Winston Churchill disse, um dia, que “a democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as demais”.

Na sociedade atual, por razões que deviam motivar grande preocupação, multiplicam-se as ascensões ao poder daqueles que têm a ventura de ter meio país desatento, sucedendo-se, assim, os casos, já pouco singulares, de abstenção alargada, processos de destituição ou perdas de confiança.

No Sporting, como no Brasil e Estados Unidos da América por exemplo, e ainda que por razões e com magnitudes totalmente distintas, fazem-se ouvir, agora, as tentativas de, dentro dos instrumentos democráticos existentes, levar avante uma intenção de destituir o seu atual Presidente e restante direção.

É com este pano de fundo, com este cenário possível, que temos que avaliar o que será a segunda parte da época desportiva do clube, em particular naquilo que é o produto guloso, sorvido de forma insaciável pela comunicação social que é, justamente, o futebol.

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Muitos, bastantes até (parece-me), são aqueles que se ouvem a condenar a gestão que o atual presidente do Clube tem feito. Muitos são aqueles que se antecipam com soluções milagrosas para salvar o clube da queda livre em que tem entrado, segundo eles, desde que esta direção começou a trabalhar. Vários são aqueles que vaticinam remédios e condenam opções e decisões tomadas por esta direção ao longo do seu exercício. Certo é que nenhum deles sabe, como eu também ignoro, o estado da nação que existe para lá das capas de jornal, que existe para além dos intermináveis debates que escrutinam até à exaustão a atividade futebolística nacional (e não a desportiva, note-se).

Mas parando e fazendo as contas, importa refletir. Será que o Sporting está assim tão mal? Será que está pior do que estaria nas mãos daqueles que se perfilaram nas eleições como potenciais candidatos aos cargos que agora estes exercem? Será que as decisões tomadas por esta direção não têm um rumo, uma estratégia, uma visão holística superior à sedenta vontade do resultado imediato e dos horizontes de curto prazo (e curto alcance) que se revelam insustentáveis? Não sei eu nem aqueles que pretendem a referida destituição. Sabe quem está lá dentro e que, diariamente, põe as mãos na massa.

A verdade é que a gestão de um clube como o Sporting CP, no estado em que aparenta estar, precisa de garantir o perfeito equilíbrio entre as necessidades de sustentabilidade financeira e o sucesso das suas prestações desportivas, não só a do futebol.

Até agora, a atual direção viu-se obrigada a recuperar o clube do maior arrombo e roubo da sua história, o que, naturalmente, foi uma situação nunca antes vivida por outro corpo diretivo. Viu-se obrigada a reenquadrar o seu posicionamento junto dos demais agentes, seja desportivos ou comerciais, face à perda inqualificável de valor e credibilidade da marca Sporting no mundo desportivo. Pelo meio, reduziu a folha dos custos do clube com cortes e dispensas nas mais diferentes áreas (incluindo no futebol), vendeu ativos e fez negócios de outros pelos valores financeiramente possíveis e, ainda assim, ganhou títulos nas diferentes modalidades, incluindo, recorde-se, no futebol.

Começaram a trabalhar no dia 9 de setembro de 2018, na expectativa, com um plano, uma estratégia votada e legitimada para um horizonte de um mandato inteiro de quatro anos mas, depois de inúmeras dificuldades com que se confrontou, ao fim de pouco mais de um ano de mandato depara-se, agora, com a possibilidade de nem chegar a ano e meio do seu curso.

O futebol leonino continua aquém das expectativas
Fonte: Carlos Silva/Bola na Rede

Se fez coisas, na minha ótica, menos boas? Fez. Podia ter feito melhor? Não sabemos. Certo é que não podemos deixar-nos guiar pelas manifestações concertadas de uma guarda pretoriana que se move por interesses secundários e que pouco importam ao clube. Menos ainda nos podemos orientar pela postura resultadista de apenas uma modalidade do clube.

No fim do dia, há pelo menos um dos problemas que se mantém no Sporting CP e que a atual direção almejou concertar deste o primeiro discurso oficial: unir o Sporting CP e isso, até agora, não foi feito e tudo indica que, tão cedo, não acontecerá.

Se a nossa postura em relação ao clube e sua direção se guiar pelos resultados desportivos do futebol vamos ficar sempre reféns daqueles que se aproveitam da ignorância da massa associativa sobre o que se passa lá dentro e penhoram o clube para poder, desesperadamente, dar títulos aos seus intransigentes adeptos. O Sporting CP precisa de estabilidade e, aos poucos, com o equilíbrio entre a reorganização e reestruturação financeiras e a capacidade de rentabilização dos seus ativos desportivos, garantir a entrada num caminho de sucesso, caminho esse que se faz caminhando, por vezes com tropeções, mas sempre na direção certa.

O que esperar da segunda metade da época futebolística deste Sporting CP? Com a atual direção, a mal ou bem, podemos manter aquela ponta de esperança num percurso que, apesar de custoso, e se alinhados os astros, poderá levar a algum lado honroso e, posteriormente, a partir dos erros desta época, preparar a próxima, sempre com a capacidade de ir estabilizando financeiramente o clube para poder criar uma base sustentável de crescimento.

No segundo cenário, com a destituição da direção a ter lugar, estou certo que a segunda parte da época continuará condenada ao mesmo tipo de qualidade, com a agravante de vermos o clube assaltado por inúmeros S. Sebastiões que dizem reunir em si as qualidades de Rei Midas.

Será que tudo foi feito bem no percurso desta Direção? Acho que não. Será que destituir a Direção é o caminho que o Sporting CP precisa para regressar ao caminho tão desejado da vitória? Naturalmente que não. Estabilidade e união são o principal antídoto para o estado deste clube, sobretudo para aquilo que se assiste nas suas bancadas.

Mas, enfim, quer queiramos quer não, quer concordemos ou não, e não sabendo o que o futuro trará ao Sporting CP, sabemos que é por esta riqueza e pluralidade de visões que Winston Churchill disse que democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as demais.

Foto de Capa: Carlos Silva/Bola na Rede

Artigo revisto por Diogo Teixeira