a norte de alvalade

Demorou muito pouco o tempo em que conseguimos manter-nos donos do nosso próprio destino, pelo que, quando logo aos dezoito minutos, ficamos a perder por dois golos de diferença, passámos a jogar mais em Maribor do que Londres. O jogo acaba por ser um epitáfio justo da nossa participação nesta fase de grupos, e que também marca as restantes participações da época: qualidade e desequilíbrio. Explico: o Sporting demonstrou em Londres que o seu jogo tem qualidade para criar oportunidades e marcar golos, mas é demasiado inconsistente e inseguro para poder depender da sua capacidade defensiva para conseguir resultados. A este nível, e ainda por cima contra uma equipa com o poderio que tem o Chelsea, a realizar uma grande época, isso é ainda mais claro e acabou por ser fatal. Desequilíbrio também nas opções também à disposição de Marco Silva. Se é natural que Nani não tenha substituto à altura, Cédric, por exemplo, deveria ter.

Tudo acaba por ficar condicionado com uma infantilidade (leia-se ingenuidade) de Esgaio. O lance foi fatal para as nossas aspirações e também para o jogador, que acabou por jogar nitidamente diminuído psicologicamente, quer a defender quer mesmo quando se abriam hipóteses, mesmo que ténues, de atacar. O Chelsea estava a jogar confortavelmente com as suas linhas recuadas mas o desinteresse era só aparente. Sempre que conquistava a posse de bola, jogava simples, procurando quase sempre a grande capacidade de Fabregas de criar jogo e definir com qualidade. As movimentações de Schürle, partindo da linha para as costas do fantasma de William – onde andas tu? – eram golpes constantes a impor sofrimento e a anunciar que um golo na nossa baliza podia sempre acontecer.

Ora, mesmo sendo consentido, o Sporting ia dando indicações que sabia o que fazer à bola. Faltou Nani, o que assumiu também um carácter decisivo para o nosso jogo. Mas se o nosso dezassete esteve ausente Stanford Bridge pôde ficar a conhecer Nanillo. Perdão, Carrillo, que fez de Nani e de Carrillo. Talvez fosse suficiente se o adversário fosse o Boavista, como no passado fim-de-semana, ou até talvez um pouco mais forte, mas não com equipas da igualha do Chelsea. Capel era completamente inofensivo do outro lado e João Mário não conseguia passar os dois muros, perdão, médios de contenção, Mikel e Matic, tornando Slimani numa ilha.

O segundo tempo não deferiu muito do primeiro, apesar do golo de Jonathan ter dado algum fôlego à esperança, mas a resposta não demoraria. Um pouco à semelhança do golo de Matic em Alvalade, o Chelsea atrairia a defesa de uma bola parada ao primeiro poste para a fazer cair no outro extremo, sem que a defesa reagisse como devia. Pareceu fácil, o que se justifica pela qualidade da execução e pelo facto de não termos aprendido nada no primeiro jogo.

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E assim saímos para a Liga Europa. Um apuramento natural e esperado quando se conheceu a composição do grupo mas que agora, face ao ocorrido no apuramento, acaba por saber a pouco. Dois lances patéticos – o golo já nos descontos em Maribor retirou-nos dois pontos, o inominável penalty na Alemanha – acabariam por nos afastar de um apuramento que seria inteiramente merecido. Mais importante que chorar sobre o leite derramado é reconhecer uma participação valorosa do Sporting a marcar o regresso à mais importante competição de clubes do mundo. Assim saibamos aproveitar a experiência para crescer e voltar mais fortes. E termino desejando que esta presença se torne um hábito e não uma aventura esporádica.

A Figura:

A Carrillo nunca faltou talento, apenas demonstrá-lo de forma consistente. Dois jogos é ainda muito pouco para o que se espera e exige a um grande jogador que ele tem tudo para vir a ser. Mas era preciso começar e Carrillo parece tê-lo feito agora. Encheu o campo, assumiu as despesas do ataque praticamente sozinho. A forma como encara os adversários e depois os deixa para trás parece querer dizer que a confiança de que necessitava também está ai. Se tudo isto se confirmar é uma boa noticia para o Sporting e para o futebol em geral, porque quer num quer noutro, à sua escala, não faltam histórias de grandes promessas que nunca foram mais do que isso: promessas.

O Fora-de-Jogo:

No polo oposto a Carrillo encontramos agora William. E nas razões que explicam o mau momento – diria apenas menos bom, para ser justo – estão duas que partilha com as que justificam o bom momento de Carrillo, só que pelo seu inverso. A confiança tarda em chegar, há coisas que já lhe vimos fazer com naturalidade que agora não consegue realizar nem em esforço. Por outro lado, e ao contrário do seu companheiro de cima, parece ter ficado a perder com a chegada de Marco Silva. Hoje não foi o William que era preciso e se houve vários jogadores nas mesmas circunstâncias ou pior é natural a maior severidade com aqueles de quem mais esperamos.

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