O passado alegra-me. Ao relembrar memórias e vivências, sou dominado por uma nostalgia no sentido mais lato que esta conhece. O simples ato de pensar ou de reconstruir momentos que teimam em não desaparecer dada a magia que lhes está confinada edifica, na minha expressão, um sorriso genuíno, estimulado por conversas, olhares ou gestos que me encheram a alma e a adornaram com o índice de felicidade calculado em safiras e diamantes, na imponência que os distingue.

E fico livre, solto como uma borboleta na primavera que a cerca. Leve como uma pena sob os mandamentos da lei da gravidade, mas com a força de quem renuncia às suas escrituras. E lá vai ela, descendo suave e delicadamente as diversas camadas aéreas, emanando despreocupação. E eu, à sua semelhança e em jeito de imitação, desenho o meu trilho rumo ao fim que espera qualquer mortal, com a elegância característica de uma pena e com o medo de não mais sentir aqueles insetos imaginários preencherem o meu espaço cerebral.

E, no meu pensamento, emerge Liedson. O Levezinho. Literalmente. O primeiro ponta de lança que despontou o esboço raso dos meus lábios. A magnum opus futebolística capaz de colorir a primeira fase da minha infância e pintá-la em tons de verde e branco, sem qualquer tipo de espaço para outra cor.

O matador leonino deixou saudades em Alvalade
Fonte: UEFA

Aconselho a pausa na leitura. Restabeleçam o fôlego e a concentração. O paralelismo feito com uma pena é descabido? Em jeito metafórico, o que se lhe poderia atribuir? Uma pessoa que, na gíria, “foge ao fisco”?  Alguém que consegue sobrelevar-se a qualquer barreira, muro ou obstáculo? A pessoa que, diante do inimigo, prevê o movimento seguinte? O único indivíduo capaz de, no seio de tempestade, possuir o discernimento necessário para contorná-la? Talvez, um misto de todas estas possibilidades…

Os seus contemporâneos demonstraram afeto imediato. Qualquer adepto, do croquete ao rissol, aquando de um tento apontado, festejava e esbracejava como de um feito inédito se tratasse. A indiferença e a neutralidade não coabitavam em Alvalade. Cabeça, tronco, membros inferiores, apêndice, cóccix, o que interessava? Era golo do Liédson e isso bastava!

Transportem o campo da imaginação para dia ou noite de derby: se um golo de qualquer jogador banal já exultava e estremecia as bancadas do convento, deduzam o tremor causado pela transposição da bola para lá do guarde-redes (Quim, Moretto ou Moreira, ele adorava-os e sentia carinho pelos três, de igual forma). (Palavra de apreço, também, ao Luisão, ao Alcides e ao Anderson, centrais que alegraram os meus olhos durante alguns pares de 90 minutos pelas fissuras defensivas, que tão esbeltas eram!). E lá manifestava o seu festejo, de mão em riste e a voltear a orelha direita, num pedido autónomo dirigido às bancadas, de modo a que os adeptos bradassem os cânticos ao ritmo da sua batuta (a do golo, está claro).

E, alicerçado no meu desabafo inicial, digo: “antigamente” (desculpem-me a utilização da expressão com algum caruncho), a minha preocupação não reservava qualquer espaço, por diminuto que fosse, ao articular do discurso e posterior argumentação face à temática da instabilidade, divisão e cisão, capítulo (relembrem-me!). Limitava-me, apenas, a observar a suspensão da pena e a primavera da borboleta verde.

Foto de Capa: Sporting CP

Artigo revisto por Diogo Teixeira

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