cartaaberta

Parece repetitivo, eu sei, mas também no teu exemplo já há algum tempo que andávamos a ouvir o compromisso de promessa do teu talento. Enquanto se confirmava a afirmação de um outro jovem, ia-se ouvindo que um dos próximos era o Podence. Como se não bastasse o jeito, ainda tens nome de craque – vale o que vale, mas fica bem em qualquer camisola. Por infeliz coincidência ou por distracção minha, vi-te jogar pela primeira vez no começo da presente época, em Alvalade, no jogo de apresentação da equipa. Jogaste na segunda parte, lembro-me. Nessa altura já seria certa a tua cedência para a outra equipa. Dizem que faz parte do processo e eu acredito, até porque resultou. Com naturalidade fizeste-te referência desse plantel e durante quatro meses marcaste mais golos do que muitos avançados envolvidos em transacções de mercado. E tudo isto com uma taça pelo meio, ganha a pulso. É obra.

Depois, todo o paradigma que apresentas. Existem, pelo menos, dois ou três ditados que servem na perfeição ao teu exemplo, já para não falar em todo o índice de paradoxalidade que existe na comparação entre a tua altura e o teu talento. Não digo isto gratuitamente, nem tão pouco pela piada que poderás achar: é apenas porque não é normal alguém assim, parecendo frágil, relativizar dentro de campo todas as teses que se sustentam na lei da força e da física. Não deixa de ser irónico, a propósito, ver-te fazer cruzamentos milimétricos para a cabeça de um jogador que tem mais umas dezenas de centímetros. Que dupla. Chega a roçar o Universo fabulístico, como a história do Golias.

Fonte: Sporting CP
Fonte: Sporting CP

Mas falemos daquilo que importa. No último jogo foste titular, mas quando não o és (não sei se já reparaste) o estádio olha sempre para a zona de aquecimento, querendo perceber se já estás preparado. Tornaste-te num género de armamento de utilidade constante, um alívio para quem gosta de ter jogadores que agitam o jogo. É por tudo aquilo que o teu caso representa que já se garantiu a imortalidade do nosso clube. Não há como não pensar no futuro mais risonho. É isso: quero terminar esta carta a falar nele.

Se voltaste antes do tempo previsto para a casa que te viu crescer é porque fazias falta mais cedo. Já o confessei antes: magoa-me o consecutivo adiamento do nosso sonho, embora saiba que a concretização está perto, cada vez mais. Se para o próximo ano é que é, então que seja. Que seja também contigo, e que a espelhagem da nossa felicidade, a de jogador e a de adepto, coincida com o resto do teu crescimento, já que vais aprender com a pessoa que melhor te pode ensinar. Esta época antes temos tempo para deixar raízes; sei que me percebes. Daqui a nada vamos começar a ouvir falar de reforços e das promessas da América Latina. Também faz parte.

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Mas eles que se cuidem até perceberem que, para falar contigo, não és tu que tens de estar em bicos de pés.

Foto de Capa: Sporting CP

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