeadamente com o já falado caso de André Martins e também as trocas de extremos. O próprio meio-campo parece mais dinâmico nesse aspecto.

 

Depois da primeira derrota da pré-época (2-0 com o Twente), o Sporting voltou a não conseguir ganhar e a sofrer 2 golos. Ainda que todos os empates e derrotas constituam sempre desilusões, é preferível que elas aconteçam nesta altura. Com bola o Sporting tem-se revelado um conjunto capaz e pratica um futebol agradável mas, na hora de defender, os erros e hesitações sucedem-se. Há ainda muito trabalho por fazer, pelo que até é bom que a equipa experimente todos os resultados e contrariedades possíveis antes de os jogos a sério começarem. Até lá, vão-se coleccionando troféus: primeiro o Troféu Pauleta e a Taça de Honra (competição oficial), agora o Troféu Cinco Violinos, naquela que foi uma merecida homenagem ao melhor quinteto de sempre do futebol português e cujos nomes nunca é demais recordar: Jesus Correia, Travassos, Peyroteo, Vasques e Albano.

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O João Sousa anseia pelo dia em que os sportinguistas materializem o orgulho que têm no ecletismo do clube numa afluência massiva às modalidades. Porque, segundo ele, elas são uma parte importantíssima da identidade do clube. Deseja ardentemente a construção de um pavilhão e defende a aposta nos futebolistas da casa, enquadrados por 2 ou 3 jogadores de nível internacional que permitam lutar por títulos. Bate-se por um Sporting sério, organizado e vencedor.                                                                                                                                                 O João não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.