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Eusébio da Silva Ferreira foi inegavelmente o melhor futebolista da sua geração a nível nacional e um grande jogador à escala mundial. A Taça dos Campeões conquistada ao serviço do Benfica (esteve apenas presente numa e não nas duas, ao contrário do que é comum dizer-se) e a prestação brilhante ao serviço da selecção no Mundial de 66 levaram a sua fama além-fronteiras, algo que Peyroteo, em parte devido ao facto de na sua altura não haver competições europeias, não teve a sorte de alcançar. Eusébio passou a ser unanimemente admirado pela comunidade internacional – situação que contrastava com o desprezo estrangeiro por Portugal, à época um país isolado, ditatorial e em guerra. Muitos portugueses, mesmo os de outros clubes, vibraram com os seus golos em Inglaterra e choraram com o fim do sonho de conquistar o Campeonato do Mundo. Eusébio era, por esta altura, um homem idolatrado por todos. Por que razão, muito depois de ter terminado a carreira, havia de querer deitar tudo a perder? Não consigo encontrar uma resposta, mas foi precisamente isso que aconteceu.

É verdade que Eusébio não tinha tanto à-vontade ao nível do discurso como em tempos tivera com a bola. Aquilo que dizia, sobretudo nos últimos tempos, era nitidamente moldado por responsáveis do Benfica. Dou-lhe esse desconto, mas isso não justifica tudo. Frases como “o Benfica só perdia com o Sporting se jogasse com os juniores” ou “nem do Sporting de lá [Moçambique] gosto, quanto mais do de cá” apenas contribuíram para que os Sportinguistas tivessem deixado, como foi o meu caso, de se rever minimamente neste ex-jogador. Eusébio também omitiu o papel do Sporting no início da sua carreira, quando o Benfica local o rejeitou, dizendo que “tudo o que hoje sou é graças a mim, aos meus colegas e ao Benfica”. Mas dizer que “no meu bairro, o Sporting era um clube de elite, da polícia e racista”, é passar todas as marcas. Estas palavras, ditas em vésperas de derby e poucos dias depois de Javi Garcia ter sido precisamente acusado de racismo, fazem com que, na minha opinião, os Sportinguistas tenham de saber distinguir o Eusébio jogador do Eusébio ex-jogador.

Se o primeiro foi sublime, o segundo faltou várias vezes ao respeito a um clube que sempre o valorizou e admirou. Felizmente, vários ex-jogadores africanos do Sporting, entre os quais Hilário, vieram desmenti-lo. Mas não deixa de ser triste que Eusébio, uma das maiores figuras do desporto nacional – inclusivamente para muitos Sportinguistas – tenha optado por essa via. A todos os que, na altura, bateram palmas a estas palavras, recordo que o racismo e a discriminação social não se dividem por clubes. Não existem “clubes racistas”, existem apenas pessoas e sectores que podem sê-lo ou não. E, assumindo que o Benfica é o clube com mais adeptos a nível nacional, os racistas talvez até sejam em maior número nesse clube do que noutros, quem sabe. A conversa dos 6 milhões vale para o bem e para o mal.

A entrevista de Eusébio à "Única", uma das ocasiões em que o Pantera Negra se dirigiu ao Sporting em termos menos próprios/ fonte: leaodaestrela.blogspot.pt
A entrevista de Eusébio à “Única”, uma das ocasiões em que o Pantera Negra se dirigiu ao Sporting em termos menos próprios/ fonte: leaodaestrela.blogspot.pt

Numa altura em que sobram os elogios sinceros de muitos e o oportunismo de alguns, vejo-me na obrigação de evocar tudo isto, para que não caia no esquecimento. Não o faço como tentativa de provocação a quem quer que seja, e menos ainda como um ataque a quem já não se pode defender. Sei que o desaparecimento do “Pantera Negra” é um momento triste para os benfiquistas, e respeito todos aqueles para quem este jogador é um ídolo. Quero apenas, através de factos, demarcar-me da onda de elogios incondicionais ao Eusébio – atitude a meu ver justificável, já que esta pessoa nem sempre foi correcta para com o meu clube. Se, contudo, algumas destas declarações podem denotar uma certa ingenuidade da parte dele – a mesma ingenuidade que o fez admitir à RTP que, quando jogou pelo Beira-Mar contra o Benfica, foi dizer aos ex-colegas que não iria sequer rematar à baliza, atitude que se situa no limiar entre o mau profissionalismo e a corrupção activa – outras, como é o caso das evitáveis palavras sobre Cristiano Ronaldo (“nunca joguei contra o Liechtenstein”), revelam uma pessoa triste e, porventura, com medo de ser esquecida. Tanto a primeira como a segunda situação me parecem compreensíveis do ponto de vista humano, mas ambas são também condenáveis do ponto de vista ético.

Ricardo Araújo Pereira escreveu ontem que “Eusébio é outra maneira de dizer Benfica”. Concordo por inteiro. A admiração por Eusébio foi comum a várias gerações anteriores, mas ele, mais do que um símbolo de Moçambique e de Portugal, é um símbolo do Benfica. Pessoalmente, como não sou benfiquista, não ligo muito à selecção nem aprecio o modo como o Eusébio por vezes falava do Sporting, não o tenho como grande referência. E, da mesma forma que percebo que muitos benfiquistas não morram de amor pelo Ronaldo depois de ele lhes ter levantado o dedo (ainda que isso tenha ocorrido após mais de uma hora de assobios ao jogador), também me sinto à vontade para emitir a minha opinião sobre este assunto. Os benfiquistas não podem querer fazer do seu jogador mais emblemático um símbolo nacional à força, se tanto esse jogador como o discurso oficial do clube não são capazes de respeitar as restantes instituições desportivas do país. Faz-me confusão que surjam campanhas a elevá-lo a “herói unificador” quando nem o próprio Eusébio fez por isso. Mesmo que Figo e Ronaldo não tivessem atingido um nível ainda mais estratosférico do que o de Eusébio e Peyroteo, nunca me iria sentir verdadeiramente representado pelo “Pantera Negra” – o que não significa, claro, que não reconheça o seu brilhantismo dentro de campo e a importância que teve e ainda tem no imaginário de várias gerações. Jogador genial, claro que sim. Ídolo, talvez. Mas não o meu. Que descanse em paz.

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O João Sousa anseia pelo dia em que os sportinguistas materializem o orgulho que têm no ecletismo do clube numa afluência massiva às modalidades. Porque, segundo ele, elas são uma parte importantíssima da identidade do clube. Deseja ardentemente a construção de um pavilhão e defende a aposta nos futebolistas da casa, enquadrados por 2 ou 3 jogadores de nível internacional que permitam lutar por títulos. Bate-se por um Sporting sério, organizado e vencedor.                                                                                                                                                 O João não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.