A inevitabilidade de ortografar afirma-se no seio da alma que me cerca. O tempo urge uma força dirigida a Bas Dost, holandês que ocupa o espaço maioritário do cubículo pequeno salvaguardado pelo meu peito, primado pela cordilheira dramático-emocional que me proporcionaste e que, convictamente, irás continuar a proporcionar.

A ingratidão, o desconhecimento e a infâmia estão circunscritas no pedestal da memória humana pelo facto de, ultimamente, mares e rios de juízos altamente destrutivos e ignóbeis serem destinados a ti. Contudo, o paradoxo emerge no reduto leonino: com tanto discurso ao abrigo da “união sportinguista”, como é que a perpetramos se, constantemente, são exercidas palavras vis e desprezíveis a ti, querido holandês?

Atracaste em Alvalade há (quase) três anos. Numa primeira instância, confesso que, na altura, a dezena de milhão de euros constituiu, nos meus devaneios, o píncaro da estupidez e gestão danosa. Acostumado à presença assídua de Islam Slimani, e movido pela comoção provocada pela sua entrega, humildade e determinação, fui absorvido pela frivolidade dos meus pensamentos de então e, sem mereceres, posicionei-te junto dos “flops”.

Porém, os golos impuseram celeridade ao meu silêncio e dissiparam todas as minhas dúvidas, restituindo os níveis de esperança e audácia passíveis a cada jogo. O teu faro goleador expandiu-se de casa até ao mundo, o teu rugido fez vibrar milhões de índoles, penetrando a obscuridade e escuridão de muitas outras.

Até à data, com pouco mais de uma centena de jogos realizados (103), apoderaste-te das balizas adversárias por 85 vezes e ecoas-te, num uníssono pavoroso, festejos atrás de festejos, edificados em posteriores sorrisos e abraços.

A vulgarização da tradição supracitada efetuou-se avidamente, sintomática, na primeira época, de 34 tentos sinalizados, conferindo-te o estatuto de “Bola de Prata” e o constante assédio por parte de clubes europeus de maior estirpe. A questão possui semblante lúdrico, porém tenho de a direcionar a ti: tens noção do “orgasmo mental” de que fui vítima aquando dos teus três golos em Braga? (Indescritível, soberbo, impagável).

É certo que nada vencemos a nível nacional e internacional, sucedendo-se o tédio do terceiro posto na tabela classificativa. Não obstante, querido holandês, se não tivesses feito parte da família do leão, os alicerces de então desmoronar-se-iam e toda a agregação de resultados mostrar-se-ia (ainda mais) ruinosa do que efetivamente foi.

Após o Ataque Alcochete, Bas Dost regressou a Alvalade
Fonte: Sporting CP

No término da época transata, após golos e mais golos (normalidade) foste alvo de um ataque desumano, hediondo: ameaçar jogadores, violentá-los é, por si só, uma irracionalidade tamanha; mas, golpear-te com um cinto? A ti? Ao goleador que fez olvidar problemas ofensivos anteriores? À laranja mecanizada com a maior parte dos cruzamentos? À frieza imposta pelos teus remates e cabeceamentos? Ao carinho especial que tens por este clube? Independentemente de tudo isso, voltaste após a rescisão.

Para alguns, nada significou, classificando o gesto como “mercenário”, ingenuamente. Para mim, foi tudo. Mostraste altruísmo, abnegação e espírito de sacrifício. Não merecíamos a tua vinda, acabaste por nos fazer a vontade. Parece contraditório, mas não é. Fico tão contente pelo facto de, para ti, a ferida não se interiorizar e subjugar a alma à repulsa e ao ódio.

A época vigente, comparativamente às duas anteriores, assinala um registo anémico. A média regista perfurações, os níveis de confiança não são os mais elevados, os desperdícios consequentes e a dependência dos golos aos quais nos habituaste cada vez mais conspícua. Para ultimar carta tão extensa, deixo um conselho: não te sirvas do altruísmo que usaste (e bem!) na situação do ataque a Alcochete porque algum egoísmo, durante o jogo, é preponderante para me fazer sorrir e a outros tantos que, sem demonstrar, gostam de ti.

Obrigado, holandês de 1,97m, pelo que lutaste e irás continuar a lutar pelo nosso Sporting Clube de Portugal!

Foto de Capa: Sporting CP

artigo revisto por: Ana Ferreira

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